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Volta
à barbárie
Para economizar 25 dólares por
morto, crematório
enterrava os
corpos no quintal
Reuters
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| Local
do crime, na Geórgia (EUA): policiais em choque |
Noble,
um vilarejo de apenas 300 habitantes no Estado americano da Geórgia,
está vivendo um pesadelo coletivo macabro. Como nos filmes de terror,
o drama foi aparecendo aos poucos. Na sexta-feira 15, uma mulher que passeava
numa floresta da região encontrou ossos humanos espalhados pelo
chão. A polícia foi avisada, e a extensão do horror
começou a ser revelada. Os policiais descobriram mais de trinta
cadáveres enterrados em valas improvisadas. Em galpões acharam
corpos embalsamados intactos. A suspeita recaiu logo sobre o Crematório
Tri-State, administrado por um jovem de 28 anos chamado Brent Marsh. Com
a ajuda de sensores, foram localizadas mais quatro valas, onde outras
dezenas de corpos foram enterrados e empilhados como sacos de areia. Marsh
confessou. Sua explicação deixou os policiais chocados com
a banalidade do mal. Para poupar na conta de energia e por não
ter dinheiro para mandar consertar o forno do crematório, ele passou
a enterrar os mortos.
Na verdade, Brent Marsh jogava os cadáveres fora para economizar
míseros 25 dólares, o custo que ele teria para efetivamente
cremá-los. Ele cobrava das funerárias de 200 a 1.500 dólares
por defunto. Marsh não tinha funcionários, recolhia pessoalmente
os corpos e devolvia o que se julgava serem as cinzas do morto. As pequenas
caixas continham apenas concreto moído ou madeira queimada. A pequena
cidade de Noble ficou paralisada e pediu ajuda de fora. Durante toda a
semana, pelo menos uma centena de policiais e peritos de várias
cidades vizinhas, incluindo um grupo de legistas que trabalharam nos escombros
do World Trade Center, participaram das buscas e da identificação
dos mortos. Marsh os havia enterrado até no jardim da casa onde
morava. Pode chegar a três centenas o número de cadáveres
ilegalmente escondidos. Herdeiro do crematório, Marsh recebeu 350
corpos para cremar desde que passou a tocar o negócio da família
em 1996. A polícia suspeita que o hábito macabro pode ter
sido adquirido do pai. Essa possibilidade ampliou a dor de centenas de
parentes das pessoas cujos corpos foram jogados nas valas como lixo, alguns
apenas envoltos em lençóis e outros nus. "Não sei
o que é pior, a dor da morte ou isso", resumiu Neva Mason, que
teve o corpo de seu sogro, morto em dezembro, identificado.
"O
caso choca ainda mais porque despreza, com um marco civilizatório,
o ritual da morte", diz Stephen Prothero, professor de religião
da Universidade de Boston. Enterrar os mortos foi o passo inicial da humanidade
rumo à civilização. Os primeiros túmulos,
enfeitados com flores, foram feitos pelos cro-magnons, antepassados do
homem que viveram há 35.000 anos. Os enterros rituais precedem
a escrita e a agricultura. Eles sinalizam que a humanidade passou a viver
de acordo com regras culturais que nos diferenciaram dos animais. Por
algum tempo, em Noble, no Estado americano da Geórgia, houve um
retorno à barbárie.
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