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Livros
Civilização
perdida
O
Ornamento do Mundo recupera
a esquecida lição de tolerância da
Espanha medieval

Jerônimo
Teixeira
AFP
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| Muçulmanas
e católicas choram no 11 de março: convivência
frágil |
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A professora
de língua e literatura espanhola da Universidade Yale María
Rosa Menocal concluiu a redação de O Ornamento
do Mundo (tradução de Maria Alice Máximo;
Record; 304 páginas, 44,90 reais) poucas semanas antes dos
ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Depois da tragédia,
sentiu-se tentada a alterar alguns capítulos, mas acabou
optando por acrescentar somente um posfácio duas páginas
em que expressa o pasmo diante de uma "versão feroz do Islã"
e reafirma a atualidade dos temas tratados nas páginas anteriores.
Talvez a autora devesse acrescentar um novo posfácio depois
dos atentados de 11 de março em Madri, quando a ferocidade
islâmica explodiu muito perto dos cenários descritos
no livro. As bombas reafirmaram tristemente o interesse dessa obra
de história medieval, deliciosa para o leitor leigo. É
uma contradição curiosa: O Ornamento do Mundo revela-se
atual por recuperar uma experiência histórica perdida
uma cultura de tolerância religiosa que floresceu há
mais de 1.200 anos, na Espanha que os
árabes chamavam de al-Andaluz.
O
subtítulo do livro "Como muçulmanos, judeus
e cristãos criaram uma cultura de tolerância na Espanha
medieval" pode conduzir o leitor a uma idéia equivocada.
No prefácio, o crítico literário Harold Bloom,
colega de María Rosa em Yale, observa que a Espanha medieval
tolerante de O Ornamento do Mundo talvez seja uma idealização
da autora. Mas é preciso entender que tolerância não
é sinônimo de paz. Na Idade Média, a Península
Ibérica foi rasgada por sangrentas disputas dinásticas
e dividida por intermináveis guerras entre cidades. Mas os
membros das três religiões seguiram vivendo, trabalhando
e até guerreando juntos. Essa convivência ímpar
deveu-se principalmente à atitude dos primeiros soberanos
muçulmanos a se estabelecerem na Península Ibérica,
no século VIII. Em 750, houve uma mudança no califado,
o poder central do então gigantesco Império Islâmico.
A dinastia dos omíadas foi deposta por uma família
rival, os abássidas. Fugindo da Síria, onde seus parentes
foram assassinados, Abd al-Rahman, o último dos omíadas,
tomou Córdoba em 756, fazendo da cidade a capital do novo
emirado hispânico. Al-Rahman transplantou para al-Andaluz
a atitude culturalmente aberta que caracterizou sua dinastia. Até
nas mesquitas que erguiam nos territórios conquistados os
omíadas buscavam integrar elementos arquitetônicos
nativos. Tinham uma interpretação muito liberal das
suras do Corão que exigem respeito a judeus e cristãos,
os outros "povos do livro". Os judeus integraram-se com entusiasmo
ao novo ambiente multicultural, prosperando na terra que chamavam
de Sefarad. No século X, um judeu chegou a ser vizir (algo
como primeiro-ministro). Os cristãos mostravam-se mais desconfiados
em relação aos governantes muçulmanos, mas
acabaram estabelecendo um rico diálogo cultural. Celebravam
até missas em árabe.
Os
omíadas governaram até o século XI, quando
a península se dividiu em taifas, verdadeiras cidades-estados
em perpétua guerra umas com as outras. Mais tarde, al-Andaluz
seria dominada por facções muçulmanas ortodoxas.
Mesmo em meio ao tumulto político, al-Andaluz constituiu
a vanguarda artística e tecnológica da Europa. Foi
lá, por exemplo, que viajantes europeus foram buscar o astrolábio,
novidade que ajudaria a traçar o rumo das navegações.
E foi em Toledo que se estabeleceu a mais importante escola de tradução
do continente, vertendo para o latim textos que então só
circulavam em árabe, incluindo clássicos da filosofia
grega.
O
ponto final da experiência islâmica na Espanha foi em
1492, quando os reis católicos Isabel e Fernando tomaram
Granada, o último reduto mouro na península. Al-Andaluz
morreria junto com Sefarad: no mesmo ano, os judeus seriam expulsos
pelos cristãos. María Rosa Menocal pergunta-se como
uma cultura da tolerância pode ter se perdido sob os escombros
da história. Há várias respostas, todas provisórias.
A peste do século XIV contribuiu para disseminar uma desconfiança
generalizada em relação a estrangeiros que talvez
carregassem a doença. Mas a peste não criou, apenas
intensificou a intolerância religiosa. O Ornamento do Mundo
sugere que uma cultura da tolerância será sempre
frágil, sitiada pelo ódio dos fanáticos. Conta
a lenda que, no dia de sua capitulação, o último
e entristecido soberano muçulmano de Granada recebeu uma
dura reprimenda da mãe: não deveria chorar como uma
mulher pela cidade que não soubera defender como um homem.
María Rosa Menocal, com seu livro elegíaco, convida
o leitor a uma discreta lágrima pela tolerância que
ficou esquecida na Idade Média.
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