Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
As supostas vidas
de Ernesto Guevara

A propósito do filme Diários de Motocicleta, a sugestão de possíveis caminhos roubados ao "Che"

Ernesto "Che" Guevara conheceu o martírio nas selvas da Bolívia, aos 39 anos, e virou pôster. E se tivesse sobrevivido? Algumas hipóteses:

• Teria voltado a Cuba, se reintegrado ao governo e até hoje figuraria entre os quadros mais altos da administração da ilha, em perfeita consonância com o companheiro Fidel Castro. Guevara, aos 75 anos, teria ralos pêlos brancos na cabeça e na barba e, fiel à farda, assim como Fidel, sofreria, no entanto, o inconveniente de ela acentuar-lhe a barriga avantajada. "Guevara ordena a prisão de mais um grupo de escritores e jornalistas dissidentes" seria o tipo de notícia com o qual ele vez ou outra voltaria à tona. Ou, então: "Guevara defende o fuzilamento do oficial acusado de conspirar contra o regime cubano".

• Teria rompido com Fidel Castro, desencantado com a burocratização do regime e com o alinhamento ao sistema soviético. Depois de perambular por vários países latino-americanos, teria chegado a Ribeirão Preto, onde a sorte o aproximaria de um jovem chamado Antonio Palocci. Apesar da diferença de idade, vários traços comuns os uniam. Eram ambos médicos, estavam ambos mergulhados na revisão de seu esquerdismo original, e engajavam-se ambos no mesmo esforço de aprender a conviver com a economia e a política como elas são, não como gostariam que fossem. Guevara se tornaria um dos mais íntimos colaboradores de Palocci, quando este se elegeu prefeito da cidade, e teria continuado ao lado do amigo se a Argentina não viesse a reclamar sua presença, à época da eleição do presidente Néstor Kirchner. Kirchner, encantado com a mistura de idealismo e pragmatismo do doutor Guevara, chamou-o para ministro das Finanças. Hoje, como Palocci no Brasil, ele estaria administrando a economia de seu país natal com realismo e prudência. Suas políticas seriam muito apreciadas pelo mercado.

• Teria, depois da Bolívia, dado continuidade a seus ingentes esforços revolucionários no Chile de Salvador Allende. Seu idealismo e seu ardor estariam agora a serviço de uma nova tentativa de construção do socialismo, e de um socialismo diferente, mais aberto e democrático do que o implantado em Cuba. No Chile teria conhecido um jovem exilado brasileiro de nome José Serra. A amizade entre os dois se solidificaria quando, por ocasião da queda de Allende, escaparam juntos do Chile. Passaram então a perambular pelo mundo, sempre em contato um com o outro, trocando idéias e experiências, enquanto, em paralelo, se despiam das idéias radicais da mocidade. Depois de ter finalmente voltado ao Brasil, Serra escreveu-lhe falando maravilhas do grupo político com que se entrosara, no qual brilhavam figuras como Franco Montoro, Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso, e perguntando: não desejaria ele transferir-se para o Brasil, e incorporar-se à mesma turma? Guevara aceitou. E eis como, hoje, ele seria, se não um prócer, porque estrangeiro, uma importante eminência parda do PSDB. Na boca do povo, seria "o argentino do PSDB", em contraposição a Luis Favre,"o argentino do PT".

• Teria abandonado a política, assim como Rimbaud abandonou a poesia, e virado um aventureiro metido em obscuras transações comerciais. A aproximação entre os dois é pertinente. Guevara é o Rimbaud da política, assim como Rimbaud é o Guevara da poesia. Rimbaud virou traficante de armas na África. Guevara escolheria algo igualmente maldito e transgressor, a única maneira de dar vazão à sofrida morte do sonho revolucionário.

• Teria abandonado a política mas, ao contrário da hipótese anterior, abraçado uma existência de perfeita paz e harmonia burguesa. Assim como certos autores imaginam Jesus casado com Maria Madalena, cercado de filhos e vivendo a vida de um homem comum, se tivesse escapado da cruz, eis o antigo combatente de Sierra Maestra estabelecido com um consultório médico, partilhando a casa com mulher e filhos e querido dos vizinhos. Digamos que vivesse num bairro de classe média de Lima, ou de Caracas, capitais de países que conheceu na juventude, durante uma louca viagem de motocicleta. Ou, então, estaria vivendo em... Ousaríamos dizê-lo? Ou, então... Não é nossa intenção achincalhar o ídolo, mas, vá lá, desculpemo-nos e sigamos em frente. Ou, então... estaria vivendo em Miami. Sim, Miami. E achando que Jeb Bush não governa assim tão mal a Flórida.

Tudo isso foi para dizer que o belo Diários de Motocicleta, filme de Walter Salles ovacionado no Festival de Cannes na semana passada, só faz sentido se o espectador tem em mente algo que não consta do entrecho – o fim nobre e trágico do personagem. Se Guevara tivesse escapado de morrer na Bolívia e assumido qualquer das encarnações acima, os diários que escreveu sobre a viagem de motocicleta não teriam valor. A própria viagem não teria valor. E não haveria filme, e não haveria pôster. Não haveria nem Guevara, pois Guevara só é Guevara porque sua vida se congelou antes de ficar pronta.

 
 
 
 
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