Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Franquias
O poder das marcas
é a chave do negócio

As grandes redes ignoram os altos e baixos
da economia, continuam vendendo franquias
e as brasileiras se expandem no exterior


José Edward

Raul Junior
O Boticário: demanda por franquias em alta e faturamento de 1,3 bilhão de reais
DA INTERNET
Associação Brasileira de Franchising (ABF)
Instituto Franchising
Franquia Web


O sonho dos brasileiros de ter um negócio próprio faz o setor de franquias crescer muito mais rápido que a média da economia. Em 2002, mesmo com toda a crise, o mercado de franquias cresceu 12% – oito vezes mais que a economia como um todo. É esse avanço em meio à crise que explica o sorriso no rosto da maior parte dos franqueadores. O desempenho fez do Brasil o terceiro país do mundo em número de franquias, atrás apenas dos Estados Unidos e do Japão. O faturamento chegou a 28 bilhões de reais, o equivalente ao PIB do Paraguai. A aparente imunidade aos solavancos econômicos é resultado do espírito empreendedor de milhares de pessoas, do funcionalismo público e da iniciativa privada, que cansaram de ser empregados e buscaram uma marca conhecida para abrir um negócio e se tornar patrões. Os franqueadores fornecem toda a assistência técnica para abrir a empresa e rígidas regras de conduta. Apesar de a vida de franqueado estar longe de ser classificada como fácil, a demanda continua alta.

Uma característica da franquia no Brasil é a predominância de marcas genuinamente nacionais, que respondem por cerca de 90% das 650 redes em atuação no país. Das dez maiores franquias privadas, oito são brasileiras – como O Boticário, especializada em perfumaria e cosméticos, e a escola de idiomas Wizard. Em casos como o da Localiza, locadora de veículos, o sucesso no Brasil acabou pavimentando o caminho para a expansão internacional. Atualmente, dez grandes redes brasileiras somam cerca de 700 pontos-de-venda em países da América Latina, Europa, Ásia e Oriente Médio. O Boticário, a maior rede nacional, com faturamento de 1,3 bilhão de reais, tem 2.200 lojas e quiosques espalhados por cidades do Brasil, Portugal, Japão e de cinco países da América Latina. "No início, eu dava graças a Deus quando alguém se interessava em ser franqueado da rede. Agora, temos até de ser mais seletivos, pois não damos conta da demanda", diz o bioquímico Miguel Krigsner, diretor-presidente e um dos fundadores de O Boticário.


Divulgação
No Habib's, um programa tenta salvar os franqueados que estão mal financeiramente

Os donos da Localiza se orgulham ao contar a história dos seis Fusca de segunda mão que usaram para inaugurar a empresa em 1973 em Belo Horizonte. Nos anos 90, a maior locadora de veículos da América Latina investiu cerca de 6 milhões de dólares na internacionalização da marca. Na Argentina, focou em cidades do interior do país, desprezadas pelas grandes redes internacionais de aluguel de carros. Com as investidas no exterior, o faturamento da empresa acabou acompanhando a expansão. Nos últimos cinco anos, saltou de 223 milhões para 480 milhões de reais. Além da internacionalização, a Localiza aperfeiçoou o apoio aos franqueados. Apenas nos últimos cinco anos, investiu 12 milhões de reais em treinamento e workshops. O Habib's possui uma espécie de UTI com especialistas para franqueados em dificuldades. "Em quinze anos apenas uma das franquias da rede não sobreviveu", garante o presidente do Habib's, Alberto Saraiva. "Assim mesmo porque os sócios brigaram e não conseguimos reconciliá-los", completa.


Raul Junior
Salas de aula do Wizard: curso de idiomas com metodologia para todas as idades

Uma das vantagens das franquias estrangeiras no Brasil é que o sentimento antiamericano não se traduz em ações violentas ou de boicote. Em países muçulmanos e mesmo em algumas cidades da Europa, as vendas de redes dos Estados Unidos, como McDonald's e KFC, sofrem a pressão do choque de civilizações provocado pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Um simples hambúrguer é visto como o símbolo do imperialismo do Pentágono. A cada bombardeio no Iraque, o ódio de parte da população é direcionado às marcas americanas. Uma das raras exceções é a Indonésia, o país islâmico mais populoso do mundo. De acordo com uma pesquisa de opinião recente, 15% dos indonésios têm uma visão positiva dos Estados Unidos. Há três anos, o porcentual era de 75%. Apesar disso, as vendas da rede KFC aumentam 20% na Indonésia no período do Ramadã, o mês santo em que os muçulmanos se dedicam às orações e ao jejum durante o dia. Isso é assim porque os indonésios tendem a fazer a distinção entre o governo de George W. Bush e as empresas americanas.


No Brasil, os casos de insucesso de franquias e de donos de marca têm outras causas. A Pizza Hut fracassou em sua primeira tentativa de se expandir no Brasil. A estratégia não atingiu os objetivos, em parte, por causa da excessiva concentração em São Paulo. A rede chegou a ter 46 lojas em um perímetro que comportava no máximo trinta. Recentemente, a matriz americana da Pizza Hut retomou as rédeas da marca numa tentativa de melhorar a operação. "No caso da KFC, o problema foi a inadequação de seu principal produto ao público nacional – pedaços de frango frito para comer com as mãos", diz Marcelo Cherto, consultor do setor. A KFC está ensaiando uma volta ao mercado brasileiro com uma nova versão. O frango será servido em pratos e com talheres ou como sanduíche, acompanhado de batata frita. O McDonald's, a maior franquia mundial do ramo de alimentação, tem enfrentado problemas no Brasil. "A rede compra os terrenos, constrói a loja e subloca para os franqueados com um acréscimo no valor original do aluguel de até 500%", diz Janete Veloso, presidente da Associação de Franqueados Independentes do McDonald's. É esse grupo de 36 franqueados brasileiros que está brigando na Justiça para diminuir o valor do aluguel da marca.

 

 

 
 
 
 
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