Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Música
Silêncio na rede

Por que baixar músicas pela internet
é uma aventura
para o brasileiro


Sérgio Martins

 
Reginaldo Teixeira
A apresentadora Diana Bouth: ela ouve no site e vai atrás do CD

Imagine um brasileiro que, cansado de sua coleção de CDs, resolva testar uma novidade: gravar uma música em seu computador através da internet. A idéia lhe ocorreu ao saber do sucesso do iTunes, o revolucionário site de venda de canções criado pela Apple, fabricante dos computadores Macintosh. Lançado em abril de 2003, em seus primeiros doze meses de funcionamento o serviço vendeu 70 milhões de músicas nos Estados Unidos. O internauta acessa o site e opta por uma faixa do último disco do grupo OutKast, um dos mais procurados pelos usuários do iTunes. Descobre então que é impossível concluir a compra. Por causa do acordo entre a Apple e as gravadoras que abastecem o site, só pode usar o serviço quem mora nos Estados Unidos. Sem desanimar, o internauta migra para o maior site brasileiro do gênero, o iMusica, abastecido de canções das gravadoras BMG e EMI. A BMG lança os discos do OutKast, e ele volta à carga. Sem sorte, mais uma vez: o site brasileiro enfrenta várias restrições para comercializar as criações de artistas internacionais lançados por suas parceiras. O internauta opta então por um artista nacional, o ministro da Cultura Gilberto Gil. Mas aí descobre que só quatro músicas do veterano estão disponíveis. Eis aí um dos maiores problemas da venda de músicas on-line no Brasil: a oferta limitada. São 60 000 faixas no iMusica contra 700 000 no iTunes.

Se o internauta comprar uma das canções de Gil, estará se reunindo a uma minoria. De acordo com o QualiBest, um instituto de pesquisa on-line, apenas 32% dos usuários brasileiros de internet aceitam a idéia de pagar para "baixar" uma música. E, desse grupo já restrito, somente 18% de fato realizam a operação. Sua segunda alternativa é fugir dos serviços pagos e explorar sites como o KaZaA, que oferecem uma infinidade de músicas de graça e promovem a troca de arquivos entre seus usuários. Mas atenção: quem se aventura no KaZaA corre o risco de ver seu micro invadido por anúncios indesejados e até coisas piores, como vírus e programas espiões.

Desde que o iTunes passou a operar, os Estados Unidos inauguraram um segundo período na história da música na internet. O primeiro período, que ainda não se esgotou totalmente, foi de guerra entre serviços como o KaZaA e as grandes gravadoras, que consideram que nesses sites seus produtos são pirateados. Agora, as gravadoras se mostram dispostas a disponibilizar parcelas cada vez maiores de seus catálogos na rede, enquanto um número cada vez maior de usuários se dispõe a pagar pelas músicas. O Brasil, no entanto, se mantém à margem desse processo. Assim como não mergulhou fundo no primeiro período (aqui, a pirataria que preocupa ainda é a dos CDs), o país se mantém em compasso de espera diante do segundo. "Todo mundo está aguardando para ver o que acontece", diz Paulo Rosa, diretor-geral da Associação Brasileira dos Produtores de Discos. Em outras palavras, as gravadoras brasileiras não estão muito ansiosas para jogar os trabalhos de seus principais artistas na rede. Quando o assunto é música, portanto, o único internauta brasileiro que tem boas chances de sair satisfeito de suas incursões pela rede é aquele que se interessa pela cena alternativa. A gravadora paulistana Trama, por exemplo, lançou um site que divulga de graça artistas independentes. "Temos mais de 1.300 nomes cadastrados", diz Carlos Eduardo Miranda, diretor do projeto. Outra opção é fazer como a apresentadora do Sportv Diana Bouth, que acessa rádios on-line dos Estados Unidos para se inteirar das novidades na área do hip hop. "Eu promovo festas de hip hop, e a internet me permite ficar antenada", diz ela. Nessas rádios, só se podem ouvir as músicas. Quando descobre alguma coisa de que realmente gosta, Diana compra o CD.

 

 
 
 
 
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