Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Religião
Elas querem viver cobertas

Jovens muçulmanas criadas na Europa
lutam para usar o véu nas salas de aula



AFP
As irmãs francesas Alma e Lila: expulsas da escola por causa do véu

A última vez que um pedaço de pano causou tanta polêmica na Europa foi há cinco décadas – quando dois costureiros franceses inventaram o biquíni. Desta vez, o pivô da controvérsia é o hijab, o véu com o qual as muçulmanas devotas cobrem o cabelo. Na França, duas adolescentes foram expulsas de uma escola secundária, no mês passado, por se recusar a tirar o véu durante as aulas. Dias depois, na Alemanha, uma professora primária de 31 anos ganhou uma batalha de cinco anos na Justiça para ter o direito de lecionar numa escola pública com o hijab. Nos dois casos, as autoridades alegaram que o uso do véu fere o princípio da rigorosa separação entre o Estado e a religião. Na maioria dos países europeus, símbolos religiosos são proibidos em instituições públicas.

AP
A professora Fereshta Ludin: luta na Justiça para manter a cabeça coberta


O surpreendente é ver jovens nascidas e criadas na Europa insistir no uso do hijab, um símbolo da submissão feminina na sociedade islâmica. As irmãs Lila Levy-Omari, de 18 anos, e Alma, de 16, preferiram abandonar a escola onde estudavam, na periferia de Paris, a tirar o véu. A decisão seria digerida com naturalidade se a devoção a Alá e o respeito ao rígido código de costumes muçulmano fossem uma herança de família. Acontece que o pai das duas jovens é judeu e a mãe, católica nascida na Argélia. Recém-convertidas, Lila e Alma passaram a usar o véu apenas neste ano. A mesma determinação levou a professora alemã Fereshta Ludin, nascida no Afeganistão numa família de classe média, a desafiar o governo da Alemanha. Impedida de dar aula numa escola pública usando véu, ela pediu demissão e foi à Justiça. Uma corte de apelação decidiu a seu favor, alegando que não há lei que proíba uma professora de lecionar com a cabeça coberta.

Para as mulheres européias que adotaram o biquíni e queimaram sutiãs em praça pública para demarcar sua independência, essa cruzada islâmica não faz sentido. Uma explicação para o apego à tradição é o que os especialistas chamam de fenômeno de segunda geração – pelo qual os filhos de imigrantes seguem o Islã com mais fervor que os pais. São jovens nascidas e criadas na Europa, mas que se sentem discriminadas. Para elas, o Islã é um símbolo de identidade étnica e cultural. Os atentados de 11 de setembro ajudaram a isolá-las ainda mais. O risco representado pelo fundamentalismo islâmico levou vários países europeus a tentar enquadrar com fervor nunca visto os muçulmanos nos princípios seculares. A França, que abriga 5 milhões de muçulmanos, a mais numerosa comunidade do continente, lançou-se neste ano numa empreitada para "integrá-los" à cultura francesa. O plano é dar ao Estado a missão de supervisionar a formação de clérigos e incentivar os muçulmanos a adotar os princípios laicos da sociedade francesa.

 
 
 
 
topo voltar