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Justiça
A
história de um anjo decaído
Michael
Jackson é acusado
outra vez!
de abusar
de um menino
AP
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Michael Jackson é o rei do pop, o cantor que vendeu 210 milhões
de discos e faturou 1 bilhão de dólares em três
décadas de carreira, mais que qualquer outro artista em atividade.
Esses títulos só fazem sentido quando se olha para
o passado. Michael Jackson, que era um bailarino esplêndido,
um astro que marcou uma época, tornou-se um anjo decaído.
Na tarde de quinta-feira passada, conduzido a uma delegacia de polícia
com as mãos algemadas às costas, Michael, aos 45 anos,
era apenas uma figura melancólica, contra a qual pesam acusações
revoltantes de pedofilia. É triste a constatação,
mas de muitas formas não há surpresa nesse destino.
Na longa lista de fatos bizarros em torno do cantor que inclui
sua transformação, por força de múltiplas
cirurgias plásticas, em um ser de aparência não
prevista pela natureza , seu relacionamento com as crianças
sempre representou o canto mais sombrio. Dez anos atrás esteve
igualmente encrencado com acusações de ter molestado
sexualmente um menor. Naquela época, Michael pagou 20 milhões
de dólares para que a família do menino, de 13 anos,
retirasse a acusação. Safou-se assim de maiores aborrecimentos
judiciais, pois, até então, pelas leis da Califórnia,
o Estado americano em que vive, ninguém podia ser processado
por abuso de menores se a vítima não concordasse em
testemunhar.
Desta
vez, não está tão fácil escapar. Depois
do escândalo de 1993, a lei mudou na Califórnia. Agora
a Justiça pode obrigar as vítimas a testemunhar. Apesar
de o nome da vítima não ter sido divulgado, tudo indica
que se trata de Gavin Arvizo, um garoto atualmente com 13 anos que
conheceu o cantor depois que descobriu sofrer de câncer, em
2000, e de quem recebeu ajuda financeira para o tratamento médico.
Durante dois anos, Gavin freqüentou a casa na fazenda de 1.000
hectares transformada num parque de diversões, com carrossel
de cavalinhos, trenzinhos, roda-gigante e um forte apache. Logo
na entrada da casa principal, uma enorme pintura representa Michael
como um santo, rodeado de criancinhas. Em um documentário
sobre a intimidade do cantor, exibido na televisão em fevereiro,
Gavin aparece de mãos dadas com Michael, que admite dormir
com o garoto no mesmo quarto. "Já dormi com muitas crianças,
como o ator Macaulay Culkin e também com o irmão dele.
Qual o problema em compartilhar o amor? Não há nada
de sexual nisso", diz Michael ao entrevistador.
O vídeo foi um desastre para a imagem de Michael. Não
apenas pela espantosa confissão de que dormia no mesmo
quarto, vá lá com seus amiguinhos. Mas também
por demonstrar que nenhum aspecto da existência dele pode
ser medido pelo padrão de normalidade. Depois de assistir
ao documentário, o pai de Gavin, que é separado e
não vive com os filhos, que também visitavam a casa
do cantor, preocupou-se: "Michael tem sido muito generoso com meus
filhos, mas não deveria ficar dividindo o quarto com eles".
Recentemente, traumatizado com as gozações que os
colegas faziam no colégio por sua amizade com o astro, o
garoto foi ao psiquiatra. Contou que Michael lhe dava vinho e pílulas
para dormir e o acariciava. Um terapeuta que toma conhecimento desse
tipo de fato é obrigado por lei a avisar a polícia.
Foi o que o psiquiatra fez. Os advogados do músico estão
se preparando contra uma acusação desde que a mãe
do rapaz brigou no início do ano com Michael, que a sustentava.
Divulgação

Michael
com Gavin e entrando algemado na delegacia (à direita):
o garoto, que quis conhecer Michael depois de ser diagnosticado
com câncer, pode ser o pivô da nova acusação
de abuso de menores contra a estrela do pop |
Fotos AP
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Finalmente,
a tempestade explodiu na terça-feira. A polícia invadiu
a Terra do Nunca, a fazenda do cantor, em busca de indícios
de abuso sexual de crianças e exibiu o mandado de prisão.
Michael, que estava viajando, entregou-se dois dias depois. Foi
levado algemado para a delegacia, pagou fiança de 3 milhões
de dólares e foi liberado em apenas uma hora. O difícil
é acreditar que a mãe do menino não era conivente
com o que acontecia na mansão, emprestando seus filhos para
dormir com o cantor. Quando surgiu a primeira suspeita de abuso,
dez anos atrás, a polícia descobriu que Michael tinha
montado um esquema de aliciamento de menores em sua mansão,
onde recebia regularmente a visita de crianças, que ele chama
de seus "amigos especiais". Em seu quarto havia um alarme para avisá-lo
quando alguém se aproximasse da porta. Isso garantia privacidade
quando dormia com crianças, na mesma cama.
