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Edição 2114

27 de maio de 2009
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Música
O belo, os bonzinhos e os maus

Do consagrado Justin Timberlake aos comportados Jonas Brothers, passando pelos rebeldes ingleses do McFly, o que os garotões
do pop têm a dizer ao público adolescente e pré-adolescente


Anna Paula Buchalla, de Nova York, e Sérgio Martins

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Quadro: A fama em jogo
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Jonas Brothers
Justin Timberlake

Quem quer que deseje entender por que a música pop ocupa um espaço tão grande na vida dos adolescentes – e, de maneira sempre mais acentuada, também na daquela faixa etária entre os 9 e os 13 anos conhecida como pré-adolescência – deveria guardar na memória estes últimos dias de maio, quando duas das maiores bandas voltadas para esse público se apresentam no Brasil. Sucesso estrondoso em todo o mundo, o trio americano Jonas Brothers reservou duas datas para shows no país: dia 23, no Rio de Janeiro, e dia 24, em São Paulo. Também no auge da popularidade, o quarteto inglês McFly planejou uma turnê mais extensa, cobrindo sete capitais – de Manaus a Porto Alegre. A visita simultânea das duas bandas é curiosa porque elas encarnam estilos opostos: os primeiros são castos e religiosos; os segundos, irreverentes e provocadores. E é essa mesmo a questão: o cenário pop é uma espécie de teatro em que as escolhas que meninos e meninas começam a fazer são projetadas de maneira ao mesmo tempo inconsequente e muito séria – escolhas sobre como lidar com a autoridade dos pais e testar seus limites, sobre como descobrir o sexo, sobre como moldar a própria identidade. Não é por outra razão que tantos jovens trocam de ídolo com uma frequência que deixa os adultos zonzos. Alguns artistas, no entanto, conseguem uma permanência surpreendente nesse universo volátil – e acabam acompanhando os fãs até a maturidade. Um exemplo disso é o mega-astro americano Justin Timberlake, de 28 anos, que VEJA entrevistou para esta reportagem.

Desde os anos 50, nos primórdios do rock, a indústria fonográfica se esforça para produzir ídolos que conquistem os adolescentes. Formado em 2003, o McFly, com seu figurino entre rebelde e romântico, se enquadra nessa tradição. Com idades entre 22 e 24 anos, Tom Fletcher e Danny Jones (guitarra e vocais), Dougie Poynter (baixo) e Harry Judd (bateria) conquistaram o primeiro lugar na parada inglesa já com o disco de estreia, Room on the 3rd Floor. Também já incursionaram no cinema: em 2006, foram protagonistas de Sorte no Amor, uma comédia romântica que tinha como estrela a doidinha Lindsay Lohan. Houve rumores de um romance entre Lindsay e Judd, mas ele não confirma nem desmente o namorico. Muito de acordo com seu figurino revoltado, os quatro músicos não admitem que os tomem por um grupo de rostinhos charmosos. "Não somos bonitinhos. Aliás, se nosso sucesso dependesse da beleza, estaríamos perdidos", desdenha o vocalista Tom Fletcher. O fato, porém, é que não é só pela música que as meninas gritam e suspiram nos shows do McFly.

Embora também tenham grande apelo entre as meninas de 15 ou 16 anos, o Jonas Brothers atinge em cheio uma faixa etária diferente, que só recentemente tem merecido atenção da indústria do entretenimento: os chamados pré-adolescentes. Educados em um ambiente de muitos estímulos tecnológicos – em geral, sabem usar o computador melhor que os adultos – e mais precoces do que foram seus pais, os pré-adolescentes já revelam o desejo de afirmar sua identidade, mas ainda não extravasam a rebeldia típica dos adolescentes. O Jonas Brothers é a banda perfeita para eles: sua performance de palco roqueira encena uma certa coreografia da rebeldia juvenil, sem realmente romper o quadro do menino obediente à família. Essa rebeldia controlada explica seu apelo romântico junto às meninas (os garotos podem até tê-los como modelo de comportamento, mas são minoria entre seus fãs): bonitinhos e barulhentos, os três irmãos jamais se mostram ameaçadores.

Os irmãos Nick, de 16 anos, Joe, de 19, e Kevin, de 21, lançaram seu primeiro disco em 2006, pela Sony Music – que os dispensou porque as vendas ficaram abaixo do esperado. Pouco tempo depois, a Hollywood Records, braço fonográfico da Disney, contratou os manos. Foi o casamento perfeito: a Disney é a maior produtora de filmes, programas e músicas voltados para os pré-adolescentes, como o sucesso High School Musical. Os Jonas passaram a aparecer em produções como a série Hannah Montana (Nick até foi, por algum tempo, namorado da estrela da série, Miley Cyrus) e o filme Camp Rock. A promoção massiva funcionou, e o grupo estourou nas paradas. Seus três discos pela companhia já venderam 6 milhões de cópias (130 000 só no Brasil). A Disney segue investindo nos meninos. Acaba de lançar um filme em 3D com shows dos irmãos Jonas, The 3D Concert Experience, que estreia nesta semana no Brasil. O Jonas Brothers encaixou-se à perfeição na linha de divertimento familiar mantida pelos produtos Disney (palavrões e conteúdo sexual não cabem nas atrações da empresa). Filhos de um ex-pastor protestante, os três irmãos são comportadíssimos. Moram com os pais, rezam antes de cada apresentação e usam "anéis de compromisso", que simbolizam a disposição de não fazer sexo antes do casamento. "A fé é importante para nós e para nossa família", disseram em entrevista a VEJA (sim, eles falam ao mesmo tempo, ensaiadinhos, quase em coro).

