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Edição 1 732 - 26 de dezembro de 2001
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O retrato do Brasil
em dez anos

O censo do IBGE mostra como
o país mudou (para melhor)
entre 1991 e 2000

Lucila Soares

Na história de um país de 501 anos, uma década não é nada. Quando se olha para trás, no entanto, verifica-se que não é tão pouco. O retrato dos anos 90 que emerge do Censo 2000, divulgado na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que é um intervalo que permite mudanças substanciais. Entre 1991 e 2000, o Brasil teve melhoras expressivas em aspectos significativos. A renda média subiu 41,8%. A taxa de analfabetismo caiu de 19,7% para 12,8%. E cresceu o número de domicílios com serviços de saneamento básico. Por outro lado, o resultado do censo demonstra que uma década é tempo curto no que se refere a problemas estruturais. Na redução da desigualdade social, os avanços são tímidos. O índice que mede a concentração de renda caiu 4%, mas o Brasil se mantém entre os quatro países com a pior distribuição de renda do planeta.

O capítulo das boas notícias é extenso e tem um conjunto de explicações. A principal é a queda da inflação proporcionada pelo Plano Real. Essa é a causa primordial do aumento da renda média do brasileiro, que foi importante mesmo levando em conta que em 1991, o ano-base da comparação, o país vivia o auge da recessão do governo Collor. O dado mais alentador, no entanto, é que as mudanças aconteceram em todas as regiões, e mais fortemente naquelas pobres. A renda rural cresceu mais que a urbana, o saneamento melhorou mais no norte que no sul. Ao mesmo tempo, confirmaram-se as grandes tendências que se vêm desenhando desde a década de 50 e são reflexo da modernização do país: a aceleração da urbanização, o aumento da idade média da população, a redução da taxa de crescimento demográfico e a melhoria do nível de instrução dos chefes de família. São estatísticas de alto significado social. Mais gente vivendo em cidades quer dizer maior acesso a saúde, educação e infra-estrutura de saneamento. Pais e mães mais instruídos têm mais chance de competir no mercado de trabalho, o que se reflete no conjunto das condições de vida da família e, evidentemente, no padrão de educação dos filhos.

As más notícias, por sua vez, têm todas o mesmo pano de fundo: a histórica desigualdade da nação brasileira. Para se ter uma idéia, metade dos chefes de família ganha até 350 reais por mês. "A metade mais pobre representa só 12% da renda total", diz Vandeli Guerra, pesquisadora do IBGE. O país continua com uma das piores taxas de analfabetismo da América Latina: 17,6 milhões de pessoas incapazes de compreender ou redigir um simples bilhete. E, embora todas as regiões tenham registrado melhorias na qualidade de vida, as diferenças permanecem brutais na totalidade dos indicadores. No Nordeste e no Norte, ganha-se menos, estuda-se menos e vive-se menos que no Sul ou no Sudeste. No que se refere a saneamento, há informações vergonhosas. Em pleno século XXI, há 7,5 milhões de domicílios sem banheiro. No Piauí, 43% das casas não têm nenhum tipo de instalação sanitária – índice semelhante ao que se registra em municípios pobres de Estados ricos, como São Paulo. A desigualdade continua a se manifestar fortemente também entre os sexos: embora as mulheres sejam chefes de 25% das famílias (em 1991 esse índice era de 18%), elas ganham o equivalente a 71% do rendimento masculino.

O censo demográfico é a mais importante fonte de informações sobre as condições de vida da população brasileira. A parte divulgada agora se refere ao questionário básico, que foi respondido em todos os domicílios visitados. Por ser a única pesquisa que abrange os 5.507 municípios do país, é um instrumento precioso para o planejamento de todas as políticas voltadas para o bem-estar social. A conclusão desse calhamaço – são 500 páginas de informações colhidas por 200.000 recenseadores entre agosto e novembro do ano passado – é que o país avançou. Os 169 milhões de brasileiros registrados no Censo 2000 vivem, em linhas gerais, melhor do que se vivia em 1991. A questão é que é preciso avançar mais e mais rápido para pôr fim à injustiça social. "É como um copo com água pela metade. Alguns dirão que está meio cheio, outros que está meio vazio", resume o presidente do IBGE, Sérgio Besserman. De qualquer maneira, há meio copo a ser preenchido. Trata-se de desafio para mais uma década, ou duas, ou mais ainda que isso. Mas é bom lembrar que, se dez anos é um prazo curto para eliminar problemas estruturais, é também tempo mais que suficiente para agravá-los de forma dramática. Aí está a Argentina para servir de exemplo. Em 1991, apostou todas as fichas no plano econômico que prometeu vida de Primeiro Mundo à população. Dez anos depois, o resultado é pobreza e caos num país que sempre se orgulhou, com motivo, de suas conquistas sociais.

 


 
 
   
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