Meditação, ioga e dinheiro

Quem é Deepak Chopra,
o guru da moda em Hollywood
e agora também no Brasil

Alexandre Mansur

 
Joseph Pluchino
Chopra meditando: "Não é preciso ser pobre para ser espiritual. Quando se contribui para o universo, o que vem é a abundância"

Um médico estressado encontrou um manual de meditação transcendental em um sebo na cidade americana de Boston. Naquele momento do ano de 1980, Deepak Chopra, um endocrinologista de origem indiana, viu sua vida se transformar. E, como numa linha de transmissão energética, seu êxtase acabou por modificar outras tantas vidas. Inspirado por doutrinas indianas, Chopra abandonou a rotina de chefe de equipe de um grande hospital de Massachusetts. Virou empresário do esoterismo, palestrista, guru espiritual de estrelas de Hollywood e milionário. Seus 21 livros de auto-ajuda, editados em trinta idiomas, venderam mais de 10 milhões de exemplares (metade do conseguido pelo mago brasileiro, Paulo Coelho). O faturamento anual de tudo que leva seu nome, de temperos e cosméticos a palestras, ultrapassa 15 milhões de dólares. Na próxima semana, ele vem ao Brasil, pela terceira vez, para duas palestras. Dos 2.748 ingressos, que custam 200 reais, mais da metade já está vendida.

Nem todos seus seguidores tiveram destino financeiro semelhante, mas eles garantem que, desde que entraram em contato com os ensinamentos do mestre, conquistaram mais saúde e paz espiritual. Deepak Chopra é um fenômeno. Sem uma única idéia original na cabeça, fatura e convence. Sua fórmula é um amálgama modernizado de conceitos tirados dos textos védicos indianos com um pouco de ciência pura. Costuma citar pensadores como Krishnamurti, Kant, Voltaire, Spinoza, Schopenhauer e alguns dos filósofos gregos. De boa aparência e carismático, ele se apresenta como um consertador de corpos e espíritos. Faz sucesso num mundo insatisfeito com a religião e com a medicina tradicionais. Para ele, doenças são fruto de pensamentos dos próprios doentes. Reequilibrando as energias, por meio de técnicas que ele ensina, a saúde volta, o envelhecimento demora a chegar. "A espiritualidade alivia o sofrimento até em casos de câncer. Às vezes cura, às vezes não. Mas sempre alivia", diz.

Filho de um proeminente cardiologista indiano, Chopra formou-se em endocrinologia no All India Institute of Medical Sciences, em Nova Delhi. Foi para os Estados Unidos em 1970 e trabalhou em vários centros ligados a universidades, como a Harvard e a de Boston. Dez anos depois da chegada à América, foi promovido a chefe de equipe do New England Memorial Hospital, em Massachusetts. Consumia 1 litro de café e um maço de cigarros por dia. Sentia-se cansado e, pior, desestimulado. "Estava frustrado pela incapacidade de ir fundo nas raízes dos problemas das pessoas", contou em entrevista a VEJA. A leitura do livro achado no sebo o fez largar o fumo e o religou à Índia natal. Através da meditação, Chopra aproximou-se do mestre Maharishi Mahesh Yogi, que popularizou a técnica no Ocidente na década de 70. Tornou-se seu principal divulgador nos Estados Unidos. Em 1993, os dois romperam. Chopra dizia que Maharishi cerceava sua liberdade de expressão. No mesmo ano, lançou seu primeiro livro, Corpo sem Idade Mente sem Fronteira. Vendeu 130.000 cópias em um dia.

Hoje, ele divide seu tempo entre o Centro Chopra para o Bem-Estar, que fundou em La Jolla, na Califórnia, há dois anos, e as poltronas dos aviões em que embarca para dar palestras e lançar livros. Todo ano, ele promove uma dúzia de seminários sobre filosofia oriental e ioga. Mensalmente, dá cerca de seis palestras por um cachê de 25.000 dólares cada uma. Seu nome se tornou marca. Estampa as embalagens de produtos tão diversos quanto vídeos, chás e óleos de massagem (veja quadro). O centro de La Jolla oferece serviços de desintoxicação, massagens, ioga e meditação. As diárias variam de 150 a 520 dólares e não incluem hospedagem. Dono de três mansões na Califórnia e amante de carros de luxo, Chopra é acusado de mercantilizar a filosofia oriental, como freqüentemente acontece com esses gurus que pregam técnicas e filosofias orientais. Tira as críticas de letra: "Não é preciso ser pobre para ser espiritual. Isso é fruto de estereótipos históricos. Quando alguém contribui criativamente para o mundo, e compartilha seus talentos com os outros, o resultado é a abundância".

Principalmente por meio da meditação, Chopra diz que se pode viver até os 120 anos, reduzir a pressão sanguínea, controlar o peso e eliminar o stress que provoca doenças. Conforme escreveu em As Sete Leis Espirituais do Sucesso, "quando suas ações são motivadas pelo amor... a energia extra que se ganha pode ser canalizada para criar qualquer coisa que se queira, incluindo riqueza ilimitada". Por essas e outras, o guru moderno é criticado por todos os lados. Um de seus mais eloqüentes opositores é William Jarvis, presidente do Conselho Nacional contra a Fraude na Saúde, nos Estados Unidos. "Pessoas como Chopra são delirantes. Quando você é delirante, pensa que é o Messias", afirma. Por misturar seu passado médico com esoterismo, Chopra incomoda especialmente os cientistas. "Ele oferece força interior e paz, mas não ciência. Talvez metafísica", diz Paul Saltman, professor de biologia da Universidade da Califórnia, em San Diego.

Rogério Voltan
A estudante Roberta (no centro) tem aulas em São Paulo: "Mudei minha vida"


Indiferentes ao que dizem cientistas, acadêmicos e pesquisadores, os seguidores de Chopra são cada vez mais numerosos. A lista de popstars inclui Madonna, Demi Moore, Michael Jackson, Elizabeth Taylor, Michael Douglas, Winona Ryder, Olivia Newton-John e George Harrison. No Brasil, seus dezessete livros traduzidos para o português venderam 560.000 cópias. "Você começa a se olhar com mais carinho e entender qual é a sua missão nesta vida", diz a executiva paulista Karla Mantovani, que dá os livros de presente para os amigos. Em março de 1997, Marcia De Luca, depois de fazer vários cursos em La Jolla, abriu o Centro Integrado de Yoga, Meditação e Ayurveda, Ciyma, em São Paulo. Lá são ministrados cursos sobre os ensinamentos de Chopra. Já tem 450 alunos. "Quando comecei a ler os livros de Chopra, descobri que essa era a minha missão", conta Marcia, que também acerta a viagem dos interessados em estudar no centro californiano. Uma das candidatas é a estudante paulista Roberta Nascimento, de 17 anos. "Eu empurrava a vida com a barriga até que li um livro de Chopra. Comecei até a estudar mais no colégio", conta Roberta, mais uma das pessoas envolvidas na corrente energética iniciada no momento em que o endocrinologista estressado colocou a mão em um livro sobre meditação.

 
 

 

 




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