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Cinema
Um
filme com o maior clima
O
Dia Depois de Amanhã
não serve como
previsão do tempo.
Como diversão,
é ótimo

Isabela
Boscov
A
espécie humana tem uma atração atávica
por imaginar a própria aniquilação, e O
Dia Depois de Amanhã (The Day After Tomorrow, Estados
Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país,
se desdobra para proporcionar esse prazer. Ou, mais precisamente,
o alemão Roland Emmerich é quem se desdobra: depois
de outras encenações de destruição global
em Independence Day e Godzilla, o diretor agora acertou
a mão. No cenário impossível criado por Emmerich
e seus roteiristas (veja
quadro), Dennis Quaid é Jack Hall, o cientista
cuja voz se ergue solitária contra o poder constituído:
se o aquecimento global prosseguir no presente ritmo, diz ele, a
massa de água despejada nos mares pelo derretimento das calotas
polares irá alterar o fluxo das correntes oceânicas,
trazendo uma nova era glacial em questão de décadas.
Hall está coberto de razão, exceto no que toca ao
prazo. Mal ele entrega seu relatório ao vice-presidente americano
(um quase-sósia do atual vice, Dick Cheney) e o planeta começa
a se comportar mal. Pedras de gelo matam transeuntes em Tóquio,
uma nevasca instaura o caos em Nova Délhi, uma onda de frio
siberiano varre a Inglaterra e tornados devastam Los Angeles. De
uma estação meteorológica na Escócia
vem o aviso de que as previsões de Hall se confirmaram: a
temperatura nas águas do Atlântico Norte está
caindo vários graus a cada dia. Parece uma hecatombe
mas é só o início dela.
Fotos divulgação
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| Um
maremoto inunda Nova York, e o granizo faz vítimas no Japão
(abaixo): por duas horas, a platéia vive o impossível
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Fazer
com que, durante duas horas, a platéia se sinta na iminência
do impossível é a medida de sucesso de um filme-catástrofe,
e O Dia Depois de Amanhã passa no teste com ótimas
notas. Emmerich dosa com habilidade os dramas humanos de praxe com
a escalada do cataclismo, e nunca perde o sentido de suspense
como na seqüência cheia de presságio em que o
céu de Nova York se cobre de pássaros em migração
para o sul, em pleno verão. E é para Nova York, a
cidade que o diretor mais adora arrasar, que estão reservadas
as melhores cenas, na forma de um maremoto que primeiro inunda a
cidade e depois a deixa sob o gelo. Emmerich, além disso,
aprimorou seu senso de humor. Presos na biblioteca municipal, o
filho do cientista (o excelente Jake Gyllenhaal) e seus amigos chegam
à conclusão de que nada queima tão bem quanto
livros sobre lei fiscal. Enquanto isso, milhares de americanos tentam
cruzar ilegalmente a fronteira para o ainda tépido México
mas só passam depois que os Estados Unidos concordam
em perdoar a dívida externa da América Latina.
Quem
não acha graça dessas piadas é o gabinete do
presidente George W. Bush. Embora os fundamentos científicos
de O Dia Depois de Amanhã sejam tênues, o filme
toca num assunto escaldante para o governo americano o aquecimento
global. Quando o cientista apresenta sua tese de mudança
drástica no clima para o vice-presidente, a reação
deste é de escárnio e má-fé. A economia
é ainda mais frágil que o clima, diz o sósia
de Cheney, e não há chance de que sua administração
venha a assinar o Protocolo de Kioto, que controla a emissão
de gases associados ao efeito estufa. Esses são dados reais
o aquecimento global e a renitência americana em preveni-lo
, e a exploração deles no filme irritou de tal
forma a Presidência que ela amordaçou os órgãos
estatais que pudessem comentar esses tópicos com jornalistas.
O curioso é que o filme seja uma produção da
Fox, que faz parte da News Corporation do magnata Rupert Murdoch,
um notório aliado de Bush que terá alguma dificuldade
em explicar ao amigo o golpe desferido contra ele por uma empresa
de seu grupo. Como previsão do tempo, O Dia Depois de
Amanhã é um fiasco. Mas, como diversão
e provocação, não poderia ser mais bem-sucedido.
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A
ficção e os fatos
O
QUE SE SABE...
A porção superior do Hemisfério
Norte é habitável em parte devido à
circulação das correntes oceânicas,
que carregam a água quente dos trópicos
para as regiões mais frias e, assim, elevam também
a temperatura atmosférica
...O
QUE O FILME DIZ...
O efeito cumulativo do aquecimento global faz com
que a água doce e gelada das calotas polares
altere o equilíbrio dos oceanos, "desligando"
correntes importantes, como a do Golfo. Sem essa circulação
de água mais quente, Nova York é submersa
num maremoto de gelo, a Inglaterra enfrenta um frio
siberiano e até Nova Délhi, na Índia,
fica coberta de neve
...E
O QUE A CIÊNCIA ARGUMENTA
Primeiro, uma ruptura tão veloz das correntes
oceânicas é uma impossibilidade física
ainda mais porque acredita-se não haver
mais água em volume suficiente nas calotas polares
para provocar esse efeito. Depois, mesmo que as temperaturas
despencassem de uma hora para outra, o frio resultante
interromperia o processo de derretimento das calotas
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