Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Música
A musa do "telecotecno"

Elza Soares, uma das cantoras mais
ousadas da MPB, adere à eletrônica


Oscar Cabral
Elza Soares, cujo novo disco tem sambas incrementados pela eletrônica: "Eu gosto do agito que essa moçada faz"
Ouça Elza Soares


A cantora Elza Soares tem ousadia de sobra. Nos anos 60, quando estreou em disco, ela incrementou os sambas de seu repertório com improvisos vocais que pareciam saídos de uma sessão de jazz. Deixou os tradicionalistas de cabelo em pé e ganhou críticas severas, mas não se abalou. Pelo contrário, transformou o estilo audaz numa marca registrada. Veja-se o seu novo álbum, Vivo Feliz. Com 67 anos estimados (ela não crava jamais sua idade), Elza poderia muito bem explorar glórias passadas. Afinal de contas, o revisionismo está em voga. Gal Costa, por exemplo, acaba de gravar um repertório de bolerões dos anos 40 e 50. Outras artistas jovens, e muito movidas a marketing deslavado, também estão nessa trilha. Mas Elza resolveu seguir adiante e flertar com a eletrônica, criando uma espécie de "telecotecno". Em parceria com o produtor Arthur Joly, ela fez versões arrevesadas de músicas como Opinião, de Zé Keti, e Volta por Cima, de Paulo Vanzolini. "Ela não se tornou especialista em tecno, evidentemente, mas fica alucinada com a música e as festas", diz Joly.

O fôlego de Elza Soares é impressionante. Ela está casada há três anos com o jornalista Anderson Lugão. A diferença de idade entre os dois é de quatro décadas. "Ele é um senhor de 27 anos, e ajuda a controlar o meu pique", brinca a cantora. Os dois moram numa casa confortável no bairro da Joatinga, no Rio de Janeiro. A rotina dos exercícios é sagrada para Elza – não exercícios vocais, mas para manter o corpão em forma. Ela faz duas horas diárias de musculação acompanhada por Anderson, uma espécie de personal trainer informal. A agenda de shows está cheia – são cerca de vinte por mês. No tempo que sobra, Elza vai para a cozinha. "Sou cozinheira de mão-cheia. Minha especialidade são os pratos italianos e mineiros", diz ela.

A história de Elza daria um samba-enredo. Em 1962, ela iniciou um romance atribulado com o jogador de futebol Garrincha, que na época era famosíssimo – e casado. Elza foi tachada de aproveitadora e enredou-se num escândalo que pôs sua carreira em declínio. Duas décadas mais tarde, ela fez uma celebrada participação no álbum Velô, de Caetano Veloso, e foi alçada novamente à posição de diva. Depois disso, criou o show Minha Vingança Sará Maligrina, que era apresentado à meia-noite numa casa de espetáculos de São Paulo. "Era uma loucura, um show meio provocador e espalhafatoso. Soavam umas badaladas de filme de terror e eu surgia no palco, de calça rasgada", lembra. Então sobreveio uma tragédia: Garrinchinha, seu único filho com Garrincha, morreu num acidente de carro. O atual ciclo artístico de Elza iniciou-se há dois anos, quando ela se associou ao produtor José Miguel Wisnik. Wisnik produziu o disco Do Cóccix até o Pescoço. Lançado pelo selo independente MaiangAa, o disco vendeu 85.000 cópias – número bastante respeitável dentro desse mercado. Vivo Feliz é uma continuação daquele projeto. "Na minha vida tudo tem de ser para a frente", diz Elza. E ela soa autêntica.

 
 
 
 
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