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Edição 1 719 - 26 de setembro de 2001
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Roberto Pompeu de Toledo

Deixemos o pobre século XXI em paz

Já há confusão bastante em torno
de quando
ele teria começado.
Por que
mais uma?

O século XXI começou na terça-feira 11 de setembro de 2001. Não foi isso que inventaram agora? Tal descoberta, se de descoberta se pode chamar, tem sido repetida à exaustão. O século XXI teria começado com oito meses e onze dias de atraso, no dia em que dois aviões, no atentado mais espetacular de que se tem registro, trombaram com as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, enquanto um terceiro mergulhava sobre o Pentágono, em Washington. Antes, o começo do século XXI, sem tragédia, mas, pelo contrário, com festivo alarde, tinha sido comemorado, contrariando as melhores regras de fazer as contas, ao raiar do ano 2000. Se o leitor bem se lembra, houve réveillons de arromba ao redor do mundo, livros comemorativos e eventos diversos, como se o ano de 2000 fosse o primeiro do século XXI, e não o último do século XX. Comemorou-se o começo do século com um ano de adianto.

Pobre século XXI, eis um século que não se sabe quando começou, se é que começou. O historiador inglês Eric Hobsbawm, num livro de repercussão (Era dos Extremos), considerou que o "breve" século XX, como o qualificou, começou em 1914, com a I Guerra Mundial, e terminou em 1991, com o desfazimento da União Soviética. A tese é sedutora e convincente. Igualmente, pela espetaculosidade e ineditismo do evento, bem como pelas dimensões da tragédia e o abalo que causou mundo afora, é sedutor e convincente imaginar que o século XXI, isto é, uma nova era, começa com os atentados contra os Estados Unidos. Mas, então, como ficamos? Se o século XX terminou em 1991, segundo a bem urdida tese de Hobsbawm, e o XXI começou neste mês de setembro, que fazer dos dez anos que medeiam entre uma data e outra? São os anos mortos, os anos inexistentes, o vazio de tempo? O período em que o calendário, e com ele a história, se anulou?

Ninguém está querendo diminuir a enormidade do acontecimento do World Trade Center. Por todos os ângulos que se o considere, e por mais alguns que se acrescentem, o fato é acachapante. Daí a considerar – esse é o nosso ponto – que agora, sim, se abriu o novo século, e inaugurou-se uma nova era, vai uma distância. Ora, direis, trata-se de simples golpes de retórica. Não são apenas os terroristas que arrebentam altas torres com aviões seqüestrados que gostam de espetaculosidade. Todos gostam, nesta nossa era do cinema, da televisão, do videogame e do videoclipe. E, assim como há a espetaculosidade da imagem, há também a das palavras. Os publicitários sabem bem disso, e por isso inventam slogans. Dizer que o século XXI começou agora, ou que se inaugurou uma nova era, equivale a um slogan publicitário. Não tem outra função senão enfatizar a importância do evento.

Esse é um lado da questão. Outro ocorre na situação em que, ao recitar o que não deveria passar de simples slogan, a pessoa que o faz acredita mesmo que se iniciou uma nova era. O que ressalta então é a arrogância de considerar que se pode escrever a história no momento mesmo em que ela acontece. É um engano. A história é propriedade dos pósteros. São eles que decidem, de acordo com seu ponto de vista, seu gosto e suas conveniências, quais os eventos que marcaram época. A obscura trajetória de Jesus, num canto obscuro do mundo, passou despercebida dos líderes, escritores, pensadores e outros notáveis contemporâneos. Foi apenas alguns séculos depois que se deu importância a tal evento, e tanta que, ele sim, mudou o calendário, a ponto de dividi-lo em antes e depois. Vamos com calma. A posteridade vai dizer se os acontecimentos dos Estados Unidos inauguram uma nova era, e marcam o novo século, ou se na verdade representam o desdobramento de situações há muito grudadas no mundo como craca, talvez desde o tempo das Cruzadas, quando se combatia o infiel com a mesma cegueira e a mesma sede de sangue.

 

A melhor hora dos Estados Unidos não foi a profusão de bandeiras e o compulsivo coro dos God Bless America que assolaram o país. Na verdade, a avalanche de hinos e bandeiras, por mais justificada, em certas horas, tem o sabor das unanimidades assustadoras. Também não foi o movimento de solidariedade que fez com que o prefeito Rudolph Giuliani apelasse para que cessassem os donativos e deixassem de se apresentar os voluntários, tantos já se tinham de uns e de outros. Afinal, movimentos semelhantes já se registraram no mundo, em ocasiões como terremotos e enchentes. A melhor hora dos Estados Unidos foram duas, a primeira quando um sacerdote muçulmano foi convidado a participar, junto com representantes de outras religiões, da cerimônia realizada na catedral de Washington, presentes o atual e os ex-presidentes, entre outras personalidades do mundo oficial, e a segunda – e melhor ainda – a visita do presidente Bush à mesquita de Washington, na última segunda-feira. A faceta aberta da nação americana, tolerante, pluralista, atenta ao outro e respeitadora da diversidade, fez-se então presente.

   
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