Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Cinema
Barril de pólvora

Documentário transforma a
vinicultura em tema explosivo


Divulgação
Vinicultor francês da Borgonha: sob ameaça da Califórnia

As vinícolas do Vale do Napa, na Califórnia, estão desfigurando não só o caráter de seu produto, mas também o paladar dos consumidores, por difundir a "McDonaldização" de uma arte milenar: é com esse tipo de denúncia que o documentário Mondovino, exibido na semana passada no Festival de Cannes, vem provocando polvorosa não só entre críticos de cinema, mas também entre conhecedores de vinho – uma porção do público que não costuma dar muita bola para as agitações que tomam conta da Riviera Francesa em maio. O diretor de Mondovino, o americano Jonathan Nossiter, diz que partiu de uma idéia modesta. Sua intenção era apenas registrar o modo de vida peculiar das famílias de vinicultores que trabalham em pequenas propriedades, de forma artesanal, transmitindo seus conhecimentos de geração em geração para produzir bebidas preciosas. Rapidamente, porém, ele se deu conta de que tinha uma matéria mais relevante a tratar – o desaparecimento de uma cultura a cada dia mais acuada pela globalização e pela homogeneização que essa impõe. Não à toa, a direção do festival na última hora retirou o filme de uma mostra paralela para colocá-lo entre os títulos em competição.

Para demonstrar sua tese, Nossiter visitou vinhedos em diversos países, e naturalmente percorreu o interior da França, onde a vinicultura ainda subsiste nos velhos moldes. Mas tratou de contrastá-la com as "fábricas" da Califórnia, que segundo ele despejam no mercado bebidas sem nenhuma personalidade e, através de sua força econômica, vêm formando conglomerados igualmente impessoais na Austrália, na Itália e em outros países. Nas palavras do diretor, seu filme trata na verdade do que acontece "quando umas poucas pessoas concentram poder em excesso". Nossiter dá à sua reportagem ares de teoria conspiratória, e mexe em alguns vespeiros. Fariam parte desse complô contra o bom vinho, ainda que involuntariamente, enólogos influentes, cuja avaliação é o que basta para celebrizar ou enterrar um rótulo. Por causa desse tom político, Mondovino imediatamente ganhou comparações com outro documentário polêmico, Tiros em Columbine, que discorre sobre a obsessão americana por armas de fogo. É um exagero, claro, mas tem sua razão de ser: também Mondovino fala de uma questão de vida ou morte – no caso, não de vidas humanas, mas de uma das mais belas invenções da humanidade e a única outra coisa no mundo, segundo Nossiter, tão complexa quanto o próprio homem.

 
 
 
 
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