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Empresas
O
desafio de fazer 100 anos
Segredos
e problemas das empresas que
conseguem viver mais que seus fundadores

Monica
Weinberg
AP
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| Clay
Ford, bisneto do patriarca Henry Ford: prejuízos e empresa ameaçada
pela concorrência |
A Ford
festejou na semana passada a fabricação de seu veículo
número 300 milhões. O carro construído para
a celebração foi um Mustang vermelho conversível,
um dos modelos de maior sucesso da empresa. A festa acontece num
momento delicado na vida da companhia. A contabilidade registra
dois anos consecutivos de prejuízos, há tempos a Ford
não consegue criar produtos que encantem os consumidores
e sua posição no ranking mundial das montadoras de
veículos está seriamente ameaçada pela Toyota.
A Ford ocupa hoje o segundo lugar entre as gigantes, atrás
apenas da General Motors. Corre o risco de virar a terceira. Apesar
do cenário adverso, há um desafio fantasmagórico
nessa história. A Ford comemorou em junho um feito raro no
mundo dos negócios. Ela chegou aos 100 anos de idade. Segundo
levantamento feito por uma publicação especializada,
56% das organizações familiares nos Estados Unidos
quebram, são vendidas ou acabam fatiadas entre os herdeiros
bem antes de completar cinqüenta anos. Outras 30% passam por
essa transformação por volta dos cinqüenta anos
e 10% conseguem chegar intactas aos 75 anos. Apenas 4% das companhias
completam um século de vida, como a Ford. O atual presidente
da empresa, William Clay Ford, é bisneto do lendário
Henry Ford, o industrial que criou o conceito da linha de montagem.
A inovação baixou os preços e rapidamente tornou
os carros acessíveis a quase todos os americanos. Foi um
dos marcos do capitalismo.
AP
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| Os
executivos Phil Marineau e Robert Haas, da Levi's: roupas para
operários |
Há várias etapas na vida de um empreendimento de sucesso.
A primeira delas é a consolidação do negócio,
quando a companhia conquista clientes, gera receitas e distribui
lucros. Nessa fase inicial, a taxa de mortalidade é muito
elevada, sejam as empresas grandes, sejam pequenas. No Brasil, os
dados indicam que a cada ano nascem em média 500.000
empresas. Perto de 50% morrem no primeiro ano de vida. As empresas
que superam a etapa de implantação do negócio
enfrentam desafios variados que culminam com a sucessão no
comando. Acertar o momento de rejuvenescer o comando das firmas
é um dos segredos para que uma companhia possa envelhecer
sem perder o vigor. Na maior parte dos casos, a energia vital da
empresa está associada ao envolvimento direto do fundador.
O chamado "olho do dono" muitas vezes funciona como a diferença
entre uma companhia bem-sucedida e aquela que fracassa. Em alguns
casos, no entanto, a permanência exagerada pode produzir efeitos
colaterais nocivos à companhia. Acertar o instante de mudar
é um desafio e tanto. Ainda mais porque, no momento em que
o fundador decide por qualquer motivo procurar um substituto, são
freqüentes as disputas entre os herdeiros. A família
muitas vezes descuida do negócio e a companhia sucumbe. No
caso das empresas centenárias, o stress ligado à sucessão
ocorre seguidas vezes.
A
Universidade Stanford realizou uma pesquisa para identificar fatores
decisivos para a longevidade das empresas. O resultado está
no livro Feitas para Durar Práticas Bem-Sucedidas
de Empresas Visionárias. Entraram no estudo empresas
como a General Electric, a Boeing e a Johnson&Johnson, todas
com mais de 100 anos. A conclusão é que essas empresas
prosperaram porque sempre tiveram enorme capacidade de antecipar
as necessidades dos consumidores e souberam adequar seus negócios
às novas realidades. No passado, a Ford produzia suas próprias
chapas de aço e até tentou extrair borracha da Amazônia
para fabricar pneus. Hoje a empresa é exemplo de terceirização.
Quase todos os seus esforços estão voltados para o
design, marketing, financiamento e comercialização
dos carros. A Levi's começou produzindo calças baratas
e resistentes para operários e agora seu foco é o
público jovem. Uma das companhias mais antigas do mundo,
a fabricante italiana de armas Beretta foi fundada nos tempos em
que Michelangelo estava no auge de sua produção artística
e tinha pintado há poucos anos o teto da Capela Sistina no
Vaticano. Vendia munição. Para sobreviver, a empresa
precisou se reinventar várias vezes. Esses são considerados
casos extraordinários de adaptação.
As
empresas como as conhecemos hoje são uma criação
do século XIX. Antes disso, quando uma companhia quebrava,
carregava com ela todos os bens dos sócios, que muitas vezes
podiam ser responsabilizados criminalmente pelos atos de seus gestores.
Hoje, as pessoas podem ser apenas acionistas de uma firma. O risco
embutido no negócio é perder o dinheiro investido.
A responsabilidade civil e criminal se limita ao presidente e diretores
da empresa. Também não havia leis para regular os
processos de falência e concordata. Empresas quebravam, os
donos desapareciam do mapa e os credores ficavam na mão.
No passado, muitas disputas comerciais acabavam em crimes e até
mesmo em guerras. A mudança nas leis deu proteção
aos empreendimentos e aos investidores, estimulando assim a realização
de novos negócios e impulsionando o capitalismo.
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