Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Comportamento
O mito do paraíso perdido

O que Nicole Kidman, Marlon Brando e o
pintor Gauguin têm em comum? A busca
da felicidade em uma ilhota do Pacífico


Antônio Ribeiro, de Paris



Miramax/divulgação
Nicole Kidman: namoro com Lenny Kravitz e fuga dos incômodos de ser celebridade

Só. Sifilítico. O pintor Paul Gauguin morreu de ataque cardíaco, em 8 de maio de 1903, entre garrafas de rum e ampolas de morfina, em sua Casa do Prazer, no Arquipélago das Ilhas Marquesas. Um ponto minúsculo no mapa, entre a linha do Equador e o Trópico de Capricórnio, nas águas do Pacífico Sul. Gauguin imaginou encontrar ali nativos vivendo em harmonia com a natureza sob as bênçãos de divindades tolerantes com todo tipo de transgressão sexual punida severamente em seu tempo pela sociedade e pela religião na Europa. Sentir-se intoxicado pelos excessos de estímulos da civilização ocidental e sonhar com a vida simples em algum ponto remoto do planeta é um impulso que muitos já tiveram algum dia. Poucos o realizam. O pintor, cuja obra está sendo celebrada em uma exposição em Paris, embarcou rumo ao Pacífico em busca do paraíso terrestre. O ator Marlon Brando viveu quase trinta anos em um atol da Polinésia Francesa. Nicole Kidman, a ex-senhora Tom Cruise, às turras com os tablóides e de namoro com o cantor Lenny Kravitz, revelou estar cogitando interromper sua carreira por tempo indeterminado para morar no isolamento das Ilhas Fiji.

O escritor francês Jean Delumeau fez recentemente uma compilação do mito do paraíso perdido, registrando sua permanência na cultura ocidental desde que o livro bíblico do Gênesis narrou a expulsão de Adão e Eva do Éden por terem provado do fruto proibido. Delumeau chega até o Prozac, a pílula da satisfação sensorial, procurada, segundo ele, pelos aflitos como uma espécie de paraíso químico legal. Seguindo exemplo de Jesus, os primeiros cristãos se depuravam em longos períodos de oração no deserto ou nas montanhas. Santo Antônio, criador do cristianismo monástico no século IV, viveu a maior parte da vida adulta isolado. Quase toda cultura, desde os gregos, tem em sua literatura um herói que parte em busca da terra perfeita. Em Horizonte Perdido, romance de James Hilton transformado em filme por Frank Capra, o paraíso da vida e felicidade eternas ficava em uma montanha no Tibete. Pois não é que recentemente o governo chinês decidiu que os moradores da montanha Zhongdian agora vivem em Xianggelia, a transliteração do Shangri-lá da ficção de Hilton e Capra? O objetivo das autoridades chinesas é atrair turistas.

O marco centenário da busca de Paul Gauguin pelo paraíso terrestre é a exposição monumental Gauguin – Taiti: o Atelier dos Trópicos, no Grand Palais, em Paris. Os museus nacionais da França, o Museu d'Orsay e o Museu de Fine Arts de Boston juntaram esforços para reunir, nesse antigo pavilhão da Exposição Universal, inteiramente renovado para a ocasião, cinqüenta pinturas, trinta esculturas e sessenta obras gráficas do pós-impressionista francês. O legado artístico de Paul Gauguin, ao lado de obras de Cézanne e Van Gogh, é um dos precursores da arte moderna. O conjunto exposto no Grand Palais, além de retraçar, em cores fortes e formas simples, a busca do selvagem e do primitivo como fonte de inspiração que permeou toda a existência de Gauguin, testemunha o desejo de um filho rebelde da Revolução Industrial de retardar a cadência do tempo, imobilizá-lo ou mesmo fazê-lo correr no sentido anti-horário – o fantasma da utopia social de reabilitar modos de vida autênticos de outrora que rondou a Europa do século XIX. A experiência real do que era até então só objeto de conversa nos cafés de Paris. "Ele lançou-se em uma fuga para a frente", disse a VEJA Claire Frèches-Thory, conservadora-chefe do Museu d'Orsay, especialista da obra de Gauguin e curadora da exposição.

A mostra é centrada no quadro que evoca questões que perseguem as pessoas desde os primórdios, De Onde Viemos? Quem Somos? Aonde Vamos?. Em uma carta mandada à França pouco antes de uma tentativa frustrada de suicídio com arsênico, Gauguin escreveu: "Antes de morrer eu queria pintar uma grande tela que imaginei. Nunca vou fazer nada melhor ou igual". Paul Gauguin foi um próspero corretor da bolsa de valores, em Paris. A quebra da Union Generale, em 1882, levou seu emprego, trouxe-lhe a ruína financeira e o encaminhou para a vida de artista. A mulher desaprovou a conversão desde o início. Paul chegou a dividir com o amigo Vincent, irmão de seu marchand Theo van Gogh, o sonho de montar uma ateliê nos trópicos. Ambos acalentaram a idéia de fundar uma comunidade artística em um mundo selvagem e ideal, segundo a utópica visão do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau. Aos 43 anos, Gauguin finalmente decidiu "ser tranqüilo", livrar-se da influência da civilização. Abandonou a mulher, cinco filhos e a "Europa corrompida" pelo Taiti. Em 9 de junho de 1891, o tenente Junot testemunhou o desembarque do pintor em Papeete. O militar diz que a vistosa cabeleira que cobria os ombros de Gauguin, protegida pelo largo chapéu de caubói, chamou a atenção e provocou sussurros entre os indígenas, no cais do porto. Em O Paraíso na Outra Esquina, o peruano Vargas Llosa traça um paralelo entre a personalidade de Gauguin e a da avó Flora Tristán, uma militante socialista. Ele revela que os taitianos, à primeira vista, acreditaram que Gauguin fosse um mahu – homem-mulher, na língua maori. Os mahus sempre foram considerados uma variante legítima da diversidade humana.

O escritor americano Henry David Thoreau (1817-1862) sustentava a existência de continentes e mares também no mundo moral. O homem seria um istmo ou um braço de mar, ainda desconhecido por ele mesmo. A explorar seu oceano interior, o homem prefere percorrer milhares de quilômetros através de águas glaciais, enfrentar tempestades, conviver com canibais. Em resumo, a busca do paraíso perdido é sempre uma fuga. Não é surpresa, portanto, que, como Gauguin, os fugitivos de si mesmos acabem sempre encontrando a si próprios. A tragédia da família de Marlon Brando no paraíso do Papeete poderia ocorrer em qualquer periferia de metrópole. Em 1995, Cheyenne, a filha de Brando com a mulher nativa que ele conheceu nas filmagens de O Grande Motim, em 1962, enforcou-se como conseqüência de outra tragédia. Anos antes, seu namorado, Dag Drollet, havia sido morto por seu irmão, Christian Brando. O escritor Marcel Proust (1871-1922) resume a questão com genialidade: "Os verdadeiros paraísos são os paraísos que perdemos".

 
 
 
 
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