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Turquia
O
mal do século
Há
momentos na trajetória da humanidade que representam reviravoltas
históricas. São acontecimentos cuja repercussão
torna pálidos eventos menores e cria um novo centro de gravidade
para definir toda uma era. Neste momento, infelizmente, o que se
tem para representar a primeira década do século XXI
é uma sombra: o terrorismo sem fronteiras personificado na
figura hirsuta de Osama bin Laden. O pesadelo é, em larga
medida, inesperado. Antes que o mundo fosse colocado de cabeça
para baixo em 11 de setembro de 2001, vivia-se uma época
de esperanças e otimismo de bases concretas.
AFP
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Reuters
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| Vítima
do atentado em Istambul (à dir.) e o saudita Osama
bin Laden: capacidade de atacar em vários locais ao mesmo
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O fim
da Guerra Fria tinha afastado a ameaça do aniquilamento nuclear,
e a expansão do comércio prometia o enriquecimento
global e um entendimento cada vez maior entre as nações.
Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, o pesquisador americano
Francis Fukuyama chegou a proclamar que o "fim da história"
havia chegado. O mundo, sustentava Fukuyama, não mais se
debateria com eventos políticos poderosos o suficiente para
mudar por completo sua estrutura. A democracia liberal e sua base
material de sustentação, a economia de mercado, tinham
vencido. Talvez a história acabe por lhe dar razão
algum dia. No momento, contudo, o que atormenta os analistas é
como adaptar os conceitos de inegável progresso aos atritos
provocados pela globalização e, sobretudo, ao turbilhão
criado pelo novo protagonista, o terror de inspiração
islâmica.
O
que se vê é o recrudescimento terrorista, e não
sua diminuição, apesar de os Estados Unidos terem
usado suas Forças Armadas para atacar dois países
que davam guarida ao radicalismo árabe e islâmico,
o Iraque e o Afeganistão. Desde os ataques de 2001, estima-se
que duas dezenas de grandes atentados estejam diretamente vinculadas
à Al Qaeda, a organização de Bin Laden
e não se estão colocando na conta os ataques diários
realizados contra os americanos e seus aliados no Iraque e no Afeganistão.
A sofisticação e a rapidez dos atos de violência
estão em espiral crescente. Na quinta-feira passada, carros-bombas
explodiram na agência central do banco inglês HSBC em
Istambul, a maior cidade da Turquia. Minutos depois, outra explosão
pôs abaixo parte do prédio que abrigava o consulado
inglês. Morreram pelo menos 27 pessoas. Esses ataques aconteceram
poucos dias depois de terroristas suicidas explodirem diante de
duas sinagogas de Istambul, matando 25 pessoas.
Arrepia
tal demonstração de poder: é difícil
identificar outra organização capaz de coordenar quatro
grandes atentados em apenas uma semana. Os ataques na Turquia ajudam
a estabelecer um novo padrão de violência. Nos últimos
vinte meses, o fanatismo promoveu barbaridades na Indonésia,
no Paquistão, no Marrocos, na Arábia Saudita e agora
na Turquia todos países de maioria muçulmana.
O que significa? Note-se que quase sempre os alvos eram cidadãos
de países ocidentais e os judeus, mas a matança de
muçulmanos foi considerável. O francês Olivier
Roy, do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Paris,
vem estudando os atentados que parecem não ter uma razão
específica. Ele cita como exemplo o ataque de maio em Casablanca,
no Marrocos, no qual quarenta pessoas foram mortas e mais de 100
ficaram feridas na maioria marroquinos que passavam pelo
local. Sua conclusão: "O alvo era secundário; a intenção,
ali, era chamar a atenção e espalhar o medo".
O
estudo de Roy dimensiona a dificuldade de combater um inimigo cuja
estratégia desafia a lógica dos movimentos revolucionários
armados e cujo objetivo pode ser mensurado por suas ações
e reivindicações. O filósofo marroquino Mohammed
Abed al-Jabri, um dos mais importantes do mundo árabe, diz
que não há o que negociar com os terroristas nem forma
alguma de entrar em conciliação com eles, pois o "fundamentalismo
(islâmico) se propõe a reconstruir o presente a partir
do modelo de um passado tal como poderia ter sido". Ou seja, seu
objetivo é uma fantasia, e não pode ser obtido no
mundo real. Isso faz com que o terrorismo islâmico não
caiba nas racionalizações clássicas dos conflitos
armados. Sua sobrevivência depende totalmente da persistência
de suas atrocidades e por isso só vai desaparecer
quando for aniquilado militarmente. "Não estamos mais diante
de uma guerra convencional, que pode ser vencida no campo de batalha
em semanas ou meses", disse a VEJA o especialista Bruce Hoffman,
autor do livro Inside Terrorism (Por Dentro do Terrorismo).
O
que dificulta o combate é que, depois da destruição
de seu santuário no Afeganistão, o comando centralizado
de Bin Laden deu lugar a uma estrutura horizontal, formada por células
e grupos menores. Numa analogia com o mundo dos negócios,
pode-se dizer que a Al Qaeda criou uma rede global de franqueados.
Esse sistema capilar tira proveito do nome, da ideologia e da experiência
da organização-mãe. Também recebe dinheiro,
informações e meios para os ataques. Mas cada grupo
tem considerável autonomia para tomar iniciativas nos atos
terroristas que pratica. A facilidade para obter voluntários
para a Jihad, a guerra santa islâmica, explica, em parte,
os atentados freqüentes nos países muçulmanos.
Pelo menos 20.000 pessoas de 47 países
passaram pelos campos de treinamento mantidos por Bin Laden no Afeganistão
nos anos 90. De volta a seus lugares de origem, levaram a mensagem
e o estilo de seu mentor. O americano Paul Pillar, um analista da
CIA citado pelo jornal The Washington Post, diz que a principal
contribuição de Bin Laden na expansão do terrorismo
foi colocá-lo "na perspectiva do antiamericanismo". Essa
é uma mensagem fácil de ser entendida, tem raízes
profundas entre os ressentidos do Terceiro Mundo e até encontra
certa solidariedade espúria entre esquerdistas europeus.
O terrorismo é o mal deste início de século.
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