Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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AFP
Dolls: um desafio que compensa enfrentar


Dolls
(Japão, 2002. Califórnia) – Um rapaz vaga pelo Japão em penitência, amarrado à noiva desmemoriada que abandonou; um velho mafioso reencontra a namorada que deixou ainda na juventude, e que espera por ele desde então; e um guarda de trânsito tira a própria visão para se aproximar de sua amada, que está com o rosto deformado por um acidente. Essas três histórias de devoção extrema – e destino trágico – se entrecruzam nesse belo filme de Takeshi Kitano, que exercita aqui uma narrativa experimental, mas dentro dos limites rígidos do formalismo cinematográfico japonês. O resultado é uma espécie de Fale com Ela à moda nipônica: difícil, fragmentado e repleto de silêncios, mas altamente compensador para quem se dispuser a enfrentar o desafio.


Divulgação
Migração Alada: deslumbrante


Migração Alada
(Le Peuple Migrateur,
França, 2001. Columbia) – Dirigido por Jacques Perrin, também autor do documentário Microcosmo, que virou coqueluche em 1996, Migração Alada acompanha os vôos de várias espécies de pássaros migratórios por algumas das regiões mais deslumbrantes do planeta, da savana africana à Ilha de Manhattan. A narração é mínima, e fornece apenas uns poucos dados – que pássaro é aquele, quanto ele voa, e pronto. O objetivo de Perrin, plenamente cumprido, é fazer com que o espectador voe lado a lado com os protagonistas do filme. Nos extras, um documentário mostra como as aves foram criadas pela equipe desde o nascimento, para se habituar ao barulho dos ultraleves que carregavam as câmeras e obedecer às instruções. Trailer.

 

LIVROS

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón (tradução de Marcia Ribas; Objetiva; 464 páginas; 54,90 reais) – Daniel Sempere ainda é criança quando seu pai o leva, em 1945, ao Cemitério dos Livros Esquecidos, lugar sigiloso onde são conservados os últimos exemplares de obras literárias que o mundo esqueceu. Lá ele descobre o romance A Sombra do Vento, de Julián Carax. Obcecado em descobrir a história desse misterioso autor, Daniel embarca em aventuras detetivescas pelos meandros de Barcelona. O espanhol Carlos Zafón temperou as obsessões bibliográficas do argentino Jorge Luis Borges com um toque de melodrama. A fórmula deu certo: seu romance já teve mais de 800.000 exemplares vendidos em dezessete países.

A Filha do Contador de Histórias, de Saira Shah (tradução de Hildegard Feist; Companhia das Letras; 294 páginas; 41,50 reais) – Filha de imigrantes afegãos, a jornalista inglesa Saira Shah visitou o país de seus antepassados em 2001 para produzir secretamente o documentário Beneath the Veil (Por Trás do Véu), que denunciava o cotidiano opressivo das mulheres sob o regime talibã. Seu livro, porém, não se limita a narrar essa perigosa incursão jornalística. Em um misto de ensaio e memórias, Saira relembra as histórias fantasiosas que seu pai contava sobre o Afeganistão quando ela era menina – um lugar de jardins límpidos e povo feliz. No contraste entre o país idealizado e o real, Saira tenta entender sua herança afegã.

 
Guache de Chagall: todas as cores das fábulas  

Fábulas de La Fontaine, com ilustrações de Marc Chagall (tradução de Mário Laranjeira; Estação Liberdade; 144 páginas; 39 reais) – Jean de La Fontaine (1621-1695) publicou uma série de fábulas versificadas que fizeram sucesso em sua época e atravessaram os séculos encantando crianças e instigando adultos. O pintor russo Marc Chagall (1887-1985) dedicou-se a ilustrar esse clássico francês nos anos 20 do século passado, criando belos guaches para uma edição colorida que acabou não saindo. Dispersas entre colecionadores privados, muitas dessas ilustrações se perderam. Nas 43 fábulas e ilustrações recolhidas nesse livro, o leitor percebe que Chagall encontrou as cores perfeitas para as encantadoras histórias de La Fontaine. Leia trecho.

 

DISCOS

 
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Kravitz: o cabelo não afetou o som  

Baptism, Lenny Kravitz (EMI) – Recentemente, o cantor americano trocou a cabeleira crespa por um corte à la chapinha japonesa. Isso não afetou em nada sua voz nem seu talento, como comprova esse novo álbum. As letras do disco revelam um Kravitz mais maduro e irônico, que critica a hipocrisia no mundo do showbiz e a adoração exagerada aos astros do rock. Salvo algumas intervenções de membros de sua banda (além da participação do rapper Jay-Z, na faixa Storm), o roqueiro tocou todos os instrumentos e compôs todas as canções. O repertório contém baladas de primeira e, como é de sua especialidade, faixas capazes de energizar qualquer pista de dança – como o funk Sistamamalover e o rock California. Ouça o disco.

No Way Out, The Allman Brothers Band (BMG) – O conjunto americano pertence àquela categoria de artistas que rendem muito mais em apresentações ao vivo do que nos discos de estúdio. No Way Out é uma prova disso. Registro de duas apresentações do grupo no Beacon Theatre, em Nova York, o álbum capta a banda liderada pelo cantor e tecladista Greg Allman em todo o seu virtuosismo e alto-astral. No palco, os Allman Brothers esticam suas composições calcadas no blues e no country com solos impagáveis de guitarra e teclados. Os músicos Warren Haynes e Derek Trucks, dois bambas na produção de efeitos de guitarra, contribuem muito para o bom resultado. Basta conferir suas performances no sucesso Whippin' Post para comprovar o poder de fogo da banda.

 
Simonal: resgate de um bamba da MPB

Wilson Simonal (EMI) – Morto em 2000, aos 61 anos, o cantor carioca Wilson Simonal foi um dos principais intérpretes da história da MPB. Sua carreira artística foi por água abaixo precocemente, no entanto, por causa de uma infâmia: a acusação de que ele delatava os colegas esquerdistas para os órgãos de repressão durante a ditadura militar, fato nunca comprovado. Essa caixa de nove CDs mostra que Simonal era um artista à frente de seu tempo. A principal marca de seu estilo era envenenar as músicas com improvisos jazzísticos. Há diversos exemplos dessa habilidade, como as versões suingadas das bossas Nanã e Lobo Bobo, além dos temas infantis Meu Limão, Meu Limoeiro e Escravos de Jó. A caixa traz ainda um libreto com material biográfico.

 

 

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