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Sem comida a bordo
Companhias
aéreas dos EUA cortam
refeições de vôos domésticos.
Agora, só lanchinho

Raul Juste
Lores
Comida de
avião, assim como de hospital, nunca teve a melhor fama. Com aparência
e gosto normalmente nada convidativos, era apenas um mal necessário
para passageiros que ficavam muitas horas longe de uma boa mesa. Mas logo,
quem diria, aquelas bandejinhas darão saudade. Desde os ataques
terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos, que abalaram as finanças
da aviação comercial, as grandes companhias aéreas
americanas estão fazendo cortes justamente na comida servida aos
passageiros. A American Airlines decidiu "por emergência financeira"
suspender o serviço de refeições a bordo na maioria
dos vôos domésticos nos EUA. A Delta anunciou que só
servirá pratos quentes para passageiros da classe econômica
em vôos de mais de quatro horas de duração, e de duas
horas para a primeira classe. A TWA, agora uma subsidiária da American,
seguiu o mesmo caminho. Quem viaja na classe turística na maioria
dos vôos domésticos tem de se contentar em receber refrigerante
com "acompanhamento", geralmente um acanhado pacotinho de amendoim.
Fernando Gardinalli
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| "O
gasto com refeições por passageiro nas maiores empresas
aéreas dos EUA caiu pela metade nos últimos 10 anos"
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Com o aumento da demora no check-in, devido à reforma nas medidas
de segurança, não são poucos os passageiros que têm
de chegar três horas antes do embarque e só voltam à
terra firme, completamente esfomeados, muitas horas depois. Ou seja, o
que no passado era uma viagem de três horas agora demora o dobro
e sem refeição. Se o desavisado não se abastecer
na lanchonete do aeroporto antes de partir, poderá ter uma viagem
realmente inesquecível. No Brasil, a pioneira dessa tendência
chamada food free foi a novata Gol. Com vôos de uma hora
e meia em média, seu serviço de bordo se resume a barras
de cereal, amendoim, refrigerantes, água e sucos, modelo que a
empresa copiou de companhias americanas que apostam no preço baixo
e no serviço simples, como a Southwest e a JetBlue. "Por economia,
praticidade e segurança, essa é uma tendência que
até as grandes companhias estão seguindo", diz o vice-presidente
de marketing da Gol, Tarcísio Gargioni. Ele faz as contas de quanto
custa servir pratos quentes no avião, somando muito mais que o
gasto com a comida propriamente dita. Um aparelho fica oito minutos a
mais no solo quando é necessário embarcar o serviço
de bordo, retirar posteriormente as sobras das refeições
e limpar a aeronave. Um avião que realiza doze vôos diários
aumenta em 10% sua produtividade economizando esses minutos, por diminuir
o tempo em que fica parado.
Economia,
pura e simples. De acordo com um estudo do banco de investimentos Goldman
Sachs, em 1991 as companhias aéreas gastavam 4,5 dólares
em refeições por passageiro; em 2000, só 3 dólares.
Estima-se que esse gasto seja hoje aproximadamente metade do que foi há
dez anos. Redução equivalente ocorreu com o pessoal das
empresas americanas que fornecem essas refeições às
companhias aéreas. A LSG Sky Chefs demitiu 5.000
de seus 16.000 empregados, e a Gate Gourmet
reduziu 15% dos 12.000 funcionários.
Os demitidos protestaram em aeroportos americanos com faixas que traziam
os dizeres: "Tomara que você goste de amendoim". O amendoim é
o grande vilão. A companhia aérea Southwest, que serviu
de modelo para a Gol, tem um gasto médio em refeições
de apenas 23 centavos por passageiro menos de um décimo
do que gastam as grandes empresas e foi apelidada de "amendoim"
por oferecê-lo em todos os seus vôos, em vez de pratos quentes.
No Brasil,
as companhias aéreas maiores ainda não ousaram fazer cortes
tão radicais. "Nos Estados Unidos, o transporte aéreo é
para as massas, enquanto no Brasil são as classes média
e alta que viajam de avião e são bem mais exigentes", observa
Edward Couto, gerente de produto e serviço da Varig. "Os aeroportos
americanos têm fartura de lanchonetes de fast food próximas
à área de embarque, onde os passageiros se alimentam." No
Brasil, a Varig serve sanduíches quentes e vinho argentino até
nos curtíssimos vôos da ponte aérea RioSão
Paulo. Mas os cardápios devem sofrer reduções no
segundo semestre. Algumas mudanças já são visíveis.
"Hoje em dia, a carne vermelha foi substituída pelo frango, e as
massas, mais baratas, estão por toda parte", diz o brigadeiro Carlos
Sergio de Sant'anna Cesar, consultor em aeronáutica que trabalha
há 34 anos com aviação civil. "Há vinte anos,
a primeira classe da Varig usava louça japonesa, cristal, talheres
de prata e se servia faisão em vôos internacionais." As refeições
são um artigo fácil de cortar para as companhias aéreas
em tempos de crise, em comparação com a manutenção,
o combustível, o leasing das aeronaves (gastos em dólares)
ou as taxas aeroportuárias, sobre as quais as empresas não
têm total controle. Antes, o cardápio era uma arma de marketing,
mas, com as companhias brasileiras de caixa baixa, é um item simples
de suprimir na hora de reduzir custo. "Até o início da década
passada, 70% dos passageiros viajavam a negócios e 30% a lazer.
Atualmente, é meio a meio", afirma o brigadeiro Cesar. "O passageiro
hoje dá preferência às passagens mais baratas, mesmo
que o serviço seja mais simples." Com exceção dos
vôos internacionais, mais longos, a regra agora é dar grande
destaque ao amendoim.
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