Entrevista:
Carlota Pérez
O melhor está por vir
A economista de Cambridge
vira estrela acadêmica
com a tese de que uma era de ouro impulsionada pela
tecnologia da informação espera o mundo depois
da crise

Diogo Schelp
|
Tommy Clancy

|
"Depois da recessão
virá um período de bonança, com o
capital produtivo dirigindo os investimentos" |
Economistas com
visão histórica e capazes de fazer análises
consistentes de longo prazo parecem ser uma espécie
em extinção. A esse grupo pertence a venezuelana
Carlota Pérez, de 70 anos, professora da Universidade
Cambridge, na Inglaterra. Seu Revoluções
Tecnológicas e Capital Financeiro, de 2002, adquiriu
a dimensão de clássico ao colocar o atual momento
econômico no contexto das grandes reviravoltas no campo
da técnica que ocorrem a cada cinquenta anos, em média.
Para Carlota, estamos em plena era da informação,
iniciada em 1971 com a produção em série
dos chips de computador e sua quase universalização
nas três décadas subsequentes, que ela chama
de "fase de instalação". Na etapa
seguinte, que o mundo começa a viver em breve e pode
durar de vinte a trinta anos, as novas tecnologias vão,
enfim, produzir o grande salto na qualidade de vida da maioria
da população mundial. A esse período
Carlota dá o nome de "fase de desdobramento".
A crise atual seria, para ela, apenas uma transição
dolorosa entre essas duas fases. De seu escritório
em Cambridge, ela deu a seguinte entrevista a VEJA.
A crise atual
não assusta tanto?
A economia de mercado é naturalmente instável.
Quando está no auge, peca pelos excessos; quando está
em baixa, autocorrige-se. No entanto, esta crise, em conjunto
com o estouro da bolha da internet em 2000, é de uma
natureza distinta. Estamos presenciando hoje um colapso de
envergadura muito maior que a usual. O atual fenômeno
equivale ao pânico provocado pelos investimentos em
massa nas estradas de ferro, em meados do século XIX,
na Inglaterra, ou à quebra da Bolsa de Nova York, em
1929. Colapsos como esses só ocorrem a cada meio século,
no meio do caminho de grandes revoluções tecnológicas.
Qual é
a relação entre o recente colapso financeiro
e o estouro da bolha da internet, no início da década?
O colapso atual representa a continuação da
queda da Nasdaq, a bolsa eletrônica de Nova York, mas
com outro foco. A bolha da internet baseava-se na inovação
tecnológica; a que estourou agora, na inovação
financeira. Enquanto o inchaço financeiro foi induzido
pela existência de crédito abundante e fácil,
o da internet atraía investimentos pela fé no
poder das novas tecnologias de proporcionar lucros extraordinários.
Em 1929, tudo entrou em colapso ao mesmo tempo. Desta vez,
isso aconteceu em dois capítulos. Eu esperava que,
depois do estouro da bolha da internet, viessem a regulação
financeira e as políticas a favor da expansão
produtiva. No meu livro, de 2002, eu já expressava
grande preocupação com a continuidade do cassino
financeiro. Mas as autoridades não prestaram a mesma
atenção.
O que virá
depois da atual crise?
Provavelmente um período de bonança, em que
o estado voltará a ser um ator mais presente na economia
e o capital produtivo vai direcionar os investimentos, tomando
o lugar do capital financeiro, como até pouco tempo
atrás. Antes de chegar a essa fase, é claro,
será preciso superar a recessão que sempre sucede
aos desastres.
Quanto tempo
pode durar a recessão mundial?
Tudo depende da interpretação que os governos
dos países mais ricos darão à natureza
dessa crise. Se eles acreditarem que se trata apenas de um
problema de falta de confiança do mercado financeiro,
vão se empenhar em aplicar políticas superficiais
e injetar dinheiro no sistema, para reavivar os mercados de
valores e imobiliário. Nesse caso, há duas opções:
ou a recessão vai ser muito longa ou surgirá
uma nova bolha seguida de um colapso ainda maior. A história
mostra que um período recessivo pode durar apenas dois
anos, como ocorreu em meados do século XIX, ou quinze
anos, como no caso de 1929.
