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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
As
supostas vidas
de
Ernesto Guevara
A
propósito do
filme Diários
de Motocicleta,
a
sugestão de
possíveis caminhos
roubados
ao
"Che"
Ernesto
"Che" Guevara conheceu o martírio nas selvas da Bolívia,
aos 39 anos, e virou pôster. E se tivesse sobrevivido? Algumas
hipóteses:
Teria voltado a Cuba, se reintegrado ao governo e até hoje
figuraria entre os quadros mais altos da administração
da ilha, em perfeita consonância com o companheiro Fidel Castro.
Guevara, aos 75 anos, teria ralos pêlos brancos na cabeça
e na barba e, fiel à farda, assim como Fidel, sofreria, no
entanto, o inconveniente de ela acentuar-lhe a barriga avantajada.
"Guevara ordena a prisão de mais um grupo de escritores e
jornalistas dissidentes" seria o tipo de notícia com o qual
ele vez ou outra voltaria à tona. Ou, então: "Guevara
defende o fuzilamento do oficial acusado de conspirar contra o regime
cubano".
Teria rompido com Fidel Castro, desencantado com a burocratização
do regime e com o alinhamento ao sistema soviético. Depois
de perambular por vários países latino-americanos,
teria chegado a Ribeirão Preto, onde a sorte o aproximaria
de um jovem chamado Antonio Palocci. Apesar da diferença
de idade, vários traços comuns os uniam. Eram ambos
médicos, estavam ambos mergulhados na revisão de seu
esquerdismo original, e engajavam-se ambos no mesmo esforço
de aprender a conviver com a economia e a política como elas
são, não como gostariam que fossem. Guevara se tornaria
um dos mais íntimos colaboradores de Palocci, quando este
se elegeu prefeito da cidade, e teria continuado ao lado do amigo
se a Argentina não viesse a reclamar sua presença,
à época da eleição do presidente Néstor
Kirchner. Kirchner, encantado com a mistura de idealismo e pragmatismo
do doutor Guevara, chamou-o para ministro das Finanças. Hoje,
como Palocci no Brasil, ele estaria administrando a economia de
seu país natal com realismo e prudência. Suas políticas
seriam muito apreciadas pelo mercado.
Teria, depois da Bolívia, dado continuidade a seus ingentes
esforços revolucionários no Chile de Salvador Allende.
Seu idealismo e seu ardor estariam agora a serviço de uma
nova tentativa de construção do socialismo, e de um
socialismo diferente, mais aberto e democrático do que o
implantado em Cuba. No Chile teria conhecido um jovem exilado brasileiro
de nome José Serra. A amizade entre os dois se solidificaria
quando, por ocasião da queda de Allende, escaparam juntos
do Chile. Passaram então a perambular pelo mundo, sempre
em contato um com o outro, trocando idéias e experiências,
enquanto, em paralelo, se despiam das idéias radicais da
mocidade. Depois de ter finalmente voltado ao Brasil, Serra escreveu-lhe
falando maravilhas do grupo político com que se entrosara,
no qual brilhavam figuras como Franco Montoro, Mário Covas
e Fernando Henrique Cardoso, e perguntando: não desejaria
ele transferir-se para o Brasil, e incorporar-se à mesma
turma? Guevara aceitou. E eis como, hoje, ele seria, se não
um prócer, porque estrangeiro, uma importante eminência
parda do PSDB. Na boca do povo, seria "o argentino do PSDB", em
contraposição a Luis Favre,"o argentino do PT".
Teria abandonado a política, assim como Rimbaud abandonou
a poesia, e virado um aventureiro metido em obscuras transações
comerciais. A aproximação entre os dois é pertinente.
Guevara é o Rimbaud da política, assim como Rimbaud
é o Guevara da poesia. Rimbaud virou traficante de armas
na África. Guevara escolheria algo igualmente maldito e transgressor,
a única maneira de dar vazão à sofrida morte
do sonho revolucionário.
Teria abandonado a política mas, ao contrário da hipótese
anterior, abraçado uma existência de perfeita paz e
harmonia burguesa. Assim como certos autores imaginam Jesus casado
com Maria Madalena, cercado de filhos e vivendo a vida de um homem
comum, se tivesse escapado da cruz, eis o antigo combatente de Sierra
Maestra estabelecido com um consultório médico, partilhando
a casa com mulher e filhos e querido dos vizinhos. Digamos que vivesse
num bairro de classe média de Lima, ou de Caracas, capitais
de países que conheceu na juventude, durante uma louca viagem
de motocicleta. Ou, então, estaria vivendo em... Ousaríamos
dizê-lo? Ou, então... Não é nossa intenção
achincalhar o ídolo, mas, vá lá, desculpemo-nos
e sigamos em frente. Ou, então... estaria vivendo em Miami.
Sim, Miami. E achando que Jeb Bush não governa assim tão
mal a Flórida.
Tudo
isso foi para dizer que o belo Diários de Motocicleta,
filme de Walter Salles ovacionado no Festival de Cannes na semana
passada, só faz sentido se o espectador tem em mente algo
que não consta do entrecho o fim nobre e trágico
do personagem. Se Guevara tivesse escapado de morrer na Bolívia
e assumido qualquer das encarnações acima, os diários
que escreveu sobre a viagem de motocicleta não teriam valor.
A própria viagem não teria valor. E não haveria
filme, e não haveria pôster. Não haveria nem
Guevara, pois Guevara só é Guevara porque sua vida
se congelou antes de ficar pronta.
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