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Bombas
literárias
"Quase
todos os escritores quebraram a cara na hora de comentar os atentados
terroristas nos Estados Unidos"
Alguns dos mais célebres escritores do mundo foram convidados para
comentar os atentados terroristas nos Estados Unidos. É para essas
coisas que servem os escritores: para exprimir o inexprimível,
para dar um sentido à insensatez, para ver o que ninguém
viu. Foi um fiasco. Quase todos quebraram a cara. Se o objetivo dos terroristas
era destruir a civilização ocidental, atingiram em cheio
um de seus alicerces: a literatura.
Paul Auster foi incapaz de olhar para além de sua vida doméstica.
Contou que, naquela terça-feira, sua filha de 15 anos dormiu fora
de casa, impossibilitada de voltar para o Brooklyn. Depois contou que
sua cunhada ouviu gritos quando a primeira torre ruiu, que uns amigos
foram evacuados e, por fim, que seu barbeiro conhecia uma pessoa que conhecia
outra pessoa que estava no World Trade Center.
Jay McInerney também imaginou que seu mundinho privado pudesse
adquirir um significado universal. Foi avisado dos atentados por uma ex-namorada.
Ligou a TV na CNN. Visitou o amigo Bret Easton Ellis e assistiram juntos
a mais CNN. Chorou por vinte minutos seguidos. "Não consigo controlar
minhas emoções. Quero abraçar estranhos. Quero ferir
estranhos." Os americanos têm uma certa dificuldade para entender
que o planeta é um pouco mais vasto que o bairro em que moram.
E que nem todos os estranhos desejam ser abraçados ou feridos por
eles.
Richard Ford pôs-se a descrever a morte de seu pai, que morreu "direito":
em sua casa, em sua cama, perto da mulher. Ser obliterado por um Boeing
767 que entra pela janela de um prédio, segundo Ford, não
é um jeito certo de morrer. Infelizmente, a realidade é
assim: ninguém sabe a hora, o lugar e a modalidade da própria
morte. Exceto, claro, os pilotos suicidas dos Boeing 767.
Norman Mailer preferiu ver o aspecto positivo dos atentados. Disse que
as torres gêmeas eram mais bonitas agora, em ruínas, do que
quando estavam em pé. A seguir, previu o surgimento de um novo
e benéfico patriotismo nos Estados Unidos, acrescentando que, quando
um país não tem jovens dispostos a morrer por um ideal,
esse país está com problemas. Mas não foram justamente
"jovens dispostos a morrer por um ideal" que destruíram as torres
gêmeas e mataram aquela gente toda?
John Updike usou o mais banal de todos os clichês: "Foi como assistir
a um filme". Umberto Eco eximiu-se: "Num incêndio, até o
poeta é obrigado a chamar o bombeiro". Martin Amis acusou os americanos
de exterminar 5% dos iraquianos e de sofrer de "um déficit de empatia
pelo sofrimento de povos distantes". Amis é europeu. Muitos europeus,
nesses dias, recordaram o sofrimento dos iraquianos. E se esqueceram de
outros povos distantes, como os curdos do norte do Iraque, massacrados
com armas químicas por Saddam Hussein antes da Guerra do Golfo.
A única escritora que se saiu bem foi Susan Sontag. Para ela, os
americanos substituíram a política pelo psicodrama. "Sim,
choremos todos juntos. Mas tentemos não ser estúpidos todos
juntos." O presidente Bush repete continuamente que os Estados Unidos
são fortes. Todo mundo sabe que eles são fortes. O problema,
conclui Sontag, é que o país "tem o dever de não
ser apenas isso".
Por sorte, nada disso diz respeito ao Brasil. Ninguém se interessou
em ouvir nossos escritores e, que eu saiba, ninguém nos considera
parte da civilização ocidental.
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