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O retrato do Brasil
em dez anos
O censo
do IBGE mostra como
o país mudou (para melhor)
entre 1991 e 2000

Lucila Soares
Na história
de um país de 501 anos, uma década não é nada.
Quando se olha para trás, no entanto, verifica-se que não
é tão pouco. O retrato dos anos 90 que emerge do Censo 2000,
divulgado na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), mostra que é um intervalo que permite mudanças substanciais.
Entre 1991 e 2000, o Brasil teve melhoras expressivas em aspectos significativos.
A renda média subiu 41,8%. A taxa de analfabetismo caiu de 19,7%
para 12,8%. E cresceu o número de domicílios com serviços
de saneamento básico. Por outro lado, o resultado do censo demonstra
que uma década é tempo curto no que se refere a problemas
estruturais. Na redução da desigualdade social, os avanços
são tímidos. O índice que mede a concentração
de renda caiu 4%, mas o Brasil se mantém entre os quatro países
com a pior distribuição de renda do planeta.
O capítulo
das boas notícias é extenso e tem um conjunto de explicações.
A principal é a queda da inflação proporcionada pelo
Plano Real. Essa é a causa primordial do aumento da renda média
do brasileiro, que foi importante mesmo levando em conta que em 1991,
o ano-base da comparação, o país vivia o auge da
recessão do governo Collor. O dado mais alentador, no entanto,
é que as mudanças aconteceram em todas as regiões,
e mais fortemente naquelas pobres. A renda rural cresceu mais que a urbana,
o saneamento melhorou mais no norte que no sul. Ao mesmo tempo, confirmaram-se
as grandes tendências que se vêm desenhando desde a década
de 50 e são reflexo da modernização do país:
a aceleração da urbanização, o aumento da
idade média da população, a redução
da taxa de crescimento demográfico e a melhoria do nível
de instrução dos chefes de família. São estatísticas
de alto significado social. Mais gente vivendo em cidades quer dizer maior
acesso a saúde, educação e infra-estrutura de saneamento.
Pais e mães mais instruídos têm mais chance de competir
no mercado de trabalho, o que se reflete no conjunto das condições
de vida da família e, evidentemente, no padrão de educação
dos filhos.
As más
notícias, por sua vez, têm todas o mesmo pano de fundo: a
histórica desigualdade da nação brasileira. Para
se ter uma idéia, metade dos chefes de família ganha até
350 reais por mês. "A metade mais pobre representa só 12%
da renda total", diz Vandeli Guerra, pesquisadora do IBGE. O país
continua com uma das piores taxas de analfabetismo da América Latina:
17,6 milhões de pessoas incapazes de compreender ou redigir um
simples bilhete. E, embora todas as regiões tenham registrado melhorias
na qualidade de vida, as diferenças permanecem brutais na totalidade
dos indicadores. No Nordeste e no Norte, ganha-se menos, estuda-se menos
e vive-se menos que no Sul ou no Sudeste. No que se refere a saneamento,
há informações vergonhosas. Em pleno século
XXI, há 7,5 milhões de domicílios sem banheiro. No
Piauí, 43% das casas não têm nenhum tipo de instalação
sanitária índice semelhante ao que se registra em
municípios pobres de Estados ricos, como São Paulo. A desigualdade
continua a se manifestar fortemente também entre os sexos: embora
as mulheres sejam chefes de 25% das famílias (em 1991 esse índice
era de 18%), elas ganham o equivalente a 71% do rendimento masculino.
O censo
demográfico é a mais importante fonte de informações
sobre as condições de vida da população brasileira.
A parte divulgada agora se refere ao questionário básico,
que foi respondido em todos os domicílios visitados. Por ser a
única pesquisa que abrange os 5.507
municípios do país, é um instrumento precioso para
o planejamento de todas as políticas voltadas para o bem-estar
social. A conclusão desse calhamaço são 500
páginas de informações colhidas por 200.000
recenseadores entre agosto e novembro do ano passado é que
o país avançou. Os 169 milhões de brasileiros registrados
no Censo 2000 vivem, em linhas gerais, melhor do que se vivia em 1991.
A questão é que é preciso avançar mais e mais
rápido para pôr fim à injustiça social. "É
como um copo com água pela metade. Alguns dirão que está
meio cheio, outros que está meio vazio", resume o presidente do
IBGE, Sérgio Besserman. De qualquer maneira, há meio copo
a ser preenchido. Trata-se de desafio para mais uma década, ou
duas, ou mais ainda que isso. Mas é bom lembrar que, se dez anos
é um prazo curto para eliminar problemas estruturais, é
também tempo mais que suficiente para agravá-los de forma
dramática. Aí está a Argentina para servir de exemplo.
Em 1991, apostou todas as fichas no plano econômico que prometeu
vida de Primeiro Mundo à população. Dez anos depois,
o resultado é pobreza e caos num país que sempre se orgulhou,
com motivo, de suas conquistas sociais.


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