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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
A maquiagem
do monstro
"Obter
justiça social na entrada da
universidade é como tentar maquiar
o Frankenstein. Batom, ruge e pó-de-arroz
não conseguirão reduzir sua feiúra"
Ilustração Ale Setti
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O Brasil não é um país sem políticas
sociais. Pelo contrário, nós as temos em abundância.
O problema é que elas tendem a ajudar os que menos precisam.
Sendo assim, devemos festejar um novo intento de aliviar as injustiças
da nossa sociedade. O MEC pretende reservar 50% das vagas de suas
universidades para os alunos de escolas públicas, sabidamente
mais pobres que os das particulares. Quando nada, evitamos os pesadelos
de implementar cotas raciais.
Mas
parece-nos que ainda não é desta vez que acertaremos.
Mal comparando, obter justiça social na entrada da universidade
é como tentar maquiar o Frankenstein. Batom, ruge e pó-de-arroz
não conseguirão reduzir sua feiúra.
Isso
porque o problema se origina na falta de qualidade do ensino fundamental,
o que impede 40% dos alunos de terminá-lo. Do contingente
já desfalcado que chega ao ensino médio, quase metade
soçobra antes de completar o curso. Os que terminam também
não aprenderam muito. Em ambos os níveis, são
os pobres (brancos e negros) que ficam travados no meio do caminho.
As políticas que incidem às vésperas do vestibular
beneficiam no máximo um em cinco pobres.
Melhorar
o ensino público básico é a única política
que enfrenta o real problema de eqüidade. Infelizmente, não
é uma política de charme, pois seus resultados custam
a aparecer.
Não
é irrelevante ampliar as chances de entrar no ensino superior
desse pequeno grupo que conclui o ensino médio. Aumentar
sua capacidade de competir nos vestibulares é, talvez, o
melhor que se pode fazer tão tardiamente. Nesse particular,
merecem louvor as tentativas de criar cursinhos pré-vestibulares
de qualidade para clientelas mais pobres.
Contudo,
é justo pensar também em alternativas de melhorar
as chances dos sobreviventes. A questão é saber a
que custo. Lembremo-nos: o ensino superior não é um
nível obrigatório. Portanto, não pode ser sacrificado
por razões de eqüidade.
A
idéia de cotas para os alunos das escolas públicas
parece atraente. Mas, na prática, traz problemas graves.
O primeiro é de princípio. No ensino superior, sobretudo
nas universidades públicas extraordinariamente caras
, deve reinar o princípio da meritocracia intelectual,
no qual pode mais quem sabe mais e sobe mais quem sabe mais. Uma
violação à força bruta dessas regras
não se faz sem graves prejuízos para uma instituição
em que o mérito é fundamental. As soluções
apropriadas para o Brasil deveriam ser muito mais complexas e matizadas,
em cada caso, fixando-se as cotas em níveis em que a perda
de qualidade seja aceitável (há estudos sobre o assunto).
Nos
Estados Unidos, onde houve a chamada ação afirmativa
a favor das minorias étnicas, as instituições
deviam atingir certo equilíbrio entre brancos e negros. Mas,
como o processo de recrutamento sempre foi assunto interno das instituições,
elas saíam garimpando os negros de melhor desempenho. Isso
é diferente do estabelecimento mecânico de cotas, que
desconsidera o desnível dos beneficiados por elas.
No
caso brasileiro, se as cotas propostas forem para a universidade
pública como um todo, não vão fazer diferença,
pois metade dos alunos já vem de escolas públicas.
É muita vela para pouco defunto. Mas, se as cotas forem dentro
de cada curso, nesse caso realmente vão provocar uma mudança
de clientela. Exceto no caso das escolas de aplicação
das universidades e das escolas técnicas federais
que já são elitizadas serão recrutados
alunos dramaticamente menos preparados para as carreiras mais competitivas.
Por exemplo, na medicina e no direito da USP, os alunos que entrarem
pelas cotas terão uma pontuação 54% menor no
vestibular. Na Universidade Federal de Minas Gerais, somente 10%
dos candidatos ao curso de medicina egressos das escolas estaduais
atingem a pontuação requerida para passar para a segunda
fase. Estaremos comprometendo a qualidade em carreiras muito críticas
para o país.
Seria
interessante fazer uma pesquisa de opinião dentro do MEC
para saber quem votaria pelas cotas se isso implicasse o compromisso
de ter de se tratar somente com os médicos selecionados dessa
forma.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net.)
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