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Edição 1 719 - 26 de setembro de 2001
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Um mergulho no islamismo

Sugestões para quem quer conhecer
melhor as crenças e os costumes do
mundo muçulmano


Ilustração de um manuscrito do século XIII, que mostra uma típica biblioteca medieval em Bagdá

 

LIVROS

O Oriente Médio, de Bernard Lewis (tradução de Ruy Jungmann; Jorge Zahar Editor; 389 páginas; 49,50 reais) – Síntese que cobre 2.000 anos, um livro desse quilate só poderia ter sido escrito por um acadêmico como o inglês Bernard Lewis, um dos mais respeitados estudiosos da história do Oriente Médio. De acordo com Lewis, quatro processos sucessivos moldaram a região: a helenização, a romanização, a cristianização e, finalmente, a islamização. À medida que percorre cada um desses períodos, Lewis acumula evidências para uma tese forte: a de que, de todas as civilizações medievais, a islâmica era a que apresentava a maior promessa de avançar em direção à modernidade. A promessa, entretanto, não se realizou – e explorar os motivos disso é o grande objetivo do livro. Na parte mais substancial de sua obra, Lewis retrata as sociedades muçulmanas do Oriente Médio em todos os seus aspectos. Destaca as diferentes contribuições de árabes, persas e turcos. E, em seus capítulos finais, que avançam até meados da década de 1990, aborda com grande lucidez os dilemas modernos do relacionamento entre o Ocidente e o mundo muçulmano.

Uma História dos Povos Árabes, de Albert Hourani (tradução de Marcos Santarrita; Companhia das Letras; 523 páginas; 39,50 reais) – Professor da Universidade de Oxford, o inglês Albert Hourani concluiu esse livro um ano antes de morrer, em 1992. A obra tece um painel revelador de treze séculos de história dos povos islâmicos de língua árabe, de Maomé até o presente. Ocupa um lugar de honra na biblioteca dos orientalistas, mas é uma leitura igualmente prazerosa para os leigos. Hourani escreve história à moda clássica. Narra e interpreta os principais eventos e traça perfis dos personagens célebres. Manipula um impressionante volume de informações, dos manuscritos antigos às estatísticas modernas. Apesar da ênfase nas questões políticas e econômicas, contudo, Hourani reserva espaço para incursões freqüentes em campos como o da poesia, da arquitetura, da filosofia e da música. Alentado, rico em detalhes, o livro pede para ser lido devagar e proporciona uma verdadeira imersão no universo árabe muçulmano.

 


Ulf Andersen

V.S. Naipaul: visão ácida das sociedades islâmicas


Entre os Fiéis
(tradução de Cid Knipel Moreira; Companhia das Letras; 544 páginas; 39,50 reais) e Além da Fé (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 549 páginas; 39,50 reais), de V.S. Naipaul – Filho de indianos, nascido no Caribe e educado na Inglaterra, o escritor V.S. Naipaul volta seu olhar, nesses dois livros, para a cultura muçulmana. Ambos são relatos de suas viagens a países que professam a religião islâmica, narrados com agudo senso crítico – e a técnica impecável de sempre. Entre os Fiéis, baseado na primeira jornada do autor, no fim dos anos 70, traz uma visão um tanto pessimista. A conclusão a que ele chega no livro é que tais sociedades comungariam um traço comum: a obsessão por um ideal de pureza religiosa que reverte em ódio e ressentimento contra o Ocidente. Em Além da Fé, escrito já nos anos 90, Naipaul aprofunda sua análise e defende a tese de que o islamismo seria, em sua essência, uma religião imperialista. Em decorrência disso, de acordo com ele, as sociedades convertidas à crença seriam sempre obrigadas a apagar traços de seu passado "infiel", num processo doloroso e desorientador. Todas essas idéias são, evidentemente, polêmicas – mas Naipaul as defende com inegável brilhantismo.

Islam in the World, de Malise Ruthven (Penguin; 472 páginas; 42,76 reais) – O irlandês Malise Ruthven fez bom uso de seu treinamento duplo, como jornalista e historiador universitário das religiões, nessa obra de apresentação do Islã. Seu texto mistura impressões colhidas em viagens por países do Oriente com discussões bastante densas das crenças, práticas e instituições muçulmanas. O capítulo chamado "A visão de mundo do Corão" é exemplar da maneira ampla e inteligente como o autor aborda seus temas: a discussão cobre dos aspectos éticos e religiosos do livro sagrado dos islâmicos às questões de estilo literário e de linguagem. Lançado originalmente em 1984, o livro recebeu uma segunda edição ampliada em 2000. Num longo pós-escrito, Ruthven trata de temas como a fatwa (sentença de morte) decretada contra o escritor inglês Salman Rushdie pelas autoridades religiosas do Irã e o surgimento do Talibã, a milícia fundamentalista que hoje governa o Afeganistão. O autor é simpático aos muçulmanos, mas sem abandonar o espírito crítico (por exemplo, quando fala da resistência dos líderes religiosos a autorizar reformas). Transformado em clássico instantâneo, Islam in the World é considerado o melhor volume de introdução ao islamismo disponível no mercado.

