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Comida
Poucos
e ótimos
Surpresa:
o foie gras e o manjericão tailandês
dos restaurantes estrelados são daqui mesmo

Sílvia Mascella
Liane Neves
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RICOTA
PARA UM
Aguinsky, da Confer: laticínios de ovelha feitos pela
empresa da família em Viamão (RS) são usados
na cozinha do rigoroso Fasano |
Ingrediente,
sabe bem quem cozinha, é tudo. Na hora de preparar o prato
perfeito, não há receita que não desande perante
um queijo mal curado, um peito de pato enrijecido ou um maço
de tomilho colhido tardiamente. No afã de garantir que suas
criações só contenham do bom e do melhor, chefs
conhecidos já cometeram loucuras é famosa a
saga do italiano Luciano Boseggia, que, quando comandava a cozinha
do renomado Fasano (hoje tem sua própria casa) e a importação
era difícil, trazia ele mesmo as trufas européias
para São Paulo. Boseggia entrava no avião com uma
cheirosíssima maleta térmica repleta da iguaria. Pouco
antes do pouso, ia ao banheiro, vestia um pesado casaco de inverno,
abria a maleta e espalhava seu conteúdo nos vários
bolsos; assim garantido, passava sem problemas pela alfândega.
A partir dos anos 90, as importadoras puderam trazer de tudo, e
as cozinhas dos restaurantes se encheram de raridades. Mas há
produtos que, além de caros, não sobrevivem à
travessia oceânica e aí se abriu o espaço
para alguns produtores nacionais darem um salto de qualidade. Resultado:
ilhas de excelência, geralmente negócios familiares
pequenos e muito bem-cuidados, oferecem hoje em dia manjericão
tailandês tão bom quanto o da Tailândia, carne
de carneiro capaz de competir com a da Nova Zelândia (país
onde a população ovina é maior que a humana),
foie gras, escargot e queijo de ovelha equiparáveis aos originais
franceses. "Atualmente, tanto para minha escola de culinária
quanto para o restaurante, só importo coisas muito específicas,
como trufas, caviar, açafrão e azeite", afirma o chef
francês Laurent Suaudeau, instalado no Brasil há mais
de vinte anos e entusiasta dos produtos nacionais.
Carol Quintanilha
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EM
BUSCA DA PLANTINHA PERFEITA
Orr, da Estufa JRO: de executivo para o cultivo de ervas finas
em Cerquilho, no interior de São Paulo |
Foie gras, por exemplo, o divino fígado gordo de ganso ou
pato, Suaudeau compra de dois produtores brasileiros. Um é
a Agrivert, pequena empresa do interior de São Paulo favorita
de todos os grandes chefs, que está com sua produção
totalmente comprometida até o fim do ano e não atende
nem ao telefone quando se trata de pedido novo. O outro é
a Villa Germania, de Santa Catarina, a maior produtora de patos
da América Latina. Quatro vezes por ano, a Villa Germania
importa da França patos de um dia da raça barbary.
Seu cruzamento com o pato de Pequim, nacional, produzirá
as aves que, confinadas e engordadas com uma ração
especialmente rica em grãos, resultarão em fígados
de alta qualidade. "Recentemente recebemos da escola de Laurent
um pedido de peças de foie gras de 600 gramas cada uma. É
o tamanho ideal para ensinar os alunos a retirar o nervo que fica
no meio da peça", conta Marcondes Aurélio Moser, diretor
da Villa Germania. A Selo Verde Agro Industrial, situada em Sapucaia,
no Rio de Janeiro, também cria patos, mas apenas para corte.
Como o nome indica, é adepta do natural: as aves não
ficam confinadas e sua alimentação não contém
hormônios nem antibióticos. "A carne é mais
vermelha e macia", elogia o italiano Francesco Carli, responsável
pela cozinha do restaurante Cipriani, do Hotel Copacabana Palace.
Carol Quintanilha
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FÍGADO
COM SABOR DA FRANÇA
Moser, da Villa Germania: foie gras produzido com matrizes importadas
e alimentação cuidadosa |
Foi também atendendo à necessidade particular de um
chef no caso, uma massa recheada criada por Salvatore Loi,
o sucessor de Boseggia no Fasano que a Confer Alimentos,
empresa familiar de Viamão, no Rio Grande do Sul, mobilizou
seu rebanho de ovelhas leiteiras da raça lacaune para desenvolver
uma ricota que chega a São Paulo dia sim, dia não,
sempre fresquíssima. "Só uma empresa pequena como
a nossa tem flexibilidade e qualidade para atender a encomendas
assim", explica Márcio Aguinsky, que toca a Confer com os
dois irmãos, o pai e a mãe. Em sua linha de laticínios
de ovelha figuram, entre outros, o personalíssimo queijo
grego tipo feta e o fascal, inspirado nos queijos envelhecidos da
Espanha.
Mais
delicada ainda é a atividade escolhida pelo carioca John
Derek Orr, 59 anos, proprietário da Estufa JRO em Cerquilho,
no interior de São Paulo, onde dezoito funcionários
cultivam plantinhas sensíveis como o manjericão tailandês,
de folha escura e picante, e o galangal, um parente do gengibre,
ambos imprescindíveis na cozinha tailandesa. "O mais demorado
é treinar as pessoas para colher a quantidade certa da planta,
deixando para o dia seguinte as que precisam se desenvolver mais
um pouco", diz Orr, gourmet e bem-sucedido empresário do
ramo de contêineres que, há sete anos, de tanto escutar
as queixas dos chefs sobre a falta de ervas frescas de qualidade
no mercado, largou tudo e foi cultivá-las. O mercado é
promissor. As ervas e verduras da Agrolink Nature, empresa de Hortolândia,
no interior de São Paulo, são exportadas para sete
países europeus, entre eles a França. "Nos sete meses
do ano que correspondem ao frio no Hemisfério Norte, enviamos
5 toneladas de ervas por semana para a Europa", comemora Jessé
Lerias, diretor da empresa.
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