Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Cinema
Um filme com o maior clima

O Dia Depois de Amanhã não serve como
previsão do tempo. Como diversão, é ótimo


Isabela Boscov

DA INTERNET
Trailer

A espécie humana tem uma atração atávica por imaginar a própria aniquilação, e O Dia Depois de Amanhã (The Day After Tomorrow, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, se desdobra para proporcionar esse prazer. Ou, mais precisamente, o alemão Roland Emmerich é quem se desdobra: depois de outras encenações de destruição global em Independence Day e Godzilla, o diretor agora acertou a mão. No cenário impossível criado por Emmerich e seus roteiristas (veja quadro), Dennis Quaid é Jack Hall, o cientista cuja voz se ergue solitária contra o poder constituído: se o aquecimento global prosseguir no presente ritmo, diz ele, a massa de água despejada nos mares pelo derretimento das calotas polares irá alterar o fluxo das correntes oceânicas, trazendo uma nova era glacial em questão de décadas. Hall está coberto de razão, exceto no que toca ao prazo. Mal ele entrega seu relatório ao vice-presidente americano (um quase-sósia do atual vice, Dick Cheney) e o planeta começa a se comportar mal. Pedras de gelo matam transeuntes em Tóquio, uma nevasca instaura o caos em Nova Délhi, uma onda de frio siberiano varre a Inglaterra e tornados devastam Los Angeles. De uma estação meteorológica na Escócia vem o aviso de que as previsões de Hall se confirmaram: a temperatura nas águas do Atlântico Norte está caindo vários graus a cada dia. Parece uma hecatombe – mas é só o início dela.

 
Fotos divulgação
Um maremoto inunda Nova York, e o granizo faz vítimas no Japão (abaixo): por duas horas, a platéia vive o impossível

Fazer com que, durante duas horas, a platéia se sinta na iminência do impossível é a medida de sucesso de um filme-catástrofe, e O Dia Depois de Amanhã passa no teste com ótimas notas. Emmerich dosa com habilidade os dramas humanos de praxe com a escalada do cataclismo, e nunca perde o sentido de suspense – como na seqüência cheia de presságio em que o céu de Nova York se cobre de pássaros em migração para o sul, em pleno verão. E é para Nova York, a cidade que o diretor mais adora arrasar, que estão reservadas as melhores cenas, na forma de um maremoto que primeiro inunda a cidade e depois a deixa sob o gelo. Emmerich, além disso, aprimorou seu senso de humor. Presos na biblioteca municipal, o filho do cientista (o excelente Jake Gyllenhaal) e seus amigos chegam à conclusão de que nada queima tão bem quanto livros sobre lei fiscal. Enquanto isso, milhares de americanos tentam cruzar ilegalmente a fronteira para o ainda tépido México – mas só passam depois que os Estados Unidos concordam em perdoar a dívida externa da América Latina.

Quem não acha graça dessas piadas é o gabinete do presidente George W. Bush. Embora os fundamentos científicos de O Dia Depois de Amanhã sejam tênues, o filme toca num assunto escaldante para o governo americano – o aquecimento global. Quando o cientista apresenta sua tese de mudança drástica no clima para o vice-presidente, a reação deste é de escárnio e má-fé. A economia é ainda mais frágil que o clima, diz o sósia de Cheney, e não há chance de que sua administração venha a assinar o Protocolo de Kioto, que controla a emissão de gases associados ao efeito estufa. Esses são dados reais – o aquecimento global e a renitência americana em preveni-lo –, e a exploração deles no filme irritou de tal forma a Presidência que ela amordaçou os órgãos estatais que pudessem comentar esses tópicos com jornalistas. O curioso é que o filme seja uma produção da Fox, que faz parte da News Corporation do magnata Rupert Murdoch, um notório aliado de Bush – que terá alguma dificuldade em explicar ao amigo o golpe desferido contra ele por uma empresa de seu grupo. Como previsão do tempo, O Dia Depois de Amanhã é um fiasco. Mas, como diversão e provocação, não poderia ser mais bem-sucedido.

 

A ficção e os fatos

O QUE SE SABE...
A porção superior do Hemisfério Norte é habitável em parte devido à circulação das correntes oceânicas, que carregam a água quente dos trópicos para as regiões mais frias e, assim, elevam também a temperatura atmosférica

...O QUE O FILME DIZ...
O efeito cumulativo do aquecimento global faz com que a água doce e gelada das calotas polares altere o equilíbrio dos oceanos, "desligando" correntes importantes, como a do Golfo. Sem essa circulação de água mais quente, Nova York é submersa num maremoto de gelo, a Inglaterra enfrenta um frio siberiano e até Nova Délhi, na Índia, fica coberta de neve

...E O QUE A CIÊNCIA ARGUMENTA
Primeiro, uma ruptura tão veloz das correntes oceânicas é uma impossibilidade física ­ ainda mais porque acredita-se não haver mais água em volume suficiente nas calotas polares para provocar esse efeito. Depois, mesmo que as temperaturas despencassem de uma hora para outra, o frio resultante interromperia o processo de derretimento das calotas

 
 
 
 
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