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A nova biblioteca
de Alexandria
Obra faraônica
revive um
dos orgulhos do Egito antigo

José
Eduardo Barella

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Na era da internet e dos livros virtuais, gastar 200 milhões de
dólares para construir uma biblioteca num país que exerce
censura feroz a obras literárias pode soar como piada de mau gosto.
Não no Egito, que já abrigou a mais famosa de todas as coleções
de livros e agora espera reviver o esplendor da época da rainha
Cleópatra com a inauguração da Biblioteca de Alexandria.
Trata-se de uma versão ultramoderna da biblioteca fundada em 295
a.C. pela dinastia dos Ptolomeu e que nos três séculos seguintes
ajudou a cidade portuária egípcia a firmar-se como a mais
cintilante capital da Antiguidade. Além da biblioteca, com seus
700.000 papiros que reuniam praticamente todo
o conhecimento produzido até então, a cidade abrigava uma
famosa escola filosófica. Foi ali que o matemático grego
Euclides desenvolveu a geometria e Arquimedes formulou os princípios
da física, entre outros avanços da ciência.
O novo complexo
foi erguido às margens do Mediterrâneo, num local próximo
àquele onde arqueólogos suspeitam que ficava a biblioteca
original, destruída por um incêndio em 48 a.C. A idéia
de recriá-la surgiu nos anos 70, mas só virou realidade
depois que a Unesco, órgão cultural da ONU, e vários
países europeus toparam arcar com os custos de construção,
compra de acervo e manutenção. Um escritório norueguês
de arquitetura ganhou a concorrência internacional com um projeto
ousado. O resultado foi uma obra faraônica, que ocupa uma área
de 85.000 metros quadrados. "O objetivo não
é reproduzir as formas arquitetônicas da antiga biblioteca,
das quais não há registros históricos, e sim recriar
na Alexandria de hoje o mesmo ideal que a marcou em sua época áurea,
um centro internacional de pesquisa e conhecimento", disse a VEJA Richard
Holmquist, da Unesco, coordenador do projeto. A obra se arrastou por sete
anos e terminou no final do ano passado. Mas a inauguração
oficial foi adiada para o próximo 23 de abril, Dia Mundial do Livro.
O complexo
consiste num prédio principal de onze andares, quatro deles abaixo
do nível do mar, erguido em forma de cilindro. Nele estão
abrigados o acervo e o maior salão de leitura do mundo, que ocupa
uma área de 20.000 metros quadrados
em vários níveis com capacidade para atender até
2.000 pessoas. O teto é feito de vidro
e alumínio. Visto de cima, lembra a forma de um microchip. O edifício
tem uma inclinação de 16 graus, um recurso que dá
leveza ao conjunto e ajuda a controlar a luz natural em seu interior por
meio de um sistema retrátil de janelas. O reflexo da luz solar
no teto inclinado incide no Mediterrâneo, lembrando outra pérola
do passado o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do mundo.
Com 135 metros de altura, o farol foi construído em 280 a.C. e
destruído por um terremoto em 1307. Em volta do prédio principal
foi erguido um muro de granito de 6.300 metros
quadrados no qual foram esculpidos exemplos de todos os tipos de escrita.
O complexo inclui ainda planetário, museu da ciência, museu
da caligrafia e um moderno laboratório de restauração.
O conjunto
destoa da paisagem atual de Alexandria, uma metrópole de 5 milhões
de habitantes repleta de favelas. A cidade fundada por Alexandre, o Grande
começou a ganhar fama com a Bibliotheca Alexandrina, seu nome original,
erguida nos jardins do Palácio Real. O objetivo dos Ptolomeu, a
dinastia grega fundada por um dos generais de Alexandre, era fazer com
que a cidade rivalizasse com Atenas, a principal cidade da Grécia
antiga. Com o tempo e a fama acumulada pela biblioteca, aumentar seu acervo
virou uma obsessão. Filiais em outros pontos da cidade foram abertas
para abrigar o material, boa parte adquirida na marra consta que
muitos originais emprestados para ser copiados acabaram surrupiados.
O motivo
de sua destruição ainda divide historiadores. A versão
mais difundida diz que o responsável teria sido Júlio César.
Ele a incendiou por engano quando repelia um ataque vindo do mar, durante
a guerra contra Ptolomeu XIII, irmão e então inimigo de
Cleópatra. O tesouro que sobrou foi reunido numa das filiais da
biblioteca, Serápis, um templo pagão que acabou sendo destruído
pelos cristãos em 391 d.C. A nova biblioteca ressurge com objetivos
bem mais modestos. Ela tem estrutura para acolher cerca de 8 milhões
de livros o acervo da biblioteca do Congresso americano, a maior
do mundo, possui mais que o dobro. Até agora, apenas 500.000
volumes foram adquiridos ou provenientes de museus o mais antigo
deles é um texto muçulmano com cerca de 1.000
anos. Um número de livros ainda pequeno, mas significativo para
um país onde metade da população é analfabeta.
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