Internacional
O duelo de Guantánamo
Depois de ter seu
projeto de fechar a prisão militar
derrotado no Senado, Obama colide com Dick Cheney
num debate de ideias raro nos Estados Unidos

Thomas Favaro
Charles Dharapak/AP
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DETALHE QUE FALTOU
Obama prometeu fechar a
prisão, mas esqueceu de explicar o que faria com
os terroristas que estão por lá |
Uma das primeiras
medidas de Barack Obama depois da posse, em janeiro, foi ordenar
o fechamento da prisão militar de Guantánamo.
Na base dos Estados Unidos em Cuba estão os derradeiros
240 prisioneiros feitos na guerra contra o terrorismo. Faltou
ao presidente esclarecer alguns detalhes. O que ele pretendia
fazer com os detentos, por exemplo. A falta de clareza custou
a Obama sua primeira grande derrota no Congresso, na semana
passada. Democratas e republicanos uniram-se no Senado para
barrar o financiamento do projeto que daria um fim à
prisão. "Com todo o respeito ao presidente, nós
precisamos de um plano, e não de um discurso",
disse o líder republicano Mitch McConnell. "Fomos
chamados para defender um plano que ainda não foi anunciado",
admitiu Dick Durbin, um cacique do Partido Democrata, mostrando
que a preocupação com o terrorismo está
acima das linhas partidárias.
Brennan Linsley/AP
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NUMA PRAIA EM CUBA
Detento é escoltado
na prisão militar da base de Guantánamo:
ninguém o quer como vizinho |
A prisão
de Guantánamo foi criada para manter os suspeitos de
terrorismo numa espécie de limbo judiciário,
fora do território americano. A situação
esdrúxula e a péssima imagem do governo de George
W. Bush converteram o local em foco de constrangimentos para
o país. A derrota no Congresso foi o prenúncio
de um "duelo de titãs" entre Obama e Dick
Cheney, vice-presidente de Bush. No dia seguinte, o presidente
saiu em defesa de seu projeto com um discurso pronunciado
no Arquivo Nacional, onde estão guardados a Declaração
de Independência e o original da Constituição.
Obama afirmou que o país "saiu do curso"
no governo Bush e que é preciso uma nova abordagem,
que rejeite a tortura e reconheça a necessidade de
fechar Guantánamo como um símbolo desse período.
Cheney, um dos mentores
da guerra ao terror, esperou pacientemente o fim do discurso
de Obama antes de iniciar o próprio. Disse que o governo
Bush tomou medidas de emergência em momento de crise
e que o fato de não terem ocorrido novos ataques terroristas
em território americano é a prova de seu sucesso.
O embate foi excepcional por muitas razões. O antigo
vice-presidente ressurgiu como um novo vigor ideológico
para a oposição, que andava sem rumo depois
da débâcle do governo Bush. De certa forma, pode-se
dizer que no duelo de ideias sobre Guantánamo os republicanos
estão na frente. Apesar do alarde feito nos palanques,
boa parte da política antiterrorista de Bush continua
em vigor. Obama autorizou a volta dos julgamentos militares
em Guantánamo e recuou na decisão de divulgar
fotos de tortura infligida aos prisioneiros. A maior contribuição
do presidente talvez tenha sido reconhecer que as relações
públicas devem ser levadas em conta mesmo quando o
inimigo é um terrorista. Exatamente por isso, ele não
pode passar a impressão de que seu governo está
retrocedendo em questões de segurança.
Luis M.Alvarez/AP
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FALCÃO REPUBLICANO
Dick Cheney defende a guerra
ao terror de Bush: "Salvamos milhares de vidas" |
O presidente pretende
enviar alguns presos de Guantánamo para julgamentos
em cortes civis americanas e devolver outros ao país
de origem. O tanzaniano Ahmed Ghailani, acusado de participar
dos atentados contra embaixadas americanas na África,
em 1998, será o primeiro a ser julgado nos Estados
Unidos. Caso sejam condenados, terroristas como Ghailani podem
ir parar nas prisões de segurança máxima
de onde nenhum detento jamais escapou. Mas as pesquisas
revelam que a maioria dos americanos não quer ter um
terrorista perto de sua casa, nem mesmo na prisão.
O principal problema são os terroristas notórios
que foram sabidamente torturados, como Abu Zubaydah, um dos
líderes da Al Qaeda. A Justiça americana não
aceita provas obtidas sob tortura, o que dificultaria a condenação.
"É difícil pedir que outros países
aceitem esses detentos se nem os americanos os querem por
perto", disse a VEJA Carl Tobias, professor de direito
da Universidade de Richmond, na Virgínia.
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Atrás das grades
Desde 2002,
Guantánamo serviu de prisão para
779
suspeitos de terrorismo, de 49 nacionalidades
534
deles foram transferidos para outros países
1
em cada 7 libertados voltou para o terrorismo
240
permanecem presos
5
morreram na prisão
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