Colunista colunável

Zózimo Barrozo do Amaral, o jornalista
que tratava todos bem e se tratava mal

Marcos Sá Corrêa

Zózimo, a griffe de duas linhas:
faz a melhor coluna quem
dedica mais tempo ao trabalho
Foto: Jose Antonio  

Os leitores que, desde quinta-feira passada, sentem no Segundo Caderno de O Globo a falta da coluna de Zózimo Barrozo do Amaral provavelmente não sabem o que perderam. Para eles, a coluna viveu um dia a mais do que o colunista que morreu na terça-feira, no hospital Mount Sinai, em Miami. Estava inconsciente havia um mês e, antes que o seqüestrasse a violência terminal do câncer diagnosticado em setembro, reservou com exclusividade à mulher, Dorita Moraes Barros, as palavras em que condensou a derradeira amostra de sua incurável elegância: "Não sofra. Está ruim viver. Não me segure aqui. Boa viagem". Lacônica como uma nota. Ele foi o jornalista que escrevia melhor em duas linhas.

No dia seguinte, junto com várias páginas de obituário, sua coluna saiu pela última vez em O Globo, onde Zózimo escrevia desde 1993. Lá estavam, no desenho inconfundível que definiu durante mais de trinta anos a forma e o conteúdo do colunismo social no Brasil, os fantasmas de suas marcas registradas: um sorriso de socialite, a chegada do Beaujolais Nouveau, duas doses de política, piadas sobre El Niño, a queda das bolsas e o FMI. Tudo obra da redatora Valéria Blanc, substituta que havia meses mantinha aquela meia página em respiração artificial. Na mesma quarta-feira, o Jornal do Brasil também publicou sua última coluna de Zózimo Barrozo do Amaral. Datava de quatro anos atrás e era um legítimo Fred Suter, o substituto que então cobria a retaguarda enquanto o titular, dilacerado pelo sucesso, atravessava na Clínica São Vicente a crise da mudança de emprego, trocando o jornal em que construíra durante 24 anos sua esplêndida reputação pelo concorrente que lhe oferecia um salário duas vezes maior.

Talheres O que os dois jornais disputaram na despedida foi a griffe Zózimo Barrozo do Amaral. Um grande produto jornalístico, capaz de arrastar leitores e anunciantes para onde fosse. Como costuma ocorrer com as celebridades genuinamente inimitáveis, ele acabou copiado no Brasil inteiro por colunistas sociais de mais ou menos talheres. Nos casos em que a clonagem deu certo, agora sua influência é herança. Um pedaço de Zózimo reencarna diariamente no Jornal do Brasil, onde Danuza Leão retrata a grã-finagem com a altivez de quem ensina boas maneiras aos anfitriões. Sobrevive em O Globo, onde Ricardo Boechat pode embutir em poucas linhas, nas notas de Swann, como brilhantes catados nos restos de um baile, notícias que encherão primeiras páginas por dias a fio. Fazendo o Swann, Zózimo estreou como colunista em 1964. Outra manifestação póstuma de Zózimo baixa diariamente em O Dia, para onde Fred Suter carregou um humor capaz de cortar a língua de um personagem sem lhe arranhar a fisionomia. Nos bons tempos da dupla, isso funcionava até em circuito fechado. "Pode deixar, ponho na cesta", eles costumavam responder a quem telefonava cavando notas. O interessado ouvia que o favor seria atendido na sexta. E os dois, lealmente, punham o assunto no lixo. Eis a prova de que Zózimo era único. Perpetuá-lo requer o talento de vários jornalistas.

Filho de banqueiro, largou no meio o curso de direito, morou dois anos em Paris como estudante e freqüentou a sociedade carioca muito antes que ela, cada vez mais povoada por endinheirados que nasceram pobres, aprendesse a fazer qualquer coisa para freqüentar sua coluna. Num espaço geralmente cativo das vaidades que brotam na vida mundana, conseguiu ser preso por desacato ao regime militar, ao registrar que o general Aurélio de Lyra Tavares, ministro do Exército, levara um empurrão numa cerimônia em quartel, e armar uma trincheira solitária no Jornal do Brasil contra a candidatura Paulo Maluf, quando ele parecia fadado a ganhar a Presidência da República no tapetão de 1984.

Zózimo nasceu rico. Com a morte do pai, na década passada, recebeu mais de 2 milhões de dólares. Com o dinheiro da herança, teve apartamento em Paris. Depois de trinta anos de sucesso, tinha menos que ao começar. Aos 56 anos, seus luxos eram um apartamento em Miami e um automóvel Mercedes-Benz, ambos pendurados em prestações a perder de vista. Pródigo com dinheiro, Zózimo dissipou uma saúde que, bem depois de atravessar a barreira dos 40 anos, lhe permitia comparecer a vários jantares e festas numa noite e, depois de jogar tênis de manhã, chegar ao jornal com o ar de quem estava saindo de um spa. Foi o inventor da "esticada", que eventualmente emendava um jantar regado a champanhe francês com chope de bar diante do sol nascente.

Ao mesmo tempo, foi o pioneiro das notícias de esporte nas colunas sociais. Cobriu, com garra de tenista e torcedor de futebol, Copas do Mundo e os torneios Roland Garros. Do alto desse fôlego, em 1988 resumiu numa entrevista sua fórmula de colunismo: "É basicamente trabalho. A coluna sai pior ou sai melhor dependendo do tempo que se dedica a ela". Esse tempo passou a faltar a ele e à coluna no começo desta década, quando iniciou uma briga difícil com o alcoolismo e a depressão. Da bebida, depois de uma série de internações, parecia livre havia três meses, quando uma dor de cabeça denunciou que tinha o organismo tomado pela metástase. Acabara de largar o cigarro, depois de fumar desde a adolescência mais de quatro maços por dia, mesmo quando fazia em sua coluna campanhas contra o fumo. Essa era a marca registrada de Zózimo. Tratava todo mundo muito bem. Mas se tratava muito mal.




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