Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Especial
Malignos, comuns e traiçoeiros


Paula Neiva

 
Os piores inimigos
Vida prolongada
A importância da prevenção
Câncer de pulmão: o grande vilão é o cigarro
As frentes de combate
O que vem por aí
VEJA Saúde: Reportagens de arquivo, links e as novidades sobre a luta contra o câncer
Pergunte ao Médico: tire sua dúvida sobre a doença

Os médicos calculam que um total de 405 000 brasileiros receberá o diagnóstico de câncer em 2003. Cento e trinta mil pessoas morrerão vítimas da doença. Das centenas de tipos de tumores malignos, os de pulmão, mama e próstata respondem por um quarto dos novos casos registrados anualmente.

Eles também são responsáveis por 30% de todas as mortes. Graças ao refinamento dos métodos de diagnóstico, à criação de drogas mais potentes e menos tóxicas e ainda ao aprimoramento das medidas de prevenção, a luta contra o câncer avança por meio de vitórias isoladas. No caso dos três tumores mais comuns e letais, as conquistas têm sido notáveis, apesar do grande número de baixas. Desde a década de 70, a taxa de sobrevida dos pacientes de câncer de pulmão cresceu 70%. Se o diagnóstico for precoce, um homem vítima de um tumor de próstata tem mais de 95% de chance de ser curado. Uma mulher com câncer de mama, quase 90%. Foi-se o tempo em que os pesquisadores privilegiavam a descoberta de uma "bala mágica" para exterminar o câncer – se ela existir, ainda não dá para divisá-la no horizonte. O foco mudou. "A meta é transformar o câncer em uma doença crônica e administrável, como o diabetes e os distúrbios cardíacos", disse a VEJA o cirurgião americano Judah Folkman, pesquisador da Universidade Harvard e um dos grandes nomes da oncologia.

Principal causa de morte entre as mulheres e responsável por quase 42.000 novas vítimas a cada ano no Brasil, o câncer de mama é um dos tumores com mais altas taxas de recidiva. Metade das pacientes tratadas volta a desenvolver novos nódulos. Uma das novidades mais promissoras para tentar evitar esse problema foi divulgada recentemente pela revista científica americana The New England Journal of Medicine. Médicos do Instituto Nacional do Câncer do Canadá descobriram que o medicamento Femara, do laboratório Novartis, pode cortar em até 50% os riscos de reincidência da doença depois de cinco anos do diagnóstico inicial. Os resultados da pesquisa foram tão animadores que o estudo foi interrompido cerca de dois anos e meio antes do previsto. Os pesquisadores resolveram oferecer às pacientes que estavam tomando placebo a possibilidade de mudar de grupo e passar a tomar o Femara.

Até então, como forma de impedir a volta da doença, a terapia-padrão previa apenas o uso do remédio tamoxifeno depois da fase mais pesada do tratamento (que pode envolver cirurgia, radioterapia e quimioterapia). O tamoxifeno, contudo, não pode ser administrado por mais de cinco anos. Após esse período, ele perde o efeito e pode até facilitar o reaparecimento do tumor. Segundo a pesquisa canadense, que acompanhou mais de 5.100 mulheres na pós-menopausa, o Femara é capaz de dar continuidade à prevenção proporcionada pelo tamoxifeno. "O estudo é excelente, mas ainda faltam dados conclusivos sobre efeitos colaterais e riscos do tratamento a longo prazo", diz o mastologista Luiz Henrique Gebrim. De qualquer forma, a notícia é boa.

A genética associada a um estilo de vida ruim contribui bastante para o aparecimento dos cânceres de mama e próstata. Quanto ao câncer de pulmão, não resta a menor sombra de dúvida: o principal vilão é o cigarro (veja quadro). Nove de cada dez tumores de pulmão estão associados ao tabagismo. Principal causa de morte por câncer em todo o mundo, a doença era rara até a década de 30. Foi a partir da II Guerra, quando o consumo de cigarros explodiu, que o tumor de pulmão começou a ganhar espaço nas estatísticas. Ele costumava ocorrer predominantemente entre os homens, mas, com o aumento do número de mulheres fumantes verificado nos últimos trinta anos (um dos aspectos negativos da liberação feminina), o câncer de pulmão passou a ser também uma grande ameaça para elas. Entre 1979 e 2000, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o número de casos da doença entre os homens aumentou 57%. Entre as mulheres, registrou-se um incremento de 134%. Médicos ingleses mostraram que as mulheres fumantes são mais vulneráveis do que os homens ao mais devastador e mortal dos cânceres de pulmão, o carcinoma de pequenas células. As causas da maior suscetibilidade ainda não foram totalmente desvendadas. Uma das hipóteses mais aceitas é que o jeito de fumar feminino contribui muito para o desenvolvimento da doença. As tragadas delas são mais curtas, porém mais intensas. Soma-se a isso o fato de que os hormônios sexuais femininos, especialmente o estrógeno, funcionam como poderoso combustível para as células cancerosas.

