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Petróleo
O
petróleo embaça o cenário
Apesar
da alta mundial, a Petrobras
não aumenta a gasolina no Brasil, mas
isso gera ainda mais incerteza

Marcelo
Carneiro
Fotomontagem/Alexandre Battibugli
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| Petróleo
em disparada: no Brasil, postos à espera da Petrobras
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Os
analistas econômicos costumam dizer que um cenário
de crise começa a desenhar-se quando ocorre uma conjunção
de eventos desfavoráveis. Na semana passada, foi esse o motivo
de alarme em todo o mundo. Depois de atingir o preço mais
alto desde a Guerra do Golfo, o petróleo cedeu, mas resiste
no elevado patamar de 40 dólares o barril, o que, junto com
a expectativa de alta dos juros nos Estados Unidos e de desaquecimento
da economia na China, forma uma combinação desconfortável.
Como conseqüência, as bolsas desabaram mundo afora. No
Brasil, a turbulência externa foi o motivo alegado pelo Comitê
de Política Monetária (Copom) do Banco Central para
manter a taxa de juros em 16%. A decisão, muito questionada,
contribuiu para a escalada do risco Brasil e do dólar, que
atingiu sua mais alta cotação desde abril do ano passado
mas demonstra uma preocupação com o quadro
externo que está longe de ser injustificada. No entanto,
um setor estratégico mantém-se impávido diante
da nuvem de incerteza que se aproxima. Apesar de a alta internacional
do petróleo já chegar a 25% desde o início
do ano, a Petrobras não reajustou os preços da gasolina
e do diesel. Está na contramão da maioria dos países.
Na Alemanha, por exemplo, o preço já subiu 20% desde
fevereiro (veja quadro).
A
posição da empresa levanta uma