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Edição 1 740 - 27 de fevereiro de 2002
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A nova biblioteca
de Alexandria

Obra faraônica revive um
dos orgulhos do Egito antigo

José Eduardo Barella

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Fotos da biblioteca

Na era da internet e dos livros virtuais, gastar 200 milhões de dólares para construir uma biblioteca num país que exerce censura feroz a obras literárias pode soar como piada de mau gosto. Não no Egito, que já abrigou a mais famosa de todas as coleções de livros e agora espera reviver o esplendor da época da rainha Cleópatra com a inauguração da Biblioteca de Alexandria. Trata-se de uma versão ultramoderna da biblioteca fundada em 295 a.C. pela dinastia dos Ptolomeu e que nos três séculos seguintes ajudou a cidade portuária egípcia a firmar-se como a mais cintilante capital da Antiguidade. Além da biblioteca, com seus 700.000 papiros que reuniam praticamente todo o conhecimento produzido até então, a cidade abrigava uma famosa escola filosófica. Foi ali que o matemático grego Euclides desenvolveu a geometria e Arquimedes formulou os princípios da física, entre outros avanços da ciência.

O novo complexo foi erguido às margens do Mediterrâneo, num local próximo àquele onde arqueólogos suspeitam que ficava a biblioteca original, destruída por um incêndio em 48 a.C. A idéia de recriá-la surgiu nos anos 70, mas só virou realidade depois que a Unesco, órgão cultural da ONU, e vários países europeus toparam arcar com os custos de construção, compra de acervo e manutenção. Um escritório norueguês de arquitetura ganhou a concorrência internacional com um projeto ousado. O resultado foi uma obra faraônica, que ocupa uma área de 85.000 metros quadrados. "O objetivo não é reproduzir as formas arquitetônicas da antiga biblioteca, das quais não há registros históricos, e sim recriar na Alexandria de hoje o mesmo ideal que a marcou em sua época áurea, um centro internacional de pesquisa e conhecimento", disse a VEJA Richard Holmquist, da Unesco, coordenador do projeto. A obra se arrastou por sete anos e terminou no final do ano passado. Mas a inauguração oficial foi adiada para o próximo 23 de abril, Dia Mundial do Livro.

O complexo consiste num prédio principal de onze andares, quatro deles abaixo do nível do mar, erguido em forma de cilindro. Nele estão abrigados o acervo e o maior salão de leitura do mundo, que ocupa uma área de 20.000 metros quadrados em vários níveis com capacidade para atender até 2.000 pessoas. O teto é feito de vidro e alumínio. Visto de cima, lembra a forma de um microchip. O edifício tem uma inclinação de 16 graus, um recurso que dá leveza ao conjunto e ajuda a controlar a luz natural em seu interior por meio de um sistema retrátil de janelas. O reflexo da luz solar no teto inclinado incide no Mediterrâneo, lembrando outra pérola do passado – o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do mundo. Com 135 metros de altura, o farol foi construído em 280 a.C. e destruído por um terremoto em 1307. Em volta do prédio principal foi erguido um muro de granito de 6.300 metros quadrados no qual foram esculpidos exemplos de todos os tipos de escrita. O complexo inclui ainda planetário, museu da ciência, museu da caligrafia e um moderno laboratório de restauração.

O conjunto destoa da paisagem atual de Alexandria, uma metrópole de 5 milhões de habitantes repleta de favelas. A cidade fundada por Alexandre, o Grande começou a ganhar fama com a Bibliotheca Alexandrina, seu nome original, erguida nos jardins do Palácio Real. O objetivo dos Ptolomeu, a dinastia grega fundada por um dos generais de Alexandre, era fazer com que a cidade rivalizasse com Atenas, a principal cidade da Grécia antiga. Com o tempo e a fama acumulada pela biblioteca, aumentar seu acervo virou uma obsessão. Filiais em outros pontos da cidade foram abertas para abrigar o material, boa parte adquirida na marra – consta que muitos originais emprestados para ser copiados acabaram surrupiados.

O motivo de sua destruição ainda divide historiadores. A versão mais difundida diz que o responsável teria sido Júlio César. Ele a incendiou por engano quando repelia um ataque vindo do mar, durante a guerra contra Ptolomeu XIII, irmão e então inimigo de Cleópatra. O tesouro que sobrou foi reunido numa das filiais da biblioteca, Serápis, um templo pagão que acabou sendo destruído pelos cristãos em 391 d.C. A nova biblioteca ressurge com objetivos bem mais modestos. Ela tem estrutura para acolher cerca de 8 milhões de livros – o acervo da biblioteca do Congresso americano, a maior do mundo, possui mais que o dobro. Até agora, apenas 500.000 volumes foram adquiridos ou provenientes de museus – o mais antigo deles é um texto muçulmano com cerca de 1.000 anos. Um número de livros ainda pequeno, mas significativo para um país onde metade da população é analfabeta.

   
 
   
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