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Edição 1 740 - 27 de fevereiro de 2002
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Sem comida a bordo

Companhias aéreas dos EUA cortam
refeições de vôos domésticos.
Agora, só lanchinho

Raul Juste Lores

Comida de avião, assim como de hospital, nunca teve a melhor fama. Com aparência e gosto normalmente nada convidativos, era apenas um mal necessário para passageiros que ficavam muitas horas longe de uma boa mesa. Mas logo, quem diria, aquelas bandejinhas darão saudade. Desde os ataques terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos, que abalaram as finanças da aviação comercial, as grandes companhias aéreas americanas estão fazendo cortes justamente na comida servida aos passageiros. A American Airlines decidiu "por emergência financeira" suspender o serviço de refeições a bordo na maioria dos vôos domésticos nos EUA. A Delta anunciou que só servirá pratos quentes para passageiros da classe econômica em vôos de mais de quatro horas de duração, e de duas horas para a primeira classe. A TWA, agora uma subsidiária da American, seguiu o mesmo caminho. Quem viaja na classe turística na maioria dos vôos domésticos tem de se contentar em receber refrigerante com "acompanhamento", geralmente um acanhado pacotinho de amendoim.


Fernando Gardinalli
"O gasto com refeições por passageiro nas maiores empresas aéreas dos EUA caiu pela metade nos últimos 10 anos"


Com o aumento da demora no check-in, devido à reforma nas medidas de segurança, não são poucos os passageiros que têm de chegar três horas antes do embarque e só voltam à terra firme, completamente esfomeados, muitas horas depois. Ou seja, o que no passado era uma viagem de três horas agora demora o dobro – e sem refeição. Se o desavisado não se abastecer na lanchonete do aeroporto antes de partir, poderá ter uma viagem realmente inesquecível. No Brasil, a pioneira dessa tendência chamada food free foi a novata Gol. Com vôos de uma hora e meia em média, seu serviço de bordo se resume a barras de cereal, amendoim, refrigerantes, água e sucos, modelo que a empresa copiou de companhias americanas que apostam no preço baixo e no serviço simples, como a Southwest e a JetBlue. "Por economia, praticidade e segurança, essa é uma tendência que até as grandes companhias estão seguindo", diz o vice-presidente de marketing da Gol, Tarcísio Gargioni. Ele faz as contas de quanto custa servir pratos quentes no avião, somando muito mais que o gasto com a comida propriamente dita. Um aparelho fica oito minutos a mais no solo quando é necessário embarcar o serviço de bordo, retirar posteriormente as sobras das refeições e limpar a aeronave. Um avião que realiza doze vôos diários aumenta em 10% sua produtividade economizando esses minutos, por diminuir o tempo em que fica parado.

Economia, pura e simples. De acordo com um estudo do banco de investimentos Goldman Sachs, em 1991 as companhias aéreas gastavam 4,5 dólares em refeições por passageiro; em 2000, só 3 dólares. Estima-se que esse gasto seja hoje aproximadamente metade do que foi há dez anos. Redução equivalente ocorreu com o pessoal das empresas americanas que fornecem essas refeições às companhias aéreas. A LSG Sky Chefs demitiu 5.000 de seus 16.000 empregados, e a Gate Gourmet reduziu 15% dos 12.000 funcionários. Os demitidos protestaram em aeroportos americanos com faixas que traziam os dizeres: "Tomara que você goste de amendoim". O amendoim é o grande vilão. A companhia aérea Southwest, que serviu de modelo para a Gol, tem um gasto médio em refeições de apenas 23 centavos por passageiro – menos de um décimo do que gastam as grandes empresas – e foi apelidada de "amendoim" por oferecê-lo em todos os seus vôos, em vez de pratos quentes.

No Brasil, as companhias aéreas maiores ainda não ousaram fazer cortes tão radicais. "Nos Estados Unidos, o transporte aéreo é para as massas, enquanto no Brasil são as classes média e alta que viajam de avião e são bem mais exigentes", observa Edward Couto, gerente de produto e serviço da Varig. "Os aeroportos americanos têm fartura de lanchonetes de fast food próximas à área de embarque, onde os passageiros se alimentam." No Brasil, a Varig serve sanduíches quentes e vinho argentino até nos curtíssimos vôos da ponte aérea Rio–São Paulo. Mas os cardápios devem sofrer reduções no segundo semestre. Algumas mudanças já são visíveis. "Hoje em dia, a carne vermelha foi substituída pelo frango, e as massas, mais baratas, estão por toda parte", diz o brigadeiro Carlos Sergio de Sant'anna Cesar, consultor em aeronáutica que trabalha há 34 anos com aviação civil. "Há vinte anos, a primeira classe da Varig usava louça japonesa, cristal, talheres de prata e se servia faisão em vôos internacionais." As refeições são um artigo fácil de cortar para as companhias aéreas em tempos de crise, em comparação com a manutenção, o combustível, o leasing das aeronaves (gastos em dólares) ou as taxas aeroportuárias, sobre as quais as empresas não têm total controle. Antes, o cardápio era uma arma de marketing, mas, com as companhias brasileiras de caixa baixa, é um item simples de suprimir na hora de reduzir custo. "Até o início da década passada, 70% dos passageiros viajavam a negócios e 30% a lazer. Atualmente, é meio a meio", afirma o brigadeiro Cesar. "O passageiro hoje dá preferência às passagens mais baratas, mesmo que o serviço seja mais simples." Com exceção dos vôos internacionais, mais longos, a regra agora é dar grande destaque ao amendoim.

   
 
   
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