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Edição 1 732 - 26 de dezembro de 2001
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O povo põe De la Rúa
para fora

Encurralado pelo povo em fúria e
sem apoio político, o presidente da
Argentina renuncia. Seu ministro da
Economia jogou a toalha horas antes

Reuters
AP
O FIM DA PACIÊNCIA
Multidão toma a Praça de Maio em frente à sede do governo, desafiando o estado de sítio. Depois de assinar a carta de renúncia, De la Rúa pediu ao fotógrafo da Presidência que registrasse seus últimos momentos no gabinete. Na foto, ele limpa as gavetas

A crise econômica na Argentina seria insolúvel se os países fossem entidades transitórias, dessas que declaram falência e fecham as portas. Como isso não ocorre com as nações, em algum momento se chegará a uma solução. O que não há é a possibilidade de saída indolor. O presidente Fernando de la Rúa e seu todo-poderoso ministro da Economia, Domingo Cavallo, deixaram uma tarefa complicadíssima como herança para o novo governo argentino. Essa tarefa será o desmonte do sistema que faz o peso valer 1 dólar. O desafio consiste em acabar com a paridade do peso e do dólar sem agravar a crise social, que tirou De la Rúa do poder na semana passada. A paridade entre as duas moedas, que hoje parece desafiar o bom senso, foi o artifício que livrou a Argentina da hiperinflação no início dos anos 90. Como a maioria da população tem dívidas contraídas na moeda americana, a desvalorização pura e simples do peso levaria a uma falência generalizada. Além disso, os argentinos preferem o sacrifício da paridade ao risco da hiperinflação. Sobre a paridade do dólar e do peso se pode dizer que foi um sucesso quase mágico e hoje é um pesadelo. Essa evolução que levou Cinderela a se transformar em abóbora é um fascinante capítulo na história das experiências econômicas.

Sem caixa para saldar a dívida externa de quase 150 bilhões de dólares, mais da metade do valor de seu produto interno bruto, a Argentina está à beira de aplicar na praça o maior calote de sua história. A recessão se prolonga há 43 meses, e dois em cada dez argentinos estão sem emprego. Foi por isso que o argentino saiu às ruas na semana passada de pedras na mão. Está cansado de apanhar do governo. Quarteladas e badernas nas ruas, lideradas por oportunistas, são tristemente comuns na América Latina. O que ocorreu na Argentina teve ingredientes novos: uma rebelião espontânea de uma população empobrecida e farta de ser cobaia de experiências econômicas fracassadas. A onda de saques iniciada nos bairros pobres da periferia de Buenos Aires alastrou-se rapidamente pelo país e culminou com uma ruidosa concentração de milhares de manifestantes diante da Casa Rosada na madrugada de quinta-feira. Encurralado pela fúria de seus concidadãos e incapaz de negociar uma solução política com a oposição, o presidente Fernando de la Rúa apresentou sua renúncia no final da tarde. Temendo pela própria vida, deixou o palácio de helicóptero – logo ele, que prezava tanto o ritual de retornar a Olivos, a residência oficial da primeira-família, num vistoso cortejo de limusines.


AFP
FRACASSO DO MÁGICO
Cavallo venceu a inflação em 1991 e ganhou fama de supereconomista. De volta ao comando da economia em março, seus superpoderes tinham sumido. A recessão foi mais forte que ele


O custo da rebelião foi pesado: mais de uma centena de supermercados, lojas e residências saqueados, 26 mortos e centenas de feridos. Deve-se incluir na coluna dos prejuízos um abalo nas instituições de proporções ainda difíceis de avaliar e uma enorme incerteza sobre quem (e como) vai governar o país. Com a renúncia de De la Rúa e a ausência do vice-presidente, que renunciou em outubro de 2000, o cargo passou temporariamente para o presidente do Senado, o inexpressivo senador Rámon Puerta. Na noite de sexta-feira, o partido peronista, que tem maioria no Congresso, escolheu o governador da Província de San Luis, Adolfo Rodríguez Saá, como presidente interino. Ele deverá governar por noventa dias e convocar eleições diretas para presidente em 3 de março. O eleito terá um mandato-tampão até dezembro de 2003, quando deveria terminar o governo De la Rúa. Há várias questões sem resposta nessa equação. A maior delas é se a Argentina pode esperar mais três meses pela salvação. Por enquanto, o sentimento de se livrar da dupla De la Rúa e Domingo Cavallo é de alívio. O presidente passava a impressão de viver no mundo da lua, tal sua dificuldade em tomar decisões. Em dois anos e dez dias de governo, foi se isolando cada vez mais. No final, cercava-se apenas de bajuladores, entre eles seu filho Antonio, o namorado da cantora Shakira. Não foi por outra razão que o grito de guerra da multidão diante da Casa Rosada era "governe, incapaz".