A relação patológica com crianças é
a pior mas não a única aberração no
comportamento de Michael Jackson. Sua aparência atual é
de botar medo em fã de filme de terror. Calcula-se que ele
tenha feito cinqüenta cirurgias plásticas no rosto.
Comparando: para recuperar a pior deformação facial,
nunca é necessário mais do que uma dezena de intervenções
cirúrgicas. Não havia nada de errado com a aparência
original do cantor, exceto o fato de que ele não gostava
dela. Michael Jackson parece sofrer de uma doença psicológica
chamada dismorfia corporal: a pessoa se olha no espelho e se acha
sempre deformada. Hoje, mais do que nunca, Michael tem motivos para
pensar assim. "O excesso de cirurgias plásticas, como obviamente
é o caso dele, pode levar à morte dos tecidos do rosto",
diz o cirurgião plástico Nivaldo Alonso, professor
da Universidade de São Paulo. Numa bem fundamentada reportagem
publicada em fevereiro, a revista americana Vanity Fair garante
que o popstar já não tem nariz. De tanto os médicos
quebrarem e retirarem cartilagens para afilá-lo, não
sobrou alternativa a não ser colocar no lugar uma prótese
de plástico. Jackson também é o único
caso conhecido de negro que virou branco. Ele tem uma doença
chamada vitiligo, que provoca manchas brancas no corpo e é
causada pela falta de pigmento em partes da pele. Em vez de tentar
um tratamento que recupera a pigmentação, Michael
faz o contrário: toma doses cavalares de um remédio
chamado hidroquinona, que tem o efeito de clarear a pele. Isso aumenta
a sensibilidade ao sol. Por isso, em qualquer passeio ao ar livre,
o esquisitão usa sombrinha.
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| Viatura
da polícia em Neverland, a fazenda do artista: lago artificial,
zoológico e parque de diversões |
A
infância e a adolescência de Michael foram uma sucessão
de traumas. Ele, na verdade, nunca teve infância. Começou
a cantar aos 5 anos no grupo dos irmãos, o Jackson 5, que
fez muito sucesso nos anos 70. O pai, Joseph, era um déspota
que obrigava os filhos a ensaiar por horas depois do colégio.
Com freqüência, aplicava-lhes violentas surras. Uma vez,
o pequeno Michael encontrou a irmã La Toya sangrando no chão
do banheiro. Apanhou do pai porque tirara notas baixas na escola.
Mais tarde, já adulta, La Toya contou que o pai abusava sexualmente
dela. Michael era o mais espancado, por ser, na época, o
mais extrovertido e autoconfiante dos irmãos. Aos poucos,
foi se tornando tímido e arredio. O pai o chamava de "narigão",
por pura crueldade. Michael chorava. Aos 20 anos, ele tropeçou
no palco, caiu de cara e quebrou o nariz. Foi a oportunidade que
esperava para começar a mudar o rosto.
Outro momento traumático ocorreu aos 15 anos, quando os irmãos
o trancaram com duas prostitutas em um quarto de hotel para que
fosse iniciado à força no sexo. Terminou a noite lendo
a Bíblia para as moças, sem que acontecesse
nada além disso. Durante toda a vida, ele sempre fez tentativas
patéticas de mostrar que era um homem normal no item sexualidade.
Teve namoros de fachada com atrizes. Em 1994, logo após as
primeiras denúncias de pedofilia, casou-se com Lisa Marie
Presley, filha de Elvis Presley. A união durou um ano e meio.
Depois esteve casado por três anos com a enfermeira Debbie
Rowe, com quem nunca morou junto. Teve dois filhos com ela, acredita-se
que por inseminação artificial: Prince Michael, hoje
com 6 anos, e Paris Michael, de 5. Sempre que sai para passear com
os filhos, Michael Jackson cobre-lhes o rosto com máscara
e pano. Encomendou o terceiro filho, Prince Michael II, hoje com
2 anos, a uma mãe de aluguel, que nunca foi identificada.
No fim do ano passado, causou escândalo ao ser filmado numa
brincadeira perigosa: para se exibir aos fãs, balançou
o bebê na sacada de um hotel de Berlim. Nos anos 80, as esquisitices
de Michael funcionavam como estratégia de marketing, porque
era a época em que fazia boas músicas. O disco Thriller
vendeu 50 milhões de cópias, recorde ainda imbatível
no mundo da música. Nos anos 90, no entanto, a criatividade
artística acabou, e ficaram só as bizarrices, que
deixaram de ser engraçadas quando surgiram as primeiras suspeitas
de pedofilia.
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