Entre os males da modernidade, o sedentarismo e o excesso de peso são um passaporte para o câncer. Os gordos têm até 60% mais probabilidade de desenvolver alguns tipos de câncer do que quem se mantém na linha. A relação entre excesso de peso e tumores de mama e próstata explica-se pelo fato de que as células adiposas não servem apenas de depósito para a gordura excedente. Elas funcionam como reservatório de hormônios sexuais, extremamente perigosos – assim como o estrógeno, a testosterona, o hormônio masculino por excelência, serve de alimento aos tumores. Meia hora de exercício moderado, cinco vezes por semana, deixa o organismo mais protegido contra vários tipos de câncer, entre eles os três mais recorrentes. Protege não apenas porque ajuda a manter o peso ideal, mas também porque aumenta a eficiência do sistema imunológico e combate os radicais livres, as moléculas tóxicas que aceleram o envelhecimento e comprometem o bom funcionamento do organismo. Um estudo publicado na revista científica Journal of the American Medical Association mostra que caminhar a passos acelerados, duas horas por semana, pode reduzir os riscos de câncer de mama em cerca de 20%. Quase 75.000 mulheres, de 50 a 79 anos, foram analisadas. A mesma pesquisa revelou que o tratamento com um tipo específico de combinação hormonal para atenuar os sintomas da menopausa poderia aumentar os riscos de doenças cardíacas e tumores mamários. A prevenção contra o câncer passa também pela mesa. A dieta ideal é rica em frutas, grãos, verduras, legumes e peixes de águas frias. O peso da nutrição no combate aos tumores malignos é enorme. Uma alimentação balanceada pode cortar em 50% os riscos de câncer de mama, em 20% os de próstata e em 35% os de pulmão.

Desses três tipos de câncer, o de pulmão é, sem dúvida, o maior desafio para a medicina. Trata-se de um tumor extremamente agressivo, responsável por cerca de um terço de todas as mortes por câncer no mundo. "Em menos de três meses, ele dobra de volume", diz o oncologista e pneumologista Riad Younes, professor da Universidade de São Paulo e do Hospital do Câncer A.C. Camargo. "Quando o tumor é de apenas 1 centímetro, a probabilidade de metástase chega a 20%." Além disso, ele evolui silenciosamente. Quando os primeiros sintomas surgem – tosse persistente, dor no peito, rouquidão, crises freqüentes de pneumonia, bronquite ou asma e falta de fôlego –, a doença tende a estar em estágio avançado.

Uma das grandes novidades para a detecção precoce do câncer de pulmão é uma máquina que combina o que há de mais moderno em termos de tomografia computadorizada. Batizado de PET/CT, o aparelho produz duas imagens simultâneas da área do pulmão a ser investigada. Uma delas mostra a região em que o consumo de glicose é mais alto – um indício de que ali pode estar o câncer. A outra fornece uma fotografia tridimensional do tumor – que não apenas revela a morfologia do nódulo, como aponta sua localização exata. Isso facilita tremendamente o trabalho do cirurgião, que precisa extirpar a área diretamente afetada. "A taxa de acerto fica em torno de 93%", afirma o médico Eduardo Lima, coordenador do setor de medicina nuclear do Hospital do Câncer A.C. Camargo, centro de referência para a pesquisa e o tratamento da doença. Além de facilitar o diagnóstico e as cirurgias, esse aparelho é de grande utilidade na aplicação de quimioterapia antes da extração do câncer. Desenvolvida por médicos do Instituto Nacional de Câncer, essa técnica visa a diminuir o tamanho do tumor antes do procedimento cirúrgico. Em média, ele reduz em cerca de 60% o volume inicial do câncer. Com isso, os riscos de reincidência diminuem. Outro avanço no tratamento do câncer de pulmão é a aplicação da quimioterapia depois da cirurgia mesmo que não haja indícios de que o tumor tenha se espalhado para outros órgãos. Tal procedimento não era comum. Com esse tipo de intervenção, o número de pacientes que sobrevive ao câncer é 5% maior. Pode parecer pouco, mas é um ganho inquestionável quando se trata de vidas salvas.

