Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Livros
Civilização perdida

O Ornamento do Mundo recupera
a esquecida lição de tolerância da
Espanha medieval


Jerônimo Teixeira


AFP
Muçulmanas e católicas choram no 11 de março: convivência frágil


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Trecho do livro

A professora de língua e literatura espanhola da Universidade Yale María Rosa Menocal concluiu a redação de O Ornamento do Mundo (tradução de Maria Alice Máximo; Record; 304 páginas, 44,90 reais) poucas semanas antes dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Depois da tragédia, sentiu-se tentada a alterar alguns capítulos, mas acabou optando por acrescentar somente um posfácio – duas páginas em que expressa o pasmo diante de uma "versão feroz do Islã" e reafirma a atualidade dos temas tratados nas páginas anteriores. Talvez a autora devesse acrescentar um novo posfácio depois dos atentados de 11 de março em Madri, quando a ferocidade islâmica explodiu muito perto dos cenários descritos no livro. As bombas reafirmaram tristemente o interesse dessa obra de história medieval, deliciosa para o leitor leigo. É uma contradição curiosa: O Ornamento do Mundo revela-se atual por recuperar uma experiência histórica perdida – uma cultura de tolerância religiosa que floresceu há mais de 1.200 anos, na Espanha que os árabes chamavam de al-Andaluz.

O subtítulo do livro – "Como muçulmanos, judeus e cristãos criaram uma cultura de tolerância na Espanha medieval" – pode conduzir o leitor a uma idéia equivocada. No prefácio, o crítico literário Harold Bloom, colega de María Rosa em Yale, observa que a Espanha medieval tolerante de O Ornamento do Mundo talvez seja uma idealização da autora. Mas é preciso entender que tolerância não é sinônimo de paz. Na Idade Média, a Península Ibérica foi rasgada por sangrentas disputas dinásticas e dividida por intermináveis guerras entre cidades. Mas os membros das três religiões seguiram vivendo, trabalhando e até guerreando juntos. Essa convivência ímpar deveu-se principalmente à atitude dos primeiros soberanos muçulmanos a se estabelecerem na Península Ibérica, no século VIII. Em 750, houve uma mudança no califado, o poder central do então gigantesco Império Islâmico. A dinastia dos omíadas foi deposta por uma família rival, os abássidas. Fugindo da Síria, onde seus parentes foram assassinados, Abd al-Rahman, o último dos omíadas, tomou Córdoba em 756, fazendo da cidade a capital do novo emirado hispânico. Al-Rahman transplantou para al-Andaluz a atitude culturalmente aberta que caracterizou sua dinastia. Até nas mesquitas que erguiam nos territórios conquistados os omíadas buscavam integrar elementos arquitetônicos nativos. Tinham uma interpretação muito liberal das suras do Corão que exigem respeito a judeus e cristãos, os outros "povos do livro". Os judeus integraram-se com entusiasmo ao novo ambiente multicultural, prosperando na terra que chamavam de Sefarad. No século X, um judeu chegou a ser vizir (algo como primeiro-ministro). Os cristãos mostravam-se mais desconfiados em relação aos governantes muçulmanos, mas acabaram estabelecendo um rico diálogo cultural. Celebravam até missas em árabe.

Os omíadas governaram até o século XI, quando a península se dividiu em taifas, verdadeiras cidades-estados em perpétua guerra umas com as outras. Mais tarde, al-Andaluz seria dominada por facções muçulmanas ortodoxas. Mesmo em meio ao tumulto político, al-Andaluz constituiu a vanguarda artística e tecnológica da Europa. Foi lá, por exemplo, que viajantes europeus foram buscar o astrolábio, novidade que ajudaria a traçar o rumo das navegações. E foi em Toledo que se estabeleceu a mais importante escola de tradução do continente, vertendo para o latim textos que então só circulavam em árabe, incluindo clássicos da filosofia grega.

O ponto final da experiência islâmica na Espanha foi em 1492, quando os reis católicos Isabel e Fernando tomaram Granada, o último reduto mouro na península. Al-Andaluz morreria junto com Sefarad: no mesmo ano, os judeus seriam expulsos pelos cristãos. María Rosa Menocal pergunta-se como uma cultura da tolerância pode ter se perdido sob os escombros da história. Há várias respostas, todas provisórias. A peste do século XIV contribuiu para disseminar uma desconfiança generalizada em relação a estrangeiros que talvez carregassem a doença. Mas a peste não criou, apenas intensificou a intolerância religiosa. O Ornamento do Mundo sugere que uma cultura da tolerância será sempre frágil, sitiada pelo ódio dos fanáticos. Conta a lenda que, no dia de sua capitulação, o último e entristecido soberano muçulmano de Granada recebeu uma dura reprimenda da mãe: não deveria chorar como uma mulher pela cidade que não soubera defender como um homem. María Rosa Menocal, com seu livro elegíaco, convida o leitor a uma discreta lágrima pela tolerância que ficou esquecida na Idade Média.

 
 
 
 
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