Tecnologia
Com o iPhone ele
escapou da forca
Em todo o mundo, 50
000 pessoas estão criando
aplicativos para o celular da Apple. Um dos
programadores já faturou 1 milhão de dólares

Leo Branco
Lailson Santos
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PESSANHA, DO FORCA
BRASIL
Jogo para iPhone rendeu
10 000 dólares em quatro meses |
Na Carolina do Norte,
Estados Unidos, o programador Ethan Nicholas, de 30 anos,
faturou 1 milhão de dólares em três meses.
Em Sorocaba, no interior paulista, o analista de sistemas
Renato Pessanha, de 33 anos, não chegou a ficar milionário,
mas tampouco está reclamando embolsou 10 000
dólares em quatro meses. Ambos tiveram sucesso num
novo campo de negócios: criaram aplicativos para quem
usa o iPhone. Aplicativos são programas simples, ferramentas
que complementam e ampliam o uso do celular. Desde
julho de 2008, milhares deles são comercializados,
ou oferecidos de graça, na loja virtual da Apple, a
App Store (veja o quadro).
E há um grande apetite por esse tipo de programa. Em
dez meses, foi feito mais de 1 bilhão de downloads
desses softwares somente da App Store. Pessanha é autor
do Forca Brasil, o programa brasileiro mais vendido no site,
com 15 000 downloads. Trata-se de uma versão em três
línguas (português, inglês e espanhol)
para o tradicional jogo de forca. Nicholas criou o iShoot,
game com tanques de guerra que já foi baixado 3 milhões
de vezes. Calcula-se que, atualmente, 50 000 pessoas, dos
mais diversos países do mundo, tentem repetir o feito.
"Antes do iShoot, eu nem conseguia pagar a hipoteca da
casa", disse o programador a VEJA.
O negócio
de aplicativos para celulares não é novo. Existe
há quase uma década. O site Handango vende mais
de 140.000 programinhas desse tipo para BlackBerry, Palm e
telefones de marcas como Samsung, Motorola, LG e Nokia. Boa
parte dessas ferramentas tem por objetivo facilitar tarefas
como abrir e-mails ou sincronizar calendários e agendas.
O iPhone mudou as regras do jogo. Em meados do ano passado,
a Apple lançou um kit de desenvolvimento de aplicativos.
Ele pode ser baixado da internet, gratuitamente, por qualquer
pessoa. Esse kit não é de fácil compreensão
para leigos, mas pode perfeitamente ser usado por amadores
em programação. Pessanha, do Forca Brasil, criou
seu joguinho em menos de quatro dias, entre o Natal e o Ano-Novo
de 2008. O kit conta com recursos que simplificam a produção
de softwares, como uma biblioteca de códigos. Eles
acionam automaticamente funções do telefone,
como o acelerômetro (o sensor de movimentos do iPhone),
ou configuram o sistema de GPS. Há ainda simuladores
e exemplos de programas que servem como molde para novos aplicativos.
Essa simplificação permitiu, por exemplo, que
o garoto Ding Wen, de 9 anos, natural de Cingapura, criasse
o Doodle Kids, aplicativo que permite desenhar na tela do
iPhone. Para apagar os rabiscos, basta chacoalhar o aparelho.
O software, gratuito, já foi baixado mais de 480 000
vezes. Ding não fez o trabalho sozinho. Contou com
a ajuda do pai, Lim Thye Chean, que dá aulas de programação
para o filho há dois anos. "Nós dois gostamos
de criar softwares e colocá-los na App Store para ver
qual tem mais sucesso", disse Chean a VEJA.
News.com
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CASA QUITADA
Nicholas embolsou 1 milhão
de dólares e pagou a hipoteca da casa com o iShoot (à
dir.) |
A consultoria britânica
Juniper Research estima que, somente em 2008, a Apple tenha
faturado 100 milhões de dólares com seus aplicativos.
Ela fica com 30% do valor de venda de cada ferramenta. Mantido
o ritmo atual, arrecadará 365 milhões de dólares
até o fim de 2009. "Em toda a minha carreira,
nunca vi nada semelhante", disse, no início do
ano, um animadíssimo Steve Jobs, o presidente da companhia.
Não por acaso, toda a indústria está
mais uma vez correndo atrás do padrão
criado pela Apple. O Google, por exemplo, apresentou no fim
de 2007 o Android, um sistema operacional para celulares.
Ele é usado pelo aparelho G1, da taiwanesa HTC, mas
ainda não está à venda no Brasil. Em
outubro do ano passado, três meses depois da inauguração
da App Store, o Google lançou a própria loja
de aplicativos gratuitos. Começou a vendê-los
em fevereiro deste ano. A criação de programas
também é aberta a qualquer pessoa. Há
uma única variação significativa no modelo
de negócios. O Google não fica com nenhum tostão
da venda. Repassa sua cota de 30% integralmente para as operadoras
de celulares, como uma forma de estimular a adesão
do Android por parte dessas companhias. Em dezembro, a Palm
entrou no jogo. No mês passado, foi a vez da Research
in Motion (RIM), que fabrica o BlackBerry. E a Nokia deve
abrir nesta semana o seu serviço, com um cardápio
inicial de 25 000 programas (a Apple tem 38.000). A Microsoft
anunciou que não vai ficar fora do novo filão.
"Esse mercado deve movimentar 25 bilhões de dólares
em cinco anos", disse a VEJA Windsor Holden, da Juniper
Research.
Vivek Prakash/Reuters
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COMPETIÇÃO EM FAMÍLIA
Ding Wen, de 9 anos, cria
programas para competir com o pai na App Store |
Entre os aplicativos
oferecidos pelas empresas, há itens bastante úteis.
Dezenas trazem detalhes em tempo real do trânsito em
cidades de todo o mundo. Outros ajudam a tomar decisões
durante as compras. O ShopSavvy (utilizado no Google Android),
por exemplo, compara o preço de produtos em 40 000
lojas americanas com base no código de barras de cada
artigo. Existem programas voltados para públicos específicos.
Os médicos, por exemplo, contam com listas de remédios,
nas quais são detalhadas contraindicações
e posologia. Não faltam também bobagens, ou
até ideias infames, principalmente na lista dos aplicativos
para iPhone. A Apple não divulga o total de downloads,
mas o joguinho mais baixado no Brasil é o BubbleWrap.
Grátis, ele reproduz embalagens com pequenas bolhas
de ar que revestem produtos frágeis. O usuário
do telefone pode "estourá-las" com um toque
na tela. Recentemente, a Apple retirou de sua loja virtual
o Baby Shaker, em que um bebê tinha de ser chacoalhado
para parar de chorar. Ele foi considerado grosseiro. Outro
programa banido pela companhia foi o I Am Rich (Eu Sou Rico).
Ele exibia na tela um ícone com o desenho de um rubi
e a mensagem: "Eu sou rico, mereço isso".
Custava 999,99 dólares. O mais surpreendente: saiu
da App Store após oito vendas em 24 horas. Foi adquirido
por seis americanos, um alemão e um francês.
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