"É
preciso ter a honestidade intelectual
em reconhecer que as decisões presidenciais
sobre o assunto rompem com um longo
passado
de
denegações e de indiferença sobre
a
situação
racial no
Brasil"
Ilustração Ale Setti
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Sem que se tivesse prestado a devida atenção, o governo
começou a implementar o sistema de cotas que favorece a população
negra. Em 19 de dezembro, na presença do presidente da República,
o ministro da Justiça assinou uma portaria que determina a contratação,
até o fim de 2002, de 20% de negros, 20% de mulheres e 5% de portadores
de deficiências físicas nos cargos de assessoramento daquele
ministério. O mesmo princípio será aplicado às
empresas de prestação de serviços e às organizações
não-governamentais conveniadas com o órgão federal.
Como se vê, trata-se de uma política indireta, incidindo
sobre servidores sem vínculo empregatício com o ministério.
Medida similar já havia sido adotada pelo Ministério do
Desenvolvimento Agrário. A médio prazo, os outros ministérios
deverão incorporar a mesma orientação. Sob o impulso
de seu presidente, o ministro Marco Aurélio Mello, o STF também
seguirá essa política. Uma iniciativa mais específica
teve lugar no Ministério das Relações Exteriores.
A partir deste ano, serão concedidas vinte bolsas de estudo federais
a afrodescendentes que preparam o concurso de admissão ao Instituto
Rio Branco, encarregado da formação do corpo diplomático
brasileiro. Comentando a providência, o presidente da República
afirmou que nosso país constitui uma "sociedade multicolorida,
e não tem cabimento que ele se apresente pelo mundo afora como
se fosse uma sociedade branca, porque não é!". Através
de portarias e de cláusulas contratuais com terceiros, o governo
demonstrou que, sem atropelo da lei, os órgãos federais
podem empreender ações afirmativas, de reduzidos benefícios
diretos mas de imenso valor simbólico.
Ora, numa área como essa, tão cheia de representações
calamitosas sobre as desigualdades raciais, o efeito simbólico
dos atos presidenciais guarda toda a sua eficácia.
Poder-se-á acreditar que essas medidas são ineficazes. Haverá
quem pense que a política afirmativa em favor dos negros e das
mulheres obedece apenas ao calendário eleitoral. Dir-se-á
que o presidente da República demorou a praticar a persuasão
e a insistência num domínio o combate ao preconceito
racial em que sua autoridade intelectual sempre foi indiscutível.
Com efeito, sagazmente interrogado por Roberto Pompeu de Toledo no livro
O Presidente Segundo o Sociólogo, FHC havia apontado, desde
1998, a necessidade de agir "pela persuasão e pela insistência"
para reduzir as desigualdades raciais no Brasil.
Mas é preciso ter a honestidade intelectual em reconhecer que as
decisões presidenciais rompem com um longo passado de denegações
e de indiferença sobre a situação racial no Brasil.
Embaladas pela sociedade civil, muitas iniciativas estão sendo
cogitadas nas universidades, nas escolas, nas redes de debate nacionais.
Quem surfa pela internet brasileira vê a discussão sobre
as cotas para os negros entrar nos mais diversos bate-papos, incluindo
os dos colégios militares. O problema da falta de acesso dos negros
às universidades é um tema recorrente nos chats.
Nesse sentido, é bom lembrar que nos Estados Unidos erradamente
apresentados como exemplo do abandono ou da ineficácia das políticas
afirmativas a questão ainda está em pauta. A poderosa
Universidade de Michigan luta nos tribunais para conservar suas cotas
em favor das minorias, num pleito judicial que levará a Corte Suprema
a redefinir a política americana sobre o assunto. Independentemente
disso, a Universidade da Califórnia, obrigada a abandonar o sistema
de cotas há seis anos, voltou agora à carga, instituindo
modalidades que facilitam a admissão de estudantes socialmente
desfavorecidos. (Veja o site http://www.civilrights.org.)
Nesse campo, as coisas no Brasil estão tão ruins que a pior
solução é não fazer nada. Como diria o padre
Antônio Vieira, mais valem os desacertos do intento que as certezas
da inércia.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular da
Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)