Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Tales Alvarenga
A grande conspiração

"Pacto nacional é como terapia de casal.
Quando
o marido convida a mulher para
salvar o casamento no consultório do
psicólogo, é porque o casamento
já acabou"

A dupla formada pelo presidente Lula e pelo vice José Alencar lembra a história do tenor vaiado ao fim de seu número. Aproxima-se do microfone e previne: "Vocês me acharam ruim? Não perdem por esperar. Aguardem o barítono". Quando o barítono José Alencar entra em cena, o país fica aliviado de ter na Presidência o tenor Luiz Inácio Lula da Silva, que é mau cantor, mas não consegue ser tão ruim como Alencar.

Na semana passada, o PL, partido do vice, lançou um manifesto à nação dizendo que o Brasil atravessa a mais grave crise social de sua história. "No passado, crises sociais provocadas pelo alto desemprego resultaram em opções dramáticas dos povos. Alguns seguiram o caminho fascista e nazista", afirma o documento. Alencar, que participou da composição do manifesto, acha que chegou o momento de o governo optar por uma política de crescimento, que deveria incluir controle de capitais – ou seja, barrar a fuga dos dólares daqueles que investem no Brasil e que, presumivelmente, ficariam apavorados com as medidas pregadas pelo vice e tentariam escapar com o dinheiro.

Alencar é radical. Detesta a política de rigor com as contas públicas aplicada pelo ministro Antonio Palocci, da Fazenda. Quer que o governo baixe os juros, mesmo que Palocci considere isso uma aventura perigosa neste momento. Alencar quer também que o governo pare com essa história de economizar e gaste dinheiro para fazer o Brasil crescer. O vice está de tal forma irritado que, depois da divulgação do manifesto, foi mais longe ainda numa entrevista. "O Brasil tem sido vítima da sabotagem de uma coisa que se convencionou chamar de mercado", disse ele. Pelo que se vê, Alencar não quer se livrar apenas de Palocci. Ele quer também acabar com o mercado. O que não faria um barítono desses caso viesse a ocupar a Presidência em caráter definitivo?

Dias antes, durante jantar com empresários em São Paulo, o ministro José Dirceu, chefe da Casa Civil, propôs um pacto nacional contra uma crise mundial que, segundo ele, vem por aí. Para Dirceu, a política econômica ortodoxa do ministro Antonio Palocci não é suficiente para enfrentar essa crise. Ninguém sabe se vai haver uma crise internacional, nem sequer José Dirceu. Mesmo que venha a crise, um membro do governo não deve sair por aí anunciando desastres antes que eles aconteçam.

Falar em pacto nacional também é inconveniente. Não há nenhum motivo detectável para propor essa operação. Mesmo que houvesse, ela não funcionaria. Muitos pactos foram tentados no Brasil e todos acabaram em ridículo. Pacto nacional é como terapia de casal. Quando o marido convida a mulher para salvar o casamento no consultório do psicólogo, é porque o casamento já acabou.

Minha suspeita é que existe uma conspiração a favor de Lula entre seus auxiliares. Barítono, soprano, contralto e todos os integrantes do coro podem estar desafinando de propósito para que o tenor Lula, por efeito de comparação, fique parecendo mais competente. Essa hipótese explica os desentendimentos entre os membros do governo e também as trapalhadas que eles aprontam. É difícil acreditar que sejam tão amadores a ponto de brigar tanto e de errar com tamanha eficiência. Deve ser tudo fingimento, para realçar o desempenho do chefão.

 
 
 
 
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