Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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A fé segundo Pasolini

Ou como coube a um comunista fazer
o filme mais fiel sobre a vida de Jesus


Isabela Boscov

É geralmente tido como ironia que um dos filmes mais fiéis já feitos sobre a vida de Jesus Cristo – senão o mais fiel – seja obra de um comunista, o italiano Pier Paolo Pasolini. O Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo Secondo Matteo, Itália, 1964), que sai agora em DVD em cópia restaurada, é dedicado pelo diretor ao papa João XXIII e não tem nem uma única fala que não seja tirada tal e qual do texto do evangelista Mateus. Ao contrário dos filmes bíblicos que proliferavam nos anos 50 e 60, em Evangelho não há contextualização para facilitar a vida do espectador e, afora os figurinos, a rigor também não há reconstituição histórica – todas as cenas foram rodadas em locação, nas colinas áridas e então pobres da região italiana da Basilicata. O elenco é todo de não-atores – entre eles a mãe de Pasolini, como Maria, e o caminhoneiro espanhol Enrique Irazoqui, que faz Jesus e é um dos mais bem-sucedidos exemplos do dom do diretor para captar no rosto de seus intérpretes uma essência que fosse alheia à atuação. A sensação, proposital, é a de que se assiste a um documentário sobre Jesus. E, como os grandes documentários, Evangelho adquire por meio do real um caráter simbólico, que é reforçado pela fotografia em preto-e-branco, quase impressionista, de Tonino Delli Colli, e pela montagem do excepcional Nino Baragli. Por isso, apesar de um certo incômodo inicial causado pelo fato de as vestes dos sacerdotes judeus que condenam Cristo lembrarem muito os paramentos dos papas católicos – e também a despeito de Pasolini ter sido preso dois anos antes, em 1962, por desrespeito à Igreja –, o filme não demorou a ganhar a chancela do Vaticano. O que seria um tanto embaraçoso para um comunista, não fosse Pasolini o comunista em questão.

Famoso como poeta, romancista e ensaísta antes de se tornar cineasta, Pasolini (1922-1975) passou à história como a contradição personificada: um comunista ateu que era também católico e homossexual – além de um esquerdista que irritava não só a direita, o que seria de esperar, como agravava a esquerda com suas tomadas de posição corrosivas. É natural, portanto, que se procurem na sua obra as formas como ele conciliou esses opostos. Uma das razões pelas quais Evangelho preserva sua força e beleza é que Pasolini demonstra nele o quanto esses aparentes paradoxos muitas vezes não passam de questão de nomenclatura. Não se trata apenas de identificar em Cristo uma espécie de precursor do socialismo e um provocador. A idéia que Pasolini desenha aqui é, de certa forma, ainda mais subversiva: para ele, o ato de acreditar sempre traz em si algo de místico, seja acreditar numa religião ou num ideal de justiça social. Ou, trocando em miúdos, a ideologia não deixa de ser uma forma de religião – algo que não causava ao diretor nenhum desconforto, mas hoje, como então, ainda mexe com os brios de muitos.

 
 
 
 
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