A Disney sempre foi uma fábrica de estrelas juvenis. De lá saíram, em uma fase anterior, Britney Spears e Timberlake, que foram colegas no Clube do Mickey. Mas Timberlake não é exatamente um produto Disney: sua carreira pop começa mesmo a deslanchar depois do Clube do Mickey, quando entrou para o ‘NSync, uma das chamadas boy bands da década passada. Ao contrário do McFly e do Jonas Brothers, que tocam seus próprios instrumentos, as boy bands eram grupos vocais cujas apresentações se centravam sobretudo na dança. Não era o tipo de show ou de música capaz de conquistar o público adulto. No entanto, Timberlake soube operar com muita habilidade a difícil virada de ídolo adolescente para um respeitado cantor de R&B. Cercou-se de grandes produtores, como Timbaland e Pharrell Williams. Sua carreira solo começou sete anos atrás, com o lançamento do CD Justified. Mas foi em 2006 que Justin explodiu, com a faixa SexyBack, do seu álbum mais recente, FutureSex/LoveSounds. Hoje, o astro americano tem cinco filmes no currículo, um selo próprio e uma marca de roupas. Fechou recentemente um contrato milionário para ser o rosto de um perfume da Givenchy. Dois milhões de fãs pagaram 100 milhões de doláres para assisti-lo em sua última turnê. No ano passado, seu nome era o segundo na lista das estrelas milionárias com menos de 30 anos, ficando atrás apenas de Beyoncé. Sua fortuna, segundo a revista Forbes: 44 milhões de dólares.

O garotinho bonito do ‘NSync hoje desfila uma sexualidade adulta. Combina a beleza refrescante de menino (os olhos azuis de um tom claro são mais bonitos pessoalmente do que os que aparecem nas fotos) com um jeitão viril. Seu torso, definidíssimo, é um dos mais comentados do showbiz. O blazer com ombreira e os cabelos oxigenados do tempo do ‘NSync são pecados de adolescência, há muito superados. Hoje, sua barba é cuidadosamente malfeita. As mulheres adoram. Os rapazes querem imitá-la.

LFI
NEM TÃO BONITINHOS O quarteto inglês McFly: eles até têm alguns fãs entre os garotos

A participação no humorístico Saturday Night Live foi fundamental para a reinvenção da própria imagem conduzida por Timberlake. Em 2006, vestindo um terno estilo cafajeste, com barba postiça e óculos escuros, o cantor interpretou, ao lado do comediante Andy Samberg, Dick in a Box, canção cômica de conteúdo sexual muito explícito que se transformou num dos maiores sucessos do site YouTube. Em 2008, ele voltaria ao programa – dessa vez, de colã e meia-calça, fazendo um cover ridículo das bailarinas do clipe Single Ladies, de Beyoncé. No início do mês, Justin repetiu a parceria com Andy Samberg em uma "homenagem" ao dia das mães, no clipe Motherlover – no qual dois amigos expressam interesse sexual pela mãe um do outro (a palavra motherlover, aliás, é uma versão "higienizada" de um dos mais pesados palavrões da língua inglesa).

As aparições no SNL firmaram a imagem mais adulta de Timberlake – e mostraram um artista que, saudavelmente, não se leva tão a sério. Motherlover, de modo indireto, debocha do próprio intérprete: Timberlake, afinal, é um perfeito filhinho da mamãe. Lynn Harless é aquele tipo de mãe onipresente, que cuida dos negócios e de cada passo dado pelo filho – desde os tempos em que o menino aparecia em programas de calouros, antes do Clube do Mickey. Ela tem lá suas recompensas: está sempre ao lado do filhão famoso nos tapetes vermelhos. Ninguém dirá que Lynn não fez um bom trabalho. O rapaz é gentil, educadíssimo e faz o tipo celebridade-família. Não há grandes escândalos associados a seu nome. Houve um certo barulho quando ele anunciou ter sido o responsável por tirar a virgindade da ex-namorada Britney Spears – mas o episódio seria soterrado pelos inúmeros barracos em que Britney tem se metido desde então. Timberlake também rasgou, sem querer (ele jura!), a blusa de Janet Jackson num show na final do campeonato de futebol americano, deixando o seio da cantora à mostra para milhões de espectadores. O constrangimento, é claro, foi maior para Janet do que para ele.

