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Cinema
Câmera
indiscreta
Em
O Outro Lado da Rua, Copacabana
e Fernanda Montenegro vivem uma
velhice feia e vazia

Isabela Boscov
Divulgação
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| Fernanda
e Cortez: o humor da rispidez |
A homenagem
a Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, é explícita.
Regina (Fernanda Montenegro), que vive de espiar a vizinhança,
certa noite assiste a uma cena de assassinato no apartamento em
frente ao seu: pelo binóculo, vê um marido dar uma
injeção letal na mulher. Ou pelo menos isso é
o que ela acha ter visto, já que o suposto assassino (Raul
Cortez), que é juiz, convence a polícia de que a morte
se deu em decorrência de uma longa enfermidade. Como o personagem
de James Stewart no filme de Hitchcock, Regina obstina-se em continuar
sua vigilância até provar sua versão dos fatos
e aí O Outro Lado da Rua (Brasil/França,
2004), que estréia nesta sexta-feira no país, diverge
de seu modelo inicial para trilhar caminhos bem diferentes. Estréia
na direção de Marcos Bernstein, o roteirista de Central
do Brasil, esse misto de suspense e drama é um pequeno
compêndio sobre a solidão, a decadência e a feiúra,
não só de Regina, mas também do mundo que ela
habita o mundo dos velhos e o de uma Copacabana que, de suas
feições originais, não guarda muito mais que
o nome, mas que, como Regina, insiste em se agarrar à lembrança
do que foi um dia.
É
verdade que há alguns dados fantasiosos no filme, como o
fato de Regina trabalhar como informante para a polícia,
sob o pseudônimo de Branca de Neve, e ser recebida por ela
com razoável consideração. Mas em todo o resto
a personagem é de uma plausibilidade incômoda. Regina
finge diante do filho uma auto-suficiência que não
tem, mora num daqueles apartamentos que são um vestígio
de tempos melhores assim como suas roupas , conversa
com sua cadela que tem nome de gente, e não de bicho, e se
defende da comiseração alheia com uma rispidez que
a faz quase insuportável e à qual Fernanda
Montenegro consegue dar tintas cômicas, o que torna o filme
muito mais eficaz do que se ele se refugiasse na solenidade. Bernstein
gosta tanto de sua personagem, e com razão, que preparou
para ela uma redenção. O desfecho, porém, não
é o que realmente importa no filme. O que interessa, em O
Outro Lado da Rua, é o seu panorama assustador de um
fim de vida sem nenhuma glória e cheio de vazio e constrangimento.
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