No último mês, à depressão econômica e ao desgoverno somou-se o confisco de parte dos depósitos bancários do povo, medida desesperada para impedir que os argentinos retirassem todas as suas economias dos bancos para comprar dólares, com medo da desvalorização do peso. Indiferente ao custo social de sua engenharia financeira, o ministro Cavallo podou 13% dos salários do funcionalismo e as aposentadorias dos idosos. Com a adoção dessas medidas, o comércio parou. Num país acostumado ao uso do dinheiro vivo, apenas um terço dos habitantes paga em cheques ou cartão de crédito. Oitenta e cinco por cento das casas comerciais não estavam preparadas para cobrar em cartão. Tudo isso em véspera de Natal num país muito católico. O efeito na vida da classe média argentina foi brutal. Este é um verão sem viagens, sem cinema nem troca de carro (a queda no comércio de automóveis foi de 40% neste ano). Quando os saques começaram nas províncias mais pobres e na periferia da capital, De la Rúa decretou estado de sítio e foi à TV pedir calma à população. Poucos minutos depois de seu pronunciamento à nação, 40.000 pessoas, a maioria da classe média de Buenos Aires, cercaram a Casa Rosada, sede do governo, tocando panelas e buzinando. A pressão fez efeito em 24 horas. De la Rúa foi posto para fora pela força dessa maré de insatisfação.

AFP
AFP
BATALHA NAS RUAS
As tropas de choque da polícia tentam conter os manifestantes, no centro de Buenos Aires. Enquanto os pobres saqueavam na periferia, a classe média batia panelas na Praça de Maio. Confrontos deixaram 26 mortos e 2 000 feridos

Fernando de la Rúa não era o presidente certo para um país em crise. Prefeito de Buenos Aires, ele foi um administrador apagado, mas com fama de honesto. Era o que o eleitor queria. O argentino estava cansado da corrupção e das extravagâncias observadas nos dois mandatos do peronista Carlos Menem. A chapa de De la Rúa ganhou respeitabilidade com a inclusão como vice-presidente de um carismático esquerdista, Carlos "Chacho" Alvarez. Os dois logo se desentenderam e o vice renunciou. Desde o início de seu governo, inaugurado com um pacote de mais impostos, o presidente foi um fator de incerteza permanente. Com a popularidade declinante, ele se refugiava em sua coleção de bonsais, distraído, enquanto o país desmoronava. Trocou várias vezes de ministro da Economia (um deles ficou apenas duas semanas). Por fim, há nove meses, num ato de desespero, convocou Domingo Cavallo, o ministro que vencera a hiperinflação no governo Menem. Cabeça-dura, o tecnoburocrata Cavallo mostrou-se insensível ao sacrifício social que impôs ao país, tudo para assegurar a manutenção da conversibilidade, que ele criara para o governo Menem. Comprou briga com o Brasil, quase arruinou o Mercosul, brigou com o Fundo Monetário Internacional (FMI), cujos empréstimos eram uma questão de vida ou morte para a Argentina. No fim, o próprio FMI, que bancava o desastre da política econômica de Cavallo, anunciou que iria fechar a torneira por discordar do que o ministro estava fazendo.

Depois de controlar a inflação em 1991, a Argentina viveu vários anos de prosperidade. O rico parque estatal do país foi privatizado e a economia cresceu, em média, quase 7% ao ano até 1996. Aí começaram os problemas. Para manter a popularidade e o apoio político a seu governo, Menem torrou rios de dinheiro. Como não podia emitir moeda, atrelada por lei aos dólares disponíveis no banco central, ele precisou pedir empréstimos no exterior para sustentar o descontrolado gasto público. O resultado é a enorme dívida atual. A situação poderia ser melhor se o país tivesse uma indústria competitiva em termos internacionais ou atraísse recursos externos. Não é o que acontece. Os investidores estrangeiros preferem o Brasil, vizinho de economia mais pujante e com mercado consumidor maior. O desmantelamento da Argentina é irônico. No início do século passado, o país era a sétima maior economia do mundo. Naquele tempo, as exportações de carne sustentavam um estilo de vida de opulência sem similar no restante do continente. A taxa de analfabetismo de 13% atingida pelo Brasil em 2000 já tinha sido alcançada pela Argentina em 1947.

O dinheiro fácil criou uma elite sofisticada e extravagante. Também pagou um invejável sistema de seguridade social. O problema é que a venda de carne deixou de ser um bom negócio nos anos 30 e nunca se criou uma indústria para substituí-la. A Argentina continuou sendo um país agropecuário, sem que essa economia rural estivesse em condições de sustentar a vida opulenta da população. A instabilidade política não ajudou. Domingo Perón, ditador populista cujo nome deu origem ao partido peronista, estatizou fábricas e criou um sindicalismo corrupto à sua medida. Dilapidou as reservas monetárias da nação. De 1943 a 1976, houve cinco golpes militares. No último deles, depois do caótico governo de Isabelita, viúva de Perón, o regime militar degenerou numa guerra de extermínio de oposicionistas que deixou 30.000 mortos. Desde a II Guerra, nenhum presidente, exceto Menem, terminou seu mandato. A diferença é que o antecessor de Menem, Raul Alfonsín, que levou o país à hiperinflação e entregou o poder seis meses antes do encerramento de seu mandato, tinha um presidente eleito para assumir o cargo.

 

 
 
   
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