 
Jerry Bauer
Karen Armstrong: estudo dos laços entre política e religião

Islam, de Karen Armstrong (Modern Library; 222 páginas; 70 reais) – A ex-freira inglesa Karen Armstrong é uma das principais autoridades em história das religiões na atualidade. Esse seu livro oferece um belo aparato informativo: mapas, bibliografia, cronologia, glossário de termos árabes e uma lista das figuras muçulmanas de maior destaque ao longo dos séculos. Uma constatação atravessa a narrativa: enquanto na maior parte das religiões o mundano e o espiritual formam reinos separados, no islamismo eles caminham juntos. "Na maioria das fés", escreve Armstrong, "o clamor da história é visto como incompatível com a verdadeira vida religiosa. Mas a escritura sagrada dos muçulmanos lhes deu uma missão histórica. Sua salvação não está na remissão dos pecados, mas na criação de uma sociedade justa. Isso significa que os assuntos de Estado formam a própria essência da religião islâmica." A autora estuda as conseqüências dessa união entre política e fé, abordando temas como o fundamentalismo, as relações do Islã com a modernidade e a possibilidade de aplicar o conceito de democracia a um Estado muçulmano.

 

TELEVISÃO

Caçando Bin Laden (domingo, dia 23, às 22h30; terça, às 23h20; e quarta, às 4h, no GNT) – Produzido pela rede americana PBS, o documentário foi lançado dois dias depois dos ataques ao Pentágono e ao World Trade Center. É uma oportunidade para entender melhor como pensa e age o suspeito número 1 dos atentados aos Estados Unidos. "Mesmo com capacidades limitadas, nossa fé pode derrotar a maior potência militar dos tempos atuais", diz Osama, num vídeo que circulou no mundo árabe meses antes da tragédia do dia 11. Caçando Bin Laden mostra como o herdeiro de um milionário da construção civil na Arábia Saudita montou sua temível rede terrorista, a Al Qaeda. Também apresenta informações de bastidor sobre os métodos da CIA para combatê-lo – entre elas, detalhes inéditos de um plano para capturá-lo no Afeganistão, em 1998. O criminoso que emerge das imagens de arquivo e dos depoimentos de agentes secretos, autoridades e dissidentes islâmicos confirma: Bin Laden é mesmo um sujeito obstinado e extremamente calculista.

 

VÍDEO

Divulgação

O Espelho: uso de parábolas para fugir da censura no Irã


O Espelho
(Ayneh, Irã, 1997. Cult) – Sempre submetido a uma censura rigorosa, o cinema iraniano costuma recorrer a parábolas para telegrafar suas mensagens. Não é difícil, entretanto, decifrar o que o diretor Jafar Panahi (do aterrorizante O Círculo, que mostra a perseguição às mulheres no Islã) quer dizer com O Espelho. A protagonista é uma menina pequena que, esquecida pela mãe na escola, decide voltar para casa sozinha. Ela vai pedindo ajuda a estranhos, mas ninguém lhe dá atenção. É uma maneira de comentar quanto o país, um dos regimes islâmicos mais rigorosos do mundo, está desatento às novas gerações. Mas uma reviravolta metalingüística no meio do filme revela que os jovens iranianos têm opiniões mais fortes do que se acredita e já começaram a escolher um caminho mais independente para suas vidas. Sem que o espectador espere, a menina enfatiza ser apenas uma atriz, que interpreta o papel de uma garotinha perdida. Ela interrompe a filmagem e diz que não mais fará a personagem, porque não quer ser vista pelos amiguinhos como uma tonta. Reclama inclusive do gesso falso que puseram em seu braço: "Não sou uma desastrada e sei me cuidar", declara. O discreto processo de abertura por que passa o Irã mostra que Panahi acertou em cheio no seu diagnóstico.



Christophe L.

Meu Filho, o Fanático: gerações em conflito


Meu Filho, o Fanático
(My Son the Fanatic, Inglaterra, 1997. Paris) – O choque cultural entre Islã e Ocidente é o tema dessa produção do cineasta Udayan Prasad, sobre uma família de paquistaneses estabelecidos na Inglaterra. O dado curioso é que, aqui, a nova geração é que se mostra mais radical na adesão aos princípios muçulmanos. Sua história é simples: o motorista de táxi Parvez (interpretado pelo excelente ator indiano Om Puri) recebe a notícia de que seu filho rompeu o noivado com uma moça inglesa de família próspera. Ao buscar uma explicação para o fato, ele se dá conta de que o rapaz está febrilmente envolvido com um movimento extremista. Não só passou a repudiar todos os valores que aprendeu em casa, por julgar que contrariam os fundamentos de sua fé, como está disposto a participar de ações violentas em nome dela. No centro do conflito estão ainda a amizade cada vez mais estreita do pai com uma prostituta e a insistência do filho em instalar um mulá, um líder religioso islâmico, sob o teto paterno. Muito bem construído, o filme consegue atacar duas questões complexas ao mesmo tempo. Por um lado, mostra quão irracional é o fanatismo. Por outro, revela como indivíduos cronicamente vitimados pelo preconceito – o caso de Parvez e sua família – podem enxergar nele uma saída.


 
 
   
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