Que políticas
parecem mais adequadas neste momento?
Para começar, é preciso reconhecer que não
se trata de regressar ao estágio em que estávamos
antes do colapso, e sim de dar um passo adiante. Os governos
terão de criar um mecanismo regulatório global
para as finanças. Dentro dos países, deve-se
reformular o mercado financeiro por meio de um conjunto de
políticas fiscais e de controle. Os gastos públicos
devem ser direcionados para favorecer os investimentos produtivos
e inovadores. Os maiores lucros dos investidores têm
de passar a vir da produção real. Os lucros
fáceis com especulação devem ser contidos
com impostos mais altos. Deve-se deixar para trás a
máxima "Não trabalhe por dinheiro, deixe
que o dinheiro trabalhe para você". Será
preciso criar mais e melhores empregos que produzam e distribuam
a riqueza segundo outro critério: o esforço
empreendedor e de trabalho. O mundo financeiro terá
de ser reorientado para criar formas de investir no setor
produtivo. O essencial é favorecer a expansão
e a inovação na produção.
As bolhas são
evitáveis ou são males necessários?
A legitimidade do capitalismo está em fazer da busca
pelo enriquecimento individual um benefício para toda
a sociedade. Nas bolhas, isso se perde e ocorre uma forte
concentração da renda. Os períodos de
bonança tendem a reverter esse processo, e por isso
mesmo costumam ser chamados de "eras de ouro". Mas
as bolhas têm o mérito de construir infraestruturas
que ampliam os mercados a custo muito baixo e estabelecem
novos paradigmas tecnológicos. Esse período
de instalação permite modernizar a indústria
e colocá-la em condições de inovar e
crescer ainda mais velozmente.
De que forma
isso ocorreu nas revoluções tecnológicas
do passado?
Quando se fala da Revolução Industrial
do fim do século XVIII, na Inglaterra, sempre se pensa
na introdução das máquinas têxteis
e no enorme salto de produtividade que isso acarretou, mas
poucas vezes se menciona a rede de canais de distribuição
que permitiu carregar o algodão, o carvão e
os produtos por todo o país, passando de um rio a outro
e dali para o mar. Essa foi a internet daquele período.
Já a revolução tecnológica seguinte,
a da máquina a vapor, no século XIX, levou à
criação de ferrovias, do telégrafo e
do sistema de correio padronizado. Nos anos 1920, começou
a substituição dos trens, das carruagens a cavalo
e dos vapores pelo automóvel e pelo avião, que
necessitavam de uma vasta rede de estradas e aeroportos. Essas
novas tecnologias, assim como o rádio, foram objeto
de intensa especulação e também contribuíram
para o colapso de 1929. As redes de distribuição
da primeira Revolução Industrial, as ferrovias
do século XIX e as estradas do início do século
XX são exemplos de redes de infraestrutura que só
se conseguiu construir porque havia grandes investidores dispostos
a gastar seu dinheiro em algo que demorou muito para dar lucros
operacionais. São investimentos baseados no tudo ou
nada: ou há uma cobertura quase completa ou não
se obtêm as vantagens prometidas. A disposição
ao risco é alimentada pelo entusiasmo que as novas
tecnologias despertam e pela expectativa de conseguir gordos
lucros. Sempre há algum Bill Gates que se tornou milionário
para dar o exemplo. Quando chega o colapso, muita gente perde
grandes somas de dinheiro, mas a infraestrutura fica para
todos. Portanto, em essência, a grande bolha e seu colapso
são uma forma brutal de conseguir o investimento necessário
para instalar o novo e destruir o velho. É o que ocorre
com a atual revolução, baseada na tecnologia
da informação. Ela embute um enorme potencial
de criação de riqueza. Se as forças políticas
e econômicas entenderem esse processo e estabelecerem
as condições sociais adequadas, o que virá
em seguida beneficiará a todos.
A senhora pode
dar um exemplo?
