Edição 1830 . 26 de novembro de 2003

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Turquia
O mal do século

Há momentos na trajetória da humanidade que representam reviravoltas históricas. São acontecimentos cuja repercussão torna pálidos eventos menores e cria um novo centro de gravidade para definir toda uma era. Neste momento, infelizmente, o que se tem para representar a primeira década do século XXI é uma sombra: o terrorismo sem fronteiras personificado na figura hirsuta de Osama bin Laden. O pesadelo é, em larga medida, inesperado. Antes que o mundo fosse colocado de cabeça para baixo em 11 de setembro de 2001, vivia-se uma época de esperanças e otimismo de bases concretas.


AFP
Reuters
Vítima do atentado em Istambul (à dir.) e o saudita Osama bin Laden: capacidade de atacar em vários locais ao mesmo tempo

Em Profundidade: Terrorismo internacional

O fim da Guerra Fria tinha afastado a ameaça do aniquilamento nuclear, e a expansão do comércio prometia o enriquecimento global e um entendimento cada vez maior entre as nações. Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, o pesquisador americano Francis Fukuyama chegou a proclamar que o "fim da história" havia chegado. O mundo, sustentava Fukuyama, não mais se debateria com eventos políticos poderosos o suficiente para mudar por completo sua estrutura. A democracia liberal e sua base material de sustentação, a economia de mercado, tinham vencido. Talvez a história acabe por lhe dar razão algum dia. No momento, contudo, o que atormenta os analistas é como adaptar os conceitos de inegável progresso aos atritos provocados pela globalização e, sobretudo, ao turbilhão criado pelo novo protagonista, o terror de inspiração islâmica.

O que se vê é o recrudescimento terrorista, e não sua diminuição, apesar de os Estados Unidos terem usado suas Forças Armadas para atacar dois países que davam guarida ao radicalismo árabe e islâmico, o Iraque e o Afeganistão. Desde os ataques de 2001, estima-se que duas dezenas de grandes atentados estejam diretamente vinculadas à Al Qaeda, a organização de Bin Laden – e não se estão colocando na conta os ataques diários realizados contra os americanos e seus aliados no Iraque e no Afeganistão. A sofisticação e a rapidez dos atos de violência estão em espiral crescente. Na quinta-feira passada, carros-bombas explodiram na agência central do banco inglês HSBC em Istambul, a maior cidade da Turquia. Minutos depois, outra explosão pôs abaixo parte do prédio que abrigava o consulado inglês. Morreram pelo menos 27 pessoas. Esses ataques aconteceram poucos dias depois de terroristas suicidas explodirem diante de duas sinagogas de Istambul, matando 25 pessoas.

Arrepia tal demonstração de poder: é difícil identificar outra organização capaz de coordenar quatro grandes atentados em apenas uma semana. Os ataques na Turquia ajudam a estabelecer um novo padrão de violência. Nos últimos vinte meses, o fanatismo promoveu barbaridades na Indonésia, no Paquistão, no Marrocos, na Arábia Saudita e agora na Turquia – todos países de maioria muçulmana. O que significa? Note-se que quase sempre os alvos eram cidadãos de países ocidentais e os judeus, mas a matança de muçulmanos foi considerável. O francês Olivier Roy, do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Paris, vem estudando os atentados que parecem não ter uma razão específica. Ele cita como exemplo o ataque de maio em Casablanca, no Marrocos, no qual quarenta pessoas foram mortas e mais de 100 ficaram feridas – na maioria marroquinos que passavam pelo local. Sua conclusão: "O alvo era secundário; a intenção, ali, era chamar a atenção e espalhar o medo".

O estudo de Roy dimensiona a dificuldade de combater um inimigo cuja estratégia desafia a lógica dos movimentos revolucionários armados e cujo objetivo pode ser mensurado por suas ações e reivindicações. O filósofo marroquino Mohammed Abed al-Jabri, um dos mais importantes do mundo árabe, diz que não há o que negociar com os terroristas nem forma alguma de entrar em conciliação com eles, pois o "fundamentalismo (islâmico) se propõe a reconstruir o presente a partir do modelo de um passado tal como poderia ter sido". Ou seja, seu objetivo é uma fantasia, e não pode ser obtido no mundo real. Isso faz com que o terrorismo islâmico não caiba nas racionalizações clássicas dos conflitos armados. Sua sobrevivência depende totalmente da persistência de suas atrocidades – e por isso só vai desaparecer quando for aniquilado militarmente. "Não estamos mais diante de uma guerra convencional, que pode ser vencida no campo de batalha em semanas ou meses", disse a VEJA o especialista Bruce Hoffman, autor do livro Inside Terrorism (Por Dentro do Terrorismo).

O que dificulta o combate é que, depois da destruição de seu santuário no Afeganistão, o comando centralizado de Bin Laden deu lugar a uma estrutura horizontal, formada por células e grupos menores. Numa analogia com o mundo dos negócios, pode-se dizer que a Al Qaeda criou uma rede global de franqueados. Esse sistema capilar tira proveito do nome, da ideologia e da experiência da organização-mãe. Também recebe dinheiro, informações e meios para os ataques. Mas cada grupo tem considerável autonomia para tomar iniciativas nos atos terroristas que pratica. A facilidade para obter voluntários para a Jihad, a guerra santa islâmica, explica, em parte, os atentados freqüentes nos países muçulmanos. Pelo menos 20.000 pessoas de 47 países passaram pelos campos de treinamento mantidos por Bin Laden no Afeganistão nos anos 90. De volta a seus lugares de origem, levaram a mensagem e o estilo de seu mentor. O americano Paul Pillar, um analista da CIA citado pelo jornal The Washington Post, diz que a principal contribuição de Bin Laden na expansão do terrorismo foi colocá-lo "na perspectiva do antiamericanismo". Essa é uma mensagem fácil de ser entendida, tem raízes profundas entre os ressentidos do Terceiro Mundo e até encontra certa solidariedade espúria entre esquerdistas europeus. O terrorismo é o mal deste início de século.




 

 
 
 
 
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