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Edição 2088

26 de novembro de 2008
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O mundo sem dono

O modelo americano triunfou, mas os Estados Unidos
perdem espaço para países como China e Índia.
Fareed Zakaria analisa o novo cenário global


Nelson Ascher

Stephen Shaver/Bloomberg News
NOVOS CONSUMIDORES
Comércio em Xangai: 400 milhões saíram da pobreza na China

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Trecho do livro

Fareed Zakaria, editor da revista Newsweek International e responsável por uma coluna semanal sobre política estrangeira, é, como demonstra seu novo livro, O Mundo Pós-Americano (tradução de Pedro Maia Soares; Companhia das Letras; 312 páginas; 49 reais), um observador arguto do panorama contemporâneo. Ele conta, para tanto, com duas vantagens: a de escrever desde o epicentro do mundo em vias de globalização, os Estados Unidos; e a de ter crescido no que era ainda há pouco uma de suas periferias mais atrasadas, a Índia. A sinergia proporcionada por tal combinação lhe permite acompanhar o presente momento do país seja como um insider, seja como um estrangeiro. Mantendo-se eqüidistante tanto da americanofobia como da americanolatria, seu enraizamento prévio no antigo Terceiro Mundo também o impede de superestimar os demais países. E, se o título do volume sugere uma preferência pelos prognósticos, Zakaria de fato se concentra mais em descrever minuciosamente o cenário de hoje – as linhas de força que prevalecem agora –, esboçando os traços gerais da história que o precede e explica.

Ele começa pelo paradoxo característico dos tempos que correm: como é que, num mundo marcado por guerras, terrorismo e ameaças diversas, o que se tem visto durante as duas últimas décadas é não o colapso da ordem ou um mergulho da maioria das nações na pauperização, mas, sim, populações em número crescente emergindo de miséria ancestral? Afinal, como a China e a própria Índia provam em grande escala, nunca antes a vida material de tantos melhorou de forma tão decisiva em tão pouco tempo. (E, apesar da atual crise, cujos piores efeitos só se revelaram após a publicação de O Mundo Pós-Americano, tais sucessos não parecem reversíveis.) Como isso pôde acontecer? O autor atribui o resultado a dois fatores principais: o abandono, depois da queda da União Soviética, de sistemas inviáveis, seguido da adesão ao livre mercado; e uma relativa (e talvez temporária) independência da economia em relação à política. Seja como for, é a entrada de novos agentes, de bilhões de novos produtores-consumidores, na economia global que, segundo Zakaria, estaria ameaçando o monopólio americano de poder e influência e apontando para uma era pós-americana, na qual a margem de manobra da única superpotência diminuiria diante de rivais encabeçados pela China ou de aliados potenciais, como a Índia. Não se trata, ele nos assegura, de triunfo do antiamericanismo, uma das formas assumidas pela antimodernidade. É mais o caso, aliás, de uma adesão às virtudes da civilização americana que vários países vêm imitando, aperfeiçoando e variando com o intuito preciso de competir com sua matriz.

Joe Kohen/Wire Image/Getty Images
VOZ MODERADA
Fareed Zakaria: distante da americanofobia
e da americanolatria

Logo antes de observar que "a proporção de pessoas que vivem com 1 dólar ou menos por dia despencou de 40% em 1981 para 18% em 2004", que "só o crescimento da China tirou mais de 400 milhões de pessoas da pobreza", Zakaria ilustra essa mescla de emulação e competição com o modelo americano através dos seguintes exemplos: "O edifício mais alto do mundo está agora em Taipei e será superado, em breve, por um em construção em Dubai. A maior empresa de capital aberto do mundo é chinesa. O maior avião do mundo está sendo fabricado na Rússia e na Ucrânia, e as maiores fábricas estão todas na China. Londres está se tornando o principal centro financeiro e os Emirados Árabes Unidos abrigam o fundo de investimentos mais bem-dotado. Ícones outrora essencialmente americanos", ele arremata, "foram apropriados por estrangeiros".

Embora o autor abrace perspectivas até certo ponto otimistas, seu enfoque não deixa de ser nuançado e realista. Convém, no entanto, lembrar que, se o livro de Zakaria se beneficia dos conhecimentos de alguém que vem de fora dos Estados Unidos, seu público-alvo, o leitor que ele tem sobretudo em mente é, ainda assim, o americano. Mais para o bem que para o mal, a obra é menos um estudo desinteressadamente acadêmico do que uma intervenção que ambiciona pesar na política exterior dos Estados Unidos. Vale a pena, assim, situar o autor no amplo espectro do debate de lá. Crítico da administração prestes a deixar o poder, em particular do que, subjazendo à Guerra do Iraque, se convencionou chamar de sua arrogância e unilateralismo, Zakaria tampouco se associa a seus críticos mais radicais. Nem isolacionista nem aliada aos que culpam o país por todos os achaques do planeta, a dele pode ser ouvida como uma voz que, moderada, prega menos a alteração completa de curso do que sua sintonização mais fina e sutil.



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