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Edição 1 740 - 27 de fevereiro de 2002
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Volta à barbárie

Para economizar 25 dólares por
morto,
crematório enterrava os
corpos no quintal

 
Reuters
Local do crime, na Geórgia (EUA): policiais em choque

Noble, um vilarejo de apenas 300 habitantes no Estado americano da Geórgia, está vivendo um pesadelo coletivo macabro. Como nos filmes de terror, o drama foi aparecendo aos poucos. Na sexta-feira 15, uma mulher que passeava numa floresta da região encontrou ossos humanos espalhados pelo chão. A polícia foi avisada, e a extensão do horror começou a ser revelada. Os policiais descobriram mais de trinta cadáveres enterrados em valas improvisadas. Em galpões acharam corpos embalsamados intactos. A suspeita recaiu logo sobre o Crematório Tri-State, administrado por um jovem de 28 anos chamado Brent Marsh. Com a ajuda de sensores, foram localizadas mais quatro valas, onde outras dezenas de corpos foram enterrados e empilhados como sacos de areia. Marsh confessou. Sua explicação deixou os policiais chocados com a banalidade do mal. Para poupar na conta de energia e por não ter dinheiro para mandar consertar o forno do crematório, ele passou a enterrar os mortos.

Na verdade, Brent Marsh jogava os cadáveres fora para economizar míseros 25 dólares, o custo que ele teria para efetivamente cremá-los. Ele cobrava das funerárias de 200 a 1.500 dólares por defunto. Marsh não tinha funcionários, recolhia pessoalmente os corpos e devolvia o que se julgava serem as cinzas do morto. As pequenas caixas continham apenas concreto moído ou madeira queimada. A pequena cidade de Noble ficou paralisada e pediu ajuda de fora. Durante toda a semana, pelo menos uma centena de policiais e peritos de várias cidades vizinhas, incluindo um grupo de legistas que trabalharam nos escombros do World Trade Center, participaram das buscas e da identificação dos mortos. Marsh os havia enterrado até no jardim da casa onde morava. Pode chegar a três centenas o número de cadáveres ilegalmente escondidos. Herdeiro do crematório, Marsh recebeu 350 corpos para cremar desde que passou a tocar o negócio da família em 1996. A polícia suspeita que o hábito macabro pode ter sido adquirido do pai. Essa possibilidade ampliou a dor de centenas de parentes das pessoas cujos corpos foram jogados nas valas como lixo, alguns apenas envoltos em lençóis e outros nus. "Não sei o que é pior, a dor da morte ou isso", resumiu Neva Mason, que teve o corpo de seu sogro, morto em dezembro, identificado.

"O caso choca ainda mais porque despreza, com um marco civilizatório, o ritual da morte", diz Stephen Prothero, professor de religião da Universidade de Boston. Enterrar os mortos foi o passo inicial da humanidade rumo à civilização. Os primeiros túmulos, enfeitados com flores, foram feitos pelos cro-magnons, antepassados do homem que viveram há 35.000 anos. Os enterros rituais precedem a escrita e a agricultura. Eles sinalizam que a humanidade passou a viver de acordo com regras culturais que nos diferenciaram dos animais. Por algum tempo, em Noble, no Estado americano da Geórgia, houve um retorno à barbárie.

   
 
   
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