No ciclo tecnológico anterior, que estabeleceu
a produção em massa, a criação
do estado de bem-estar social nos países desenvolvidos
elevou o salário dos trabalhadores a um nível
tal que lhes permitiu ter um lar confortável, cheio
de eletrodomésticos, e um carro na porta. Isso, somado
à construção em massa de casas a baixo
custo, aos bancos de crédito ao consumidor e ao seguro-desemprego,
possibilitou décadas de mercados dinâmicos e
crescentes que beneficiaram tanto o mundo dos negócios
quanto a população como um todo. Um enriquecimento
semelhante pode parecer impossível agora, mas as coisas
sempre parecem inviáveis quando se está a meio
caminho entre uma fase e outra de uma revolução
tecnológica.
Que países
se sairão melhor da crise atual, os emergentes ou os
ricos?
Os anos de bolha financeira permitiram intensificar a
globalização, e a alta dos preços das
matérias-primas deu fôlego a muitos países
emergentes. Há o risco de a contração
da demanda golpear mais duramente os países exportadores,
mas os ganhos dos últimos anos permitiram a eles colocar-se
em uma posição melhor para enfrentar os reveses.
Nos países desenvolvidos, porém, a profundidade
da tragédia financeira pode ser um fardo demasiado
grande para a economia real e, portanto, para a população.
Tudo vai depender, como disse, do desenho de políticas
adequadas, assim como da determinação política
para pôr na linha o mundo financeiro.
O que a América
Latina pode fazer para aproveitar melhor a nova fase de ouro
da economia que a senhora prenuncia?
Para aproveitar a próxima etapa, é preciso
encontrar um espaço tecnológico próprio.
A Ásia, em geral, transformou-se na grande linha de
montagem do planeta. Esse continente, com mão de obra
abundante e recursos naturais escassos, tem vantagens insuperáveis
no setor manufatureiro, que cobre de produtos eletrônicos
a têxteis. A América Latina, por sua vez, é
um subcontinente muito rico em recursos naturais e com pequena
densidade populacional. As indústrias de processamento,
da agroindústria à metalurgia e química,
são um espaço de especialização
e inovação repleto de oportunidades.
Não é
um papel menor?
Os recursos naturais, em um mundo globalizado, jamais
serão baratos. Ainda que seus preços caiam com
a recessão, os limites da oferta sempre serão
uma barreira contra prejuízos. Além disso, o
mundo das commodities já não se limita às
matérias-primas tradicionais. Basta entrar em um supermercado
moderno para verificar como a combinação de
recursos naturais com tecnologia o ampliou. Ao mesmo tempo,
podemos esperar que o processo de globalização,
que hoje favorece a Ásia, sofra uma inversão
à medida que o custo das matérias-primas e da
energia suba. Gradualmente, o gasto com transporte de matérias-primas
até aquele continente, e depois dos produtos lá
fabricados até os mercados consumidores dos Estados
Unidos e da Europa, se tornará relevante em comparação
com o custo da mão de obra. Não é improvável,
ainda, que o mundo imponha impostos à emissão
de gás carbônico o que encarecerá
a produção asiática. Tudo isso vai redesenhar
o processo de globalização. Com a estratégia
correta, os países latino-americanos podem complementar-se,
aproveitando a disponibilidade de recursos de cada um. As
nações do subcontinente deveriam, assim, adotar
uma estratégia conjunta para aproveitar suas características
específicas. A especialização em ciências
da vida e de materiais nos colocaria em posição
vantajosa para a próxima revolução tecnológica,
baseada em biotecnologia, bioeletrônica e nanotecnologia.
O Brasil tem ótimas condições para assumir
a liderança desse processo.
Por quê?
O tamanho da economia e o potencial do mercado interno,
a diversificação da indústria, a capacidade
tecnológica e o fato de muitas empresas brasileiras
terem vocação global fazem com que o país
se destaque no conjunto latino-americano. O Brasil reúne
todas as condições necessárias para ter
êxito em muitas frentes. Para aproveitar todo esse potencial,
o país precisa ainda ampliar suas já extraordinárias
conquistas obtidas nos setores de petróleo, química,
metalurgia, agropecuária e biotecnologia.