As novas técnicas cirúrgicas resultaram em melhorias também para as vítimas de câncer de mama. Hoje, as intervenções têm um perfil bem mais conservador. Duas décadas atrás, depois de um câncer identificado, a única providência era extirpar a mama por completo. Tumores com menos de 3 centímetros de diâmetro são agora eliminados numa operação chamada quadrantectomia, na qual se retira apenas um quarto da mama. A paciente, mesmo quando é submetida à mastectomia radical, já sai da sala de cirurgia com a região preparada para o recebimento de prótese de silicone. Outra inovação é a técnica de avaliação do "linfonodo sentinela". Quando o câncer de mama avança em direção a outros órgãos, ele trilha seu caminho através dos gânglios linfáticos localizados na região das axilas, os linfonodos. Até meados da década passada, além da retirada do tumor maligno, os médicos faziam o "esvaziamento da axila". Ou seja, por receio de que o câncer se espalhasse, extraíam todos os gânglios da axila, escavando um buraco debaixo do braço. A precaução diminuía os riscos de metástase, mas comprometia ainda mais a já abalada auto-estima das pacientes. A vítima podia também perder a sensibilidade e os movimentos do braço afetado. Os mastologistas agora tentam evitar esse recurso, utilizando a técnica do "linfonodo sentinela". Depois de extirpar o câncer, eles injetam uma substância corante na mama, que migra pelo sistema linfático e, por contraste, identifica o primeiro gânglio. Se esse gânglio não estiver contaminado pela doença, isso significa que os outros também não estão. Dessa forma, é supérfluo retirá-los. Mas há limitações. "Em até 30% dos casos, o resultado é falso negativo e a paciente tem de operar novamente. Além disso, a técnica só é indicada para pacientes que apresentam nódulos menores do que 3 centímetros", diz a médica Lea Mirian Barbosa, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O maior aliado no diagnóstico do câncer de mama continua a ser a combinação do auto-exame com a mamografia (veja tabela). Nos últimos dez anos, a qualidade das mamografias foi aprimorada. As imagens obtidas com os primeiros mamógrafos só eram capazes de identificar tumores com mais de 1 centímetro de diâmetro. Com a invenção da mamografia de alta definição, nódulos de até meio milímetro puderam ser detectados. A maior novidade nessa área é a mamografia digital, capaz de aumentar em até vinte vezes a imagem de um tumor. Descobre-se o câncer, assim, quando ele tem o tamanho de um grão de areia. A mamografia digital também é bem menos desconfortável e mais rápida que a tradicional. Identificado em estágio tão inicial, o mal pode ser erradicado em quase 100% das vezes. Se a mamografia encontra um nódulo, é necessário fazer biópsia. Para retirar amostras da região sob suspeita, era preciso fazer uma cirurgia que deixava uma larga cicatriz, invariavelmente. Hoje, uma agulha fina é capaz de tirar quantidade suficiente de tecido para análise.

As inovações também foram enormes no tratamento dos tumores de próstata. O avanço no diagnóstico deve-se, em grande parte, à combinação do exame de toque retal com a dosagem de PSA. Essa proteína, quando encontrada no sangue em níveis acima do normal, pode indicar a presença de tumores de próstata. A combinação dos dois exames é capaz de identificar até 95% dos tumores. Recentemente, estudo publicado na revista científica The New England Journal of Medicine contestou a validade do exame de PSA. Segundo o artigo, o teste, isoladamente, não detectaria 82% dos casos de câncer em homens com menos de 60 anos. Com base em tal estatística, alguns pesquisadores chegaram a sugerir que o nível da proteína considerado seguro fosse reduzido. Esse dado, porém, precisa ser confirmado por outros estudos, que já estão em andamento. "A dosagem de PSA continua a ser o método mais adequado para detectar o câncer prostático, incluindo os que estão em fase inicial", diz o urologista Álvaro Sarkis, professor da Universidade de São Paulo.

