Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Divórcio
A vida começa aos 60

Cada vez mais brasileiros se divorciam
e refazem a vida na terceira idade


Carol Quintanilha
José, 75 anos: academia e separação após os 60


Os brasileiros com 60 anos ou mais são os que mais aderem ao clube dos descasados. Em cinco anos, o número de pessoas nessa faixa de idade que se divorciaram ou se separaram judicialmente de seus parceiros subiu 51%. No total da população, o aumento foi de apenas 13%. Ou seja, em nenhum outro grupo os índices de separação crescem tanto. Os especialistas são unânimes em apontar como principal motivo para esse fenômeno a elevação na expectativa de vida, que hoje é 35% mais alta do que há cinqüenta anos. Naquela época, não era comum alguém na casa dos 60 anos mudar radicalmente de vida ou fazer planos para o futuro. Isso mudou. Voltar a estudar, fazer esportes e até namorar são atividades plenamente aceitáveis para quem está na terceira idade. Antes, poucas pessoas achavam que valia a pena se separar na terceira idade. Agora, existe a idéia de que ainda se pode fazer muita coisa depois dos 60 anos.

É o caso de José Agostinho Valente, de 75 anos, que se separou com 62 anos e casou-se dois anos depois com uma mulher quinze anos mais nova. "Só porque você tem mais de 60 anos não significa que deve deixar de buscar a felicidade ou de esperar algo mais da vida", diz José, que nunca parou de trabalhar e freqüenta a academia três vezes por semana. Um estudo recente da agência de pesquisas Indicator GfK mostra que 44% dos idosos brasileiros têm postura parecida com a de José. Eles são independentes, ativos e felizes com a vida que levam. Isso vale para homens e mulheres. Elas, no entanto, quando se separam ou ficam viúvas, têm maior dificuldade para encontrar um novo parceiro. Segundo dados do IBGE, de cada quatro pessoas que se casam com mais de 60 anos, apenas uma é mulher. Pouco mais de 70% dos homens nessa situação desposam mulheres que têm menos de 60 anos. Entre as mulheres idosas, o índice das que se casam com homens mais jovens é de apenas 18%. "Por outro lado, o homem tem mais dificuldade de cuidar de si mesmo. Por isso, se não refaz sua vida amorosa, pode sofrer mais", diz a psicóloga Laura Mello Machado, do Instituto de Gerontologia da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro.

As mulheres fazem excursões com as amigas, entram na universidade da terceira idade, fazem cursos. Para muitas delas, o divórcio representa uma libertação. Terezinha Ferreira da Costa, de 65 anos, finalizou o divórcio há cerca de um mês, mas o processo de separação começou há dez anos. No começo, ela relutou em terminar um casamento de quase trinta anos. Há quatro anos entrou na universidade da terceira idade. "Sou mais feliz agora do que quando era casada", diz Terezinha. O fato de os filhos já serem adultos torna mais fácil a decisão de se separar. "Às vezes, depois que os filhos saem de casa, o casal deixa de ter objetivos comuns para a vida", diz o psicólogo Ari Rehfeld, da Pontifícia Universidade Católica. Isso, para uma relação saudável, significa o fim. Outro fator de desequilíbrio para um relacionamento de longo tempo é a sexualidade. Nos últimos anos, com o surgimento das pílulas contra a impotência, muitos homens voltaram a assumir um papel que já tinha sido abandonado. Isso pode dar ânimo novo a um casamento. Mas nem sempre a mulher está disposta a voltar a incluir a sexualidade no relacionamento.

 
 
 
 
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