O artista que passa da adolescência para a idade adulta não está apenas colocando uma nova embalagem nos produtos que oferece ao mercado: o amadurecimento é sempre um drama pessoal, às vezes muito difícil. Timberlake fala da família como uma espécie de âncora na qual sempre amparou sua carreira. Foi esse amparo que lhe permitiu crescer virtualmente diante das câmeras, sem desagregar-se no comportamento autodestrutivo de uma Britney Spears. Os adolescentes de amanhã descobrirão se os ídolos que hoje atraem multidões para os estádios brasileiros conseguirão seguir a mesma rota.

 

Fotos Getty Images, Kurt Krieger/ Corbis/Latinstock e Gaye Gerald/Getty Images

"Eu nasci para o entretenimento"

Justin Timberlake recebeu a editora Anna Paula Buchalla, em Nova York, para a seguinte entrevista:

Dan Macmedan/Getty Images
O AMERICANO MAIS ESTILOSO Timberlake: "Não aprendi nada sobre as mulheres"


Você foi ídolo de milhões de garotas adolescentes quando tinha apenas 15 anos. Como foi ser tão famoso tão cedo?
Não foi fácil. A fama não é quem você é, mas um produto do que você faz. Minha mãe costumava repetir, quando eu era garoto, que fazer alguma coisa muito bem não o torna bom em tudo. E muito menos o torna uma pessoa melhor. Cresci ouvindo isso, o que ainda faz a diferença. Na minha opinião, tudo se resume à forma como você é criado. Todo mundo tem momentos na vida em que a pressão se torna intensa. Se não houver algum apoio, a probabilidade de naufragar é enorme. No meu caso, foi difícil crescer sendo observado o tempo todo. Graças à minha família, aprendi a não me nutrir da fascinação que as pessoas pudessem ter por mim. Percebo que muita gente no showbiz está fugindo ou tentando fugir de algo mal resolvido em sua formação. Usar a posição privilegiada que a fama lhe dá para compensar algo que se perdeu em algum momento de sua história é uma estratégia, no mínimo, arriscada. Tento me policiar o tempo todo para que isso não aconteça comigo.

Há momentos em que você gostaria de não ser tão famoso? Não sofro com a fama. Eu me divirto com ela. Crescer sendo observado em cada passo não é a melhor forma de amadurecer, mas, enfim, não tenho do que me lamentar.

O que lhe permitiu sair dos anos de Disney e ‘NSync com uma imagem própria? Foi uma combinação de sorte e talento, de trabalho duro e de personalidade. Decidi que não queria ser lembrado como um moleque dançando na televisão ou no palco. Mas não desprezo aquelas experiências. Elas fazem parte da minha formação.

Você é ator, cantor, dançarino, produtor, tem uma grife de moda. Como faz para exercer tantas atividades ao mesmo tempo? De todas as coisas que você citou, só não me considero um dançarino. Nem mesmo nos tempos de ‘NSync. Simplesmente subo no palco e me viro da melhor maneira. Quanto ao resto, acho que sou parte de uma geração que teve mais oportunidades de se desdobrar em várias atividades. Nem tudo o que faço foi pensado ou calculado. As coisas simplesmente foram acontecendo. Por exemplo: embora eu tenha tido uma infância bastante musical – cresci ouvindo soul –, a música não era a coisa mais importante para mim. O esporte era tão ou mais essencial. Às vezes me perguntam o que eu prefiro: se é fazer as pessoas cantarem, rirem ou dançarem. Na verdade, é uma combinação disso tudo. Eu nasci para o entretenimento.

"Não sofro com a fama.
Eu me divirto com ela.
Crescer sendo observado em cada passo não é a melhor forma de amadurecer, mas, enfim, não tenho do que me lamentar"

Você já atuou em vários filmes. Qual o papel do cinema em sua carreira? Eu diria que fazer shows e fazer filmes são, para mim, duas maneiras diferentes de ser ator. Em cima do palco, meu trabalho é fazer com que o sujeito que está na última fileira de um estádio de 20 000 pessoas sinta o mesmo que o fã que conseguiu um lugar no gargarejo. Digamos que projeto um personagem – a melhor versão de mim próprio.

A revista americana GQ o elegeu o homem mais estiloso dos Estados Unidos. Costumam dizer que você reabilitou o chapéu e tornou até mesmo a combinação de terno e tênis possível. De onde vem o seu estilo? Desde muito cedo, gostava de observar o ritual que o meu padrasto seguia para escolher suas roupas. Um dia antes, ele já separava o terno que iria usar. Era exatamente assim que eu queria ser. Acho que o estilo é uma questão de autoconfiança. E isso eu tenho desde muito pequeno. É agradável saber que, de certa forma, e da forma certa, estou influenciando uma parte da cultura da nova geração.

Que mulher é um ícone de estilo na sua opinião? Kate Moss. Ela fica linda de qualquer jeito. Fica maravilhosa em fotos de nu, em estilo grunge, com roupas caríssimas, usando jeans e camiseta. Versatilidade não é necessariamente sinônimo de elegância, mas Kate Moss consegue unir as duas coisas.

Você namorou mulheres lindas e famosas: Britney Spears, Cameron Diaz e agora Jessica Biel. O que aprendeu sobre as mulheres? Nada, absolutamente nada. E acho que não vou aprender nunca.

 

 

com reportagem de Susana Villaverde



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