Dos tratamentos disponíveis, a retirada total da próstata é o que apresenta melhores resultados para tumores iniciais. Esse tipo de cirurgia sempre gerou muita polêmica. Apesar de registrar um índice de cura mais elevado que o da radioterapia, a operação pode deixar seqüelas. A mais temida delas, a impotência, atinge sobretudo homens entre 55 e 60 anos. Nessa faixa etária, o risco de perda de potência sexual por causa da retirada da próstata é de até 50%. Nos pacientes mais jovens, beira os 15%. Por sua vez, a impotência decorrente da radioterapia, em qualquer idade, ronda 40% dos doentes. Como forma de contornar esse problema, os procedimentos cirúrgicos foram aprimorados. Uma das técnicas para reduzir a probabilidade de impotência foi criada há menos de dois anos. Ela usa enxertos de um nervo da perna ou de um outro próximo à virilha do paciente para substituir os nervos responsáveis pela ereção, que muitas vezes são danificados pela cirurgia. Outras terapias disponíveis são a crioterapia (congelamento) e a braquiterapia, que destrói o tumor através de sementes radioativas implantadas dentro da próstata. A radioterapia também evoluiu muito. Antes ela era evitada para tumores de próstata por ser muito tóxica e ter foco pouco preciso, o que causava estragos a outros órgãos próximos, como a bexiga.

Desde a década de 80, a ciência tenta saber se há uma associação entre câncer de próstata e nível de atividade sexual. Os primeiros estudos mostravam que, quanto maior era o número de relações sexuais, maiores os riscos de desenvolvimento de tumores. Em pouco tempo, porém, essa ligação entre a doença e um ritmo mais frenético na cama foi esclarecida. O perigo, na verdade, era maior entre os homens que faziam muito sexo com múltiplas parceiras – o que aumenta a probabilidade de contrair doenças sexualmente transmissíveis, um fator de risco para o câncer de próstata.

A última pesquisa nesse sentido foi conduzida por médicos australianos. Depois de analisar o histórico de mais de 2.000 homens, entre 40 e 69 anos, eles concluíram que a masturbação talvez proteja contra o câncer de próstata. Os pesquisadores enviaram um questionário a 1.079 homens vítimas da doença, a fim de que detalhassem seus hábitos sexuais ao longo da vida. As respostas foram comparadas às de outros 1.259 homens saudáveis da mesma faixa etária. O resultado indica que, quanto mais ejaculações um homem teve entre os 20 e os 50 anos, menor é a probabilidade de ele desenvolver o tumor. A ejaculação, segundo os pesquisadores australianos, ajudaria a evitar que algumas substâncias cancerígenas presentes no sêmen ficassem armazenadas por tempo demais na próstata. Por que a masturbação, e não o sexo propriamente dito? Porque na masturbação não há nenhum risco de infecção.

Como não poderia deixar de ser, a indústria farmacêutica anda investindo pesado na criação de drogas para o tratamento dos tumores que mais matam. Atualmente, nos Estados Unidos, estão em fase de desenvolvimento setenta medicamentos para o câncer de pulmão, 49 para o de mama e 44 para o de próstata (veja os mais promissores deles). "Muitas vezes, acontece de um mesmo medicamento agir em diferentes tipos de tumor. Os estudos iniciais podem ser específicos, mas depois a tendência é que a nova droga também tenha outras indicações", diz a médica Karina Fontão, do laboratório Roche. É o caso do Avastin, criado inicialmente para o tratamento do câncer colo-retal, que vem sendo estudado para pacientes vítimas de tumores de mama e pulmão.

Vinte e cinco séculos depois de ter sido descrito pela primeira vez pelo grego Hipócrates, considerado o pai da medicina, o câncer segue como uma das doenças mais complexas com as quais a medicina já deparou. No início desta reportagem, foi dito que existem centenas de tipos de câncer. Para ser mais preciso, foram contabilizados até agora mais de 800 tumores malignos. Isso mesmo: 800. Na verdade, não há um câncer de pulmão, mas vários. Assim como também há uma variedade de tumores de mama e próstata. Não bastasse essa quantidade, há ainda uma dificuldade suplementar: um mesmo tumor pode se comportar e reagir aos tratamentos de maneira diferente, dependendo de cada pessoa. Por isso, são inúmeras as frentes de combate. Uma delas é a antiangiogênese, idealizada pelo médico americano Judah Folkman, que consiste em matar o tumor de fome (veja quadro). Outros pesquisadores depositam suas esperanças nos chamados anticorpos monoclonais, drogas inteligentes que agem como mísseis teleguiados em busca de células cancerosas – preservando, assim, as sadias do ataque do medicamento, o que reduz drasticamente os terríveis efeitos colaterais da quimioterapia tradicional. A expectativa em relação à eficácia das novas drogas é grande, mas a maior arma contra todo e qualquer tipo de câncer continua a ser a prevenção. Se você fuma, largue o cigarro já. Se você é sedentário, comece a se mexer. Se sua dieta é desregrada, trate de se alimentar direito. Se você não segue a rotina de exames básicos, marque uma consulta com o seu médico amanhã.

