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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
O mito do apartheid
digital
"A tecnologia
da informação começa
a ser o
caminho mais econômico para o estudante pobre,
que não tem dinheiro para comprar livro, e
por isso procura ler na tela do computador"
Quando falamos da "brecha digital", separando
os pobres dos ricos, é preciso cautela para não generalizar.
Há logo um contra-exemplo. Na telefonia é o contrário.
O rico tem telefone fixo, que é analógico. O pobre
tem o celular, que é digital.
Mas está aparecendo outra inversão
que, além de surpreender, é crítica para o
futuro da educação. Visitei um curso de tecnólogo
em administração na periferia de São Paulo.
Dificilmente se encontraria no Brasil um curso superior cuja clientela
tenha uma origem social mais modesta.
Em uma sala de aula, com mais de trinta alunos,
perguntei quantos não tinham acesso a computador, fosse em
casa ou no trabalho. A resposta surpreendeu, pois apenas um não
tinha.
Ilustração Ale Setti
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Discutindo a resposta, os estudantes enfaticamente mencionaram sua
importância. Insisti na pergunta: por que o computador seria
tão importante? A nova resposta foi ainda mais inesperada.
Afirmaram que o computador era vital, pois, sendo eles muito pobres,
não podiam comprar livros. As obras requeridas para fazer
o curso estavam acima de sua capacidade financeira. Se tirassem
cópias dos capítulos que necessitam, fariam alguma
economia, mas não tanta.
Em outras palavras, com a disponibilidade
crescente de leituras na internet ou em bibliotecas virtuais, o
computador está se tornando uma forma de acesso mais viável
do que os materiais impressos (além de ter outros usos).
Note-se que, segundo o Exame Nacional de Avaliação
de Desempenho dos Estudantes (Enade), 92% dos alunos do ensino superior
têm acesso a computador (mas só dois terços
o possuem).
Os estudantes de maiores posses compram livros
e podem tirar fotocópias. Mas os mais modestos não
podem se permitir tais luxos. Se tiverem acesso a impressoras, poderão
imprimir o que encontram na internet. Entretanto, os cartuchos das
impressoras são caros, e eles acabarão gastando o
mesmo que em livros ou xerox. Portanto, a solução
mais econômica é ler na tela do monitor.
Cada vez mais, torna-se possível encontrar
no mundo labiríntico da internet leituras requeridas nos
cursos superiores com menor risco de chafurdar e se perder na babel
de informações pouco filtradas e de qualidade duvidosa.
Do lado do papel, há um círculo
vicioso. Os livros do ensino superior têm tiragens limitadas.
Pior: alguns são enormes, grandes demais para ser estudados
de ponta a ponta. Por tais razões, os livros são caros.
Sendo caros, poucos os compram nem sequer as bibliotecas
possuem recursos para escapar da mediocridade de seus acervos e
oferecer um número suficiente de exemplares.
E não há mais de um exemplar
na biblioteca dos artigos de periódicos indicados na bibliografia.
A solução é a cópia do artigo pelo aluno.
Mas é caro. E, para evitar pecados contra os direitos de
propriedade intelectual, o leitor tem de ser o próprio copista.
Para os que podem, o papel é o luxo
de consumo. Para os que só conseguem acesso a um computador,
a solução digital é a mais barata. É
a nova brecha, deixando o rico com a solução analógica
(papel) e o pobre com a digital. Espontaneamente, a tecnologia da
informação começa a ser o caminho mais econômico.
Pobre tem de ler na tela. Muitos não acham confortável.
Mas é como o transporte coletivo: chega lá, embora
seja menos conveniente.
Haveria como baratear os livros. O governo
poderia subsidiar sua compra ou negociar preços melhores.
Mas, na prática, nem os livros do ensino médio são
oferecidos pelo Estado.
Alunos de faculdade, se têm recursos,
gastam por ano o mesmo que custa um computador usado (entre 500
e 800 reais). Portanto, uma linha mais imediata e promissora é
barateá-los ainda mais, diante do novo desafio da eqüidade.
A nova brecha digital é entre os menos ricos que têm
computador e os que não o têm. Os mais ricos não
precisam de computador, pois podem comprar livros.
Mas talvez a providência mais urgente
seja dar acesso aos estudantes às versões digitais
de tudo o que precisam ler na faculdade. Hoje se compra na internet,
baratinho, música para o iPod. Por que não se podem
comprar, também baratinho, capítulos dos livros indicados?
Claudio de Moura Castro
é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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