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Pesquisa
O Leão insaciável
O
IBGE mostra que o
gasto das famílias
com impostos diretos quadruplicou
nos últimos trinta anos

Lucila
Soares
Nos
últimos trinta anos o Brasil passou por um inegável
progresso. Firmou-se como país urbano e industrial, modernizou
o campo, melhorou o acesso da população a serviços
básicos como saúde e educação e também
a serviços sofisticados, como informática e telefonia
celular. No mesmo período, entretanto, o brasileiro empobreceu,
endividou-se, reduziu sua capacidade de poupança e, principalmente,
financiou o crescimento de um Estado cada vez mais gastador e ineficiente.
Esse é o retrato do Brasil que emerge da Pesquisa de Orçamentos
Familiares, divulgada na semana passada pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa é a
maior do gênero já realizada no país. Foi a
campo entre julho de 2002 e julho de 2003 e colheu informações
em 48.470 domicílios de todas as regiões. Comparada
ao levantamento feito entre 1974 e 1975, quando o país ainda
vivia os ecos do milagre brasileiro, traz números impressionantes.
Mostra que as despesas cotidianas absorvem hoje praticamente toda
a renda. Nos anos 70, essas despesas, que incluem alimentação,
habitação, vestuário, transporte e outras,
mais taxas e impostos diretos, absorviam cerca de 80% do orçamento.
Em 2003, esse porcentual subiu para 93%. Um dos gastos que subiram
de forma mais vertiginosa foi exatamente o destinado a satisfazer
a voracidade do Estado. Em trinta anos, a despesa do brasileiro
com impostos diretos multiplicou-se por quatro. Passou de 1,19%
para 4,46% do orçamento (veja
quadros).
Preste
atenção: o IBGE não mediu o que o cidadão
paga de impostos toda vez que faz uma compra, telefona, põe
gasolina no carro ou acende a luz. Ou seja, passou longe de uma
dimensão real do peso dos impostos no orçamento doméstico,
que é parte importante da monumental carga tributária
de 36% do produto interno bruto, isto é, de tudo o que o
país produz em bens e serviços. Ainda assim, medindo
apenas uma parcela dos tributos vê-se que eles representam
mais que o gasto médio das famílias com educação,
que é de 4,1% das despesas de consumo. As conseqüências
são sérias. "Isso sacrifica o crescimento. O dinheiro
que a família teria disponível para educar-se, capacitando-se
a gerar mais renda, está sendo transferido ao Estado", diz
o economista Eduardo Giannetti, do Ibmec. Pior: está sendo
transferido ao Estado para ele gastar em despesa corrente, e não
para devolver à sociedade em serviços o que ela pagou
em impostos. Não se trata de negar os avanços em educação
e saúde, por exemplo. Mas a qualidade dos serviços
é ruim. E o Estado tem se mostrado claramente incapaz de
enfrentar problemas graves, como o enorme déficit habitacional,
a escalada da violência nas grandes cidades ou a precariedade
da infra-estrutura de transportes.
O
sorvedouro estatal tem três vertentes. A necessidade de financiamento
da dívida pública, que corresponde a 56% do PIB, faz
o juro real brasileiro ser o segundo maior do mundo e dá
origem a uma conta que absorve 7% do PIB. O rombo da Previdência
Social engole outros 7%. Para completar, existe um emaranhado de
impostos e atribuições municipais, estaduais e federais
que aprofunda o fosso entre o que o cidadão paga e o que
recebe. A conta é de Eduardo Giannetti. A Constituição
de 1988 aumentou a receita de Estados e municípios em 6,4%
do PIB. Num Estado genuinamente federativo, seria lógico
que a receita da União caísse proporcionalmente, uma
vez que as atribuições teriam sido divididas. Mas
a União manteve atribuições superpostas às
de Estados e municípios e, claro, continuou cobrando por
elas. E ainda criou mecanismos de arrecadação destinados
exclusivamente ao financiamento de todo esse rombo, como a CPMF.
As
conseqüências saltam aos olhos na radiografia do orçamento
doméstico. Não sobra quase nada para investimento
e poupança. Esse gasto teve sua participação
reduzida de 16,5% para 4,7% no conjunto de despesas das famílias.
Um resultado particularmente grave num país onde a poupança
interna, de apenas 18% do PIB, é claramente insuficiente
para retomar o crescimento. Para se ter uma idéia, na Coréia
do Sul a taxa de poupança é de 38% do PIB. O dado
que completa o quadro preocupante é a queda de quase 50%
da parcela do orçamento destinada ao pagamento de dívidas
de 3,64% para 1,98%. Isso não significa apenas que
as famílias não têm dinheiro para quitar dívidas
já contraídas. O aperto no cinto é real, e
aparece em outra informação estarrecedora, de que
85% das famílias brasileiras gastam mais do que recebem.
Mas o pior significado dessa queda é a confirmação
de que não há crédito, o que joga para um horizonte
incerto a retomada do crescimento.
O
lado positivo desse quadro tão sombrio é a própria
pesquisa. As decisões tomadas privadamente sobre em que gastar
o dinheiro que se ganha com o trabalho, a aposentadoria ou qualquer
outra fonte de renda formam um painel precioso sobre o que vai bem
ou mal num país. A análise desse conjunto não
vai trazer soluções para as mazelas estruturais do
Estado brasileiro. Mas permitirá planejar ações,
estabelecer prioridades e fazer as correções necessárias
em programas já em curso. Diz Marcelo Neri, do Centro de
Políticas Sociais da Fundação Getúlio
Vargas: "A pesquisa mostra o que as pessoas estão conseguindo
fazer e onde o Estado deveria estar agindo, aportando políticas
e recursos".
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