 
O estilo de vida faz a diferença

Cerca de 60% dos cânceres estão associados a um estilo de vida inadequado. Duas centenas de estudos científicos já provaram os benefícios da prática regular de ginástica na prevenção da doença. De moderada a intensa, a atividade física aumenta a eficiência do sistema imunológico e a quantidade das substâncias antioxidantes que circulam no organismo. Suar a camisa por pelo menos meia hora, cinco dias por semana, ajuda ainda a controlar o peso e a equilibrar os níveis dos hormônios sexuais, que em excesso servem de combustível para os tumores de mama e próstata. Outros trabalhos já mostraram também que uma dieta equilibrada (rica em frutas, verduras e grãos) pode reduzir os riscos de tumores de mama em até 50%, de próstata em cerca de 20% e de pulmão em quase 35%.

 

Não choro mais

Claudio Rossi

"Em outubro de 2000, descobri um caroço em meu seio direito. Na época, estava amamentando meu filho caçula e achei que o nódulo havia surgido por causa do aleitamento. Por isso, não dei muita importância, apesar de uma irmã e uma tia terem tido a doença. Diante da insistência de amigas, procurei o médico. Foi então que recebi o diagnóstico: estava com câncer. Tinha acabado de completar 35 anos dias antes e me achava muito jovem para ter a doença. A notícia ecoava como uma bomba no meu ouvido. Foi um período muito confuso. Na semana anterior, eu havia me separado. Explodi, chorei, cheguei a procurar meu ex-marido no trabalho para culpá-lo pelo câncer. Nessa época, foi muito importante o apoio que recebi da minha família e dos meus amigos. Quando o mastologista avisou que eu teria de retirar a mama inteira, brotou em mim uma força inexplicável, que me fez ser muito prática. Não quis ir para casa pensar, não. A minha vontade era cortar o mal pela raiz – e o mais rápido possível. Marcamos a cirurgia para o mesmo mês. O que mais doía era ter de deixar de amamentar meu filho. Meu leite tinha de secar antes da cirurgia. Durante esse período, quando ia dar a mamadeira a ele, tinha de cobrir meus seios com um travesseiro. Do contrário, o bebê sentiria o cheiro do meu leite e se recusaria a tomar a mamadeira. Depois da operação, veio a fase mais pesada do tratamento. Logo após as sessões de quimioterapia, faltavam forças até para levantar uma xícara de café vazia. O cabelo não parava de cair. Raspei a cabeça. Quando voltei para casa, meu filho mais velho, na época com 2 anos, disse que eu estava linda. Aquela frase bastou para me dar ainda mais força. Assumi a careca. Ao longo do tratamento, fiz questão de trabalhar uma vez por semana, no mínimo, dando aulas particulares de italiano. Voltei à terapia. Aprendi a me conhecer melhor, a lidar bem com a doença e a ver tudo aquilo como um renascimento, a chance de ser uma nova pessoa. Descobri também que era essencial que eu fosse protagonista da doença e não me deixasse dominar por ela nem pelo pavor que ela causa. Ainda não recebi alta. A cada seis meses, volto ao médico e faço uma bateria de exames. No início, ficava muito nervosa a cada nova consulta e só melhorava depois que o médico dizia que estava tudo bem. O alívio era tão grande que eu saía do consultório, sentava no meio-fio e chorava. A doença era como um fantasma pousado no meu ombro. Hoje, o fantasma da doença não me assusta mais. Não choro mais. Se o câncer vier outra vez, farei tudo de novo e continuarei a ser parte do grupo de pacientes que vingam e que dão depoimentos como este."

Andréa Cavani, 38 anos, psicopedagoga, de São Paulo

 

 

 
 
 
 
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