Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Consumo
Nacional, mas importado

Antes de elogiar ou criticar o vinho
nacional que você escolheu, dê uma
boa olhada no rótulo. Ele pode ser
argentino ou uruguaio


Fernanda Medeiros


J. Miranda
DOS ARQUIVOS DE VEJA
O que aprendi no curso de vinho
A vitória dos bons e baratos
O sucesso dos argentinos
O ranking dos vinhos nacionais
Vinhos italianos
Os vinhos franceses
Como estocar vinho
Vinhos chilenos
Os vinhos brasileiros


Nas contas da União Brasileira de Vitivinicultura, a venda de vinhos brasileiros aumentou 20% nos últimos cinco anos. Como nem todos os produtores estavam preparados para atender a esse crescimento do consumo, que passou dos 250 milhões de litros no ano passado, a saída encontrada por alguns foi comprar vinho da Argentina e do Uruguai para matar a sede dos brasileiros – mas com rótulos nacionais. A indicação da verdadeira origem é mais visível em algumas garrafas, menos em outras. Trata-se de uma troca em que nem sempre o consumidor sai ganhando. Apesar da fama internacional recentemente celebrada, com a produção de algumas safras excepcionais, o vinho argentino não tem qualidade superior à do que se produz no Brasil em todas as suas variedades. No caso da importação do Uruguai, a desconfiança é ainda maior. "Esse tipo de compra equivale a importar jogadores de futebol da Venezuela", compara o presidente da regional paulista da Associação Brasileira de Sommeliers, José Luiz Alvim Borges.

Pelo menos em um aspecto, trazer vinho do exterior e rotulá-lo com uma marca nacional tem uma vantagem para quem vai bebê-lo: evita-se a baixa nos estoques e o conseqüente aumento de preço. O grupo Pernod-Ricard, produtor dos vinhos Forestier e Almadén, trouxe vinhos da Argentina em 1999, mas, diante de novo aumento da demanda, optou por praticamente dobrar o preço de suas garrafas. "Com isso estamos vendendo menos, mas ganhando mais dinheiro, sem precisar fazer compras no mercado externo", diz Gustavo Zerbini, gerente do grupo. Outro grande produtor, a Vinícola Aurora, decidiu manter as importações e evidenciar no rótulo a origem uruguaia – indício de que se orgulha da qualidade. "Nossos técnicos acharam vinícolas no Uruguai capazes de fazer um cabernet sauvignon parecido com o nosso", afirma Carlos Zanotto, diretor comercial da companhia. Neste ano, 700.000 garrafas da Aurora vieram do país vizinho. Para essa empreitada, a vinícola montou uma estrutura própria além da fronteira, em parceria com 25 produtores uruguaios. As garrafas e os rótulos saem do Brasil. Uma empresa local faz os lacres e as caixas de papelão. As rolhas vêm de Portugal. Tudo para evitar desastres como o de 1996, quando, segundo Zanotto, a companhia perdeu um contrato de exportação de 1 milhão de caixas para os Estados Unidos por falta de capacidade de produção.

Um detalhe que estimula essas importações é o baixo custo da matéria-prima em países vizinhos. O quilo da uva cabernet sauvignon custa 1,40 real no Brasil e 90 centavos no Uruguai. Segundo Pedro Abar, diretor da empresa Product Audit, que estuda o mercado de bebidas, a inexistência do imposto de importação no Mercosul é outro ponto a favor desse comércio. Existem operações semelhantes com vários outros tipos de bebida em todo o mundo – como a importação de malte escocês para fazer uísque em outros países, mas nem todos os fabricantes de vinho gostam de alardear essa situação. Em 1998, a Casa Vinícola De Lantier importou da Argentina 30 000 caixas e avisou seus consumidores por meio de letrinhas miúdas. "Claro que não era o mesmo vinho produzido no Brasil, mas procuramos alternativas que se assemelhassem", afirma Cleber Andrade, enólogo da companhia. "Numa safra desastrosa, o que devemos fazer? Ter prejuízo?"

 
 
 
 
topo voltar