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Juros
A
copa do juro real é nossa
O
Banco Central baixou a taxa básica
para 17,5%, mas o Brasil ainda lidera
o ranking mundial do custo do dinheiro

Chrystiane
Silva
Celso Junior/AE
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| Decoração
de Natal: consumidor reage mais rápido à queda da taxa de juro
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Como
toda mercadoria, o dinheiro tem um custo. O menor custo do dinheiro
em cada país é determinado pelo que se chama juro
real calculado quando se extraem da taxa de juro do Banco
Central os efeitos anualizados da inflação. No Brasil,
com a mexida para baixo na taxa feita pelo BC na quarta-feira passada,
o juro básico caiu de 19% para 17,5%. Com isso o juro real
ficou em 10,9%. É uma taxa ainda altíssima. O custo
do dinheiro no Brasil é assustador quando é comparado
com o juro real cobrado em outros países. O Brasil é
o campeão da carestia monetária, seguido no ranking
por Israel, um país em guerra, pela Hungria e pela Turquia.
Portanto, apesar de todo o esforço do governo e das pressões
da sociedade, o impulso definitivo para o crescimento sustentado
ainda não está garantido pelo atual patamar do juro.
A
imensa maioria das empresas brasileiras ainda não pode tomar
empréstimos em bancos para financiar ou ampliar suas atividades.
A razão é aritmética. Só o governo consegue
empréstimos do sistema bancário pagando 10,9% de juro
real. Os bancos cobram bem mais das empresas. As melhores, mais
sólidas e mais líquidas atualmente no Brasil são
as firmas ligadas aos negócios no campo, o chamado agronegócio.
O juro médio real cobrado anualmente pelos bancos para empresas
desse setor passa de 20%. Como elas têm, em média,
um lucro anual, descontada a inflação, superior a
20%, essas empresas conseguem empréstimos e geram
caixa para pagá-los. São exceção. Tomem-se
como exemplo dois dos mais ativos segmentos da economia brasileira:
os supermercados têm margens líquidas de 2% e as montadoras
de automóveis, de apenas 0,2%. "Ao contrário do que
diz o governo, a verdade é que não existe demanda
de crédito no Brasil. Pelo menos demanda de empresas que
podem provar sua capacidade de pagar os empréstimos", diz
o presidente de um grande banco americano em atividade no Brasil.
No
decorrer da última década, o Brasil foi dependente
do capital internacional para equilibrar seu balanço de pagamentos.
Isso exige manter o juro real alto para atrair investidores. Hoje,
a situação mudou um pouco. O superávit comercial
de 23 bilhões de dólares previsto para este ano diminui
um pouco a necessidade de financiamento externo. Além disso,
contribuiu o fato de que o juro real no mundo está muito
baixo. Os Estados Unidos operam com juros negativos. O Japão
com juro real zero. O México com 1,4%. Nesse cenário,
sustentam alguns analistas, o Banco Central poderia baixar o juro
em uma velocidade maior. Em teoria isso é razoável,
mas, pelo que se conhece das convicções de Henrique
Meirelles, presidente do BC, o ambiente econômico brasileiro
não suportaria juro real abaixo de 9% ao ano sem gerar pressões
inflacionárias. Portanto, o mais provável é
que o gradualismo continue. "O gradualismo do Banco Central na redução
dos juros é uma espécie de sintonia fina de alguém
que já encontrou a emissora mas ainda ouve chiados", diz
Andrei Spacov, economista do Unibanco.
A
vulnerabilidade do Brasil pode ser medida também por outro
indicador, o chamado risco soberano. O do Brasil caiu dos 2.400
pontos no ano passado para menos de 600. Mesmo assim, é um
dos mais altos do mundo. O do México, por exemplo, flutua
em torno de 250 pontos. Como a confiança é um bem
difícil de adquirir e que se perde com facilidade, a avaliação
de risco dos países sobe mais rapidamente do que cai. "O
Brasil tem um longo histórico de indisciplina fiscal. Para
ter um risco menor precisa manter a disciplina por muito mais tempo",
diz Alexandre Bassoli, economista-chefe do HSBC. No fundo, a taxa
de juro real e o risco soberano são definidos pelo tamanho
da dívida pública do país em relação
ao seu produto interno bruto (PIB). Mesmo convivendo com uma taxa
campeã do mundo no torneio dos piores juros para o crescimento,
o consumidor brasileiro tende a reagir psicologicamente bem à
queda das taxas. Os consumidores, afinal, são movidos por
expectativas. E, se depender delas, a economia vai ter um belo presente
de Natal neste ano.
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