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Comportamento
O
mito do paraíso perdido
O
que Nicole Kidman, Marlon Brando e o
pintor Gauguin têm em comum? A busca
da felicidade em uma ilhota do Pacífico

Antônio Ribeiro, de Paris
Miramax/divulgação
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| Nicole
Kidman: namoro com Lenny Kravitz e fuga dos incômodos de ser
celebridade |
Só.
Sifilítico. O pintor Paul Gauguin morreu de ataque cardíaco,
em 8 de maio de 1903, entre garrafas de rum e ampolas de morfina,
em sua Casa do Prazer, no Arquipélago das Ilhas Marquesas.
Um ponto minúsculo no mapa, entre a linha do Equador e o
Trópico de Capricórnio, nas águas do Pacífico
Sul. Gauguin imaginou encontrar ali nativos vivendo em harmonia
com a natureza sob as bênçãos de divindades
tolerantes com todo tipo de transgressão sexual punida severamente
em seu tempo pela sociedade e pela religião na Europa. Sentir-se
intoxicado pelos excessos de estímulos da civilização
ocidental e sonhar com a vida simples em algum ponto remoto do planeta
é um impulso que muitos já tiveram algum dia. Poucos
o realizam. O pintor, cuja obra está sendo celebrada em uma
exposição em Paris, embarcou rumo ao Pacífico
em busca do paraíso terrestre. O ator Marlon Brando viveu
quase trinta anos em um atol da Polinésia Francesa. Nicole
Kidman, a ex-senhora Tom Cruise, às turras com os tablóides
e de namoro com o cantor Lenny Kravitz, revelou estar cogitando
interromper sua carreira por tempo indeterminado para morar no isolamento
das Ilhas Fiji.
O
escritor francês Jean Delumeau fez recentemente uma compilação
do mito do paraíso perdido, registrando sua permanência
na cultura ocidental desde que o livro bíblico do Gênesis
narrou a expulsão de Adão e Eva do Éden por
terem provado do fruto proibido. Delumeau chega até o Prozac,
a pílula da satisfação sensorial, procurada,
segundo ele, pelos aflitos como uma espécie de paraíso
químico legal. Seguindo exemplo de Jesus, os primeiros cristãos
se depuravam em longos períodos de oração no
deserto ou nas montanhas. Santo Antônio, criador do cristianismo
monástico no século IV, viveu a maior parte da vida
adulta isolado. Quase toda cultura, desde os gregos, tem em sua
literatura um herói que parte em busca da terra perfeita.
Em Horizonte Perdido, romance de James Hilton transformado
em filme por Frank Capra, o paraíso da vida e felicidade
eternas ficava em uma montanha no Tibete. Pois não é
que recentemente o governo chinês decidiu que os moradores
da montanha Zhongdian agora vivem em Xianggelia, a transliteração
do Shangri-lá da ficção de Hilton e Capra?
O objetivo das autoridades chinesas é atrair turistas.
O marco
centenário da busca de Paul Gauguin pelo paraíso terrestre
é a exposição monumental Gauguin
Taiti: o Atelier dos Trópicos, no Grand Palais, em Paris.
Os museus nacionais da França, o Museu d'Orsay e o Museu
de Fine Arts de Boston juntaram esforços para reunir, nesse
antigo pavilhão da Exposição Universal, inteiramente
renovado para a ocasião, cinqüenta pinturas, trinta
esculturas e sessenta obras gráficas do pós-impressionista
francês. O legado artístico de Paul Gauguin, ao lado
de obras de Cézanne e Van Gogh, é um dos precursores
da arte moderna. O conjunto exposto no Grand Palais, além
de retraçar, em cores fortes e formas simples, a busca do
selvagem e do primitivo como fonte de inspiração que
permeou toda a existência de Gauguin, testemunha o desejo
de um filho rebelde da Revolução Industrial de retardar
a cadência do tempo, imobilizá-lo ou mesmo fazê-lo
correr no sentido anti-horário o fantasma da utopia
social de reabilitar modos de vida autênticos de outrora que
rondou a Europa do século XIX. A experiência real do
que era até então só objeto de conversa nos
cafés de Paris. "Ele lançou-se em uma fuga para a
frente", disse a VEJA Claire Frèches-Thory, conservadora-chefe
do Museu d'Orsay, especialista da obra de Gauguin e curadora da
exposição.
A
mostra é centrada no quadro que evoca questões que
perseguem as pessoas desde os primórdios, De Onde Viemos?
Quem Somos? Aonde Vamos?. Em uma carta mandada à França
pouco antes de uma tentativa frustrada de suicídio com arsênico,
Gauguin escreveu: "Antes de morrer eu queria pintar uma grande tela
que imaginei. Nunca vou fazer nada melhor ou igual". Paul Gauguin
foi um próspero corretor da bolsa de valores, em Paris. A
quebra da Union Generale, em 1882, levou seu emprego, trouxe-lhe
a ruína financeira e o encaminhou para a vida de artista.
A mulher desaprovou a conversão desde o início. Paul
chegou a dividir com o amigo Vincent, irmão de seu marchand
Theo van Gogh, o sonho de montar uma ateliê nos trópicos.
Ambos acalentaram a idéia de fundar uma comunidade artística
em um mundo selvagem e ideal, segundo a utópica visão
do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau. Aos
43 anos, Gauguin finalmente decidiu "ser tranqüilo", livrar-se
da influência da civilização. Abandonou a mulher,
cinco filhos e a "Europa corrompida" pelo Taiti. Em 9 de junho de
1891, o tenente Junot testemunhou o desembarque do pintor em Papeete.
O militar diz que a vistosa cabeleira que cobria os ombros de Gauguin,
protegida pelo largo chapéu de caubói, chamou a atenção
e provocou sussurros entre os indígenas, no cais do porto.
Em O Paraíso na Outra Esquina, o peruano Vargas Llosa
traça um paralelo entre a personalidade de Gauguin e a da
avó Flora Tristán, uma militante socialista. Ele revela
que os taitianos, à primeira vista, acreditaram que Gauguin
fosse um mahu homem-mulher, na língua maori. Os mahus
sempre foram considerados uma variante legítima da diversidade
humana.
O
escritor americano Henry David Thoreau (1817-1862) sustentava a
existência de continentes e mares também no mundo moral.
O homem seria um istmo ou um braço de mar, ainda desconhecido
por ele mesmo. A explorar seu oceano interior, o homem prefere percorrer
milhares de quilômetros através de águas glaciais,
enfrentar tempestades, conviver com canibais. Em resumo, a busca
do paraíso perdido é sempre uma fuga. Não é
surpresa, portanto, que, como Gauguin, os fugitivos de si mesmos
acabem sempre encontrando a si próprios. A tragédia
da família de Marlon Brando no paraíso do Papeete
poderia ocorrer em qualquer periferia de metrópole. Em 1995,
Cheyenne, a filha de Brando com a mulher nativa que ele conheceu
nas filmagens de O Grande Motim, em 1962, enforcou-se como
conseqüência de outra tragédia. Anos antes, seu
namorado, Dag Drollet, havia sido morto por seu irmão, Christian
Brando. O escritor Marcel Proust (1871-1922) resume a questão
com genialidade: "Os verdadeiros paraísos são os paraísos
que perdemos".
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