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André
Petry Devaneio das togas "Maluf
e seu filho foram soltos porque o ministro Carlos Velloso, do STF, ficou
com pena do ex-prefeito. Não é piada. É verdade"
No Brasil, país onde o presidente
da República é contra a reeleição e vive em campanha
reeleitoral, ocorrem coisas que nem a jabuticaba explica. Por exemplo:
No fim de setembro, escreveu-se neste mesmo espaço a seguinte frase: "Paulo
Maluf e seu filho Flávio estão presos, mas não por muito
tempo". Na quinta-feira passada, os dois foram soltos. Ficaram 41 dias presos.
Era óbvio. A previsão não tinha nada de sofisticado. Afinal,
ninguém desconhece que cadeia no Brasil é coisa destinada para abrigar
pretos e pobres, sendo praticamente vetada para brancos abastados. A realidade,
no entanto, conseguiu ser ainda mais vexatória que as previsões
tradicionais: Paulo Maluf e seu filho foram libertados porque o ministro Carlos
Velloso, do Supremo Tribunal Federal, ficou com pena do ex-prefeito. Não
é piada. É verdade. Ao relatar o caso, o ministro Velloso aceitou
a tese de que Flávio Maluf foi preso de forma ilegal e, horas depois, resolveu
estender sua decisão ao ex-prefeito. A explicação do ministro:
"Imagino o sofrimento de um pai preso na mesma cela que um filho. Isso me sensibiliza".
É uma excelente notícia
descobrir que um membro da mais alta corte brasileira, em vez de comportar-se
como um carrasco implacável, carrega no peito um coração
generoso e sensível. Acontece que, por trás da decisão do
ministro, referendada pela maioria de seus colegas, não existem só
belos sentimentos humanos: o ministro Velloso entendeu que, para beneficiar pai
e filho, deveria ignorar uma norma definida pelo próprio Supremo Tribunal
Federal há dois anos. A norma diz que o tribunal não analisa pedidos
de habeas corpus que tenham sido julgados apenas em caráter liminar pela
instância inferior. Era o caso do habeas corpus dos Maluf. Isso significa
que, se a norma do STF fosse respeitada, o STF não poderia ter examinado
o assunto e, assim, os Maluf permaneceriam presos.
A pergunta óbvia é: em princípio, um ministro não
deve ignorar uma norma para beneficiar quem quer que seja, mas alguém já
viu um ministro fazer isso para beneficiar réu preto e pobre?
O espanto provocado pelo comportamento do ministro Carlos Velloso talvez só
seja menor diante da desenvoltura autoritária do ministro Nelson Jobim,
presidente do STF. No dia anterior à libertação dos Maluf,
Nelson Jobim comandou a sessão em que se julgou ação proposta
pelo ex-ministro José Dirceu. Jobim era abertamente a favor de aceitar
a alegação de José Dirceu e mandar o Congresso Nacional suspender
seu processo de cassação. Dirceu alegava que não podia perder
o mandato de deputado porque na época do mensalão ele era ministro...
Jobim era tão a favor da cascata de Dirceu que chegou a cabalar votos nos
bastidores e, durante a sessão de julgamento, comportou-se como um coronel
em reunião de senzala: intimidou colegas, questionou um, provocou outro,
fez muxoxo ao ouvir o que não queria... Um espetáculo. Um show.
Mas, por sorte e por sensatez, o STF decidiu que Dirceu pode, sim, ser punido
como deputado por aquilo que fez como ministro.
A pergunta óbvia é: Jobim não deveria julgar-se impedido
de analisar uma ação proposta por seu amigão José
Dirceu? Tem coisas que nem a jabuticaba
explica. |