Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Cinema
Câmera indiscreta

Em O Outro Lado da Rua, Copacabana
e Fernanda Montenegro vivem uma
velhice feia e vazia


Isabela Boscov


Divulgação
Fernanda e Cortez: o humor da rispidez

A homenagem a Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, é explícita. Regina (Fernanda Montenegro), que vive de espiar a vizinhança, certa noite assiste a uma cena de assassinato no apartamento em frente ao seu: pelo binóculo, vê um marido dar uma injeção letal na mulher. Ou pelo menos isso é o que ela acha ter visto, já que o suposto assassino (Raul Cortez), que é juiz, convence a polícia de que a morte se deu em decorrência de uma longa enfermidade. Como o personagem de James Stewart no filme de Hitchcock, Regina obstina-se em continuar sua vigilância até provar sua versão dos fatos – e aí O Outro Lado da Rua (Brasil/França, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, diverge de seu modelo inicial para trilhar caminhos bem diferentes. Estréia na direção de Marcos Bernstein, o roteirista de Central do Brasil, esse misto de suspense e drama é um pequeno compêndio sobre a solidão, a decadência e a feiúra, não só de Regina, mas também do mundo que ela habita – o mundo dos velhos e o de uma Copacabana que, de suas feições originais, não guarda muito mais que o nome, mas que, como Regina, insiste em se agarrar à lembrança do que foi um dia.

É verdade que há alguns dados fantasiosos no filme, como o fato de Regina trabalhar como informante para a polícia, sob o pseudônimo de Branca de Neve, e ser recebida por ela com razoável consideração. Mas em todo o resto a personagem é de uma plausibilidade incômoda. Regina finge diante do filho uma auto-suficiência que não tem, mora num daqueles apartamentos que são um vestígio de tempos melhores – assim como suas roupas –, conversa com sua cadela que tem nome de gente, e não de bicho, e se defende da comiseração alheia com uma rispidez que a faz quase insuportável – e à qual Fernanda Montenegro consegue dar tintas cômicas, o que torna o filme muito mais eficaz do que se ele se refugiasse na solenidade. Bernstein gosta tanto de sua personagem, e com razão, que preparou para ela uma redenção. O desfecho, porém, não é o que realmente importa no filme. O que interessa, em O Outro Lado da Rua, é o seu panorama assustador de um fim de vida sem nenhuma glória e cheio de vazio e constrangimento.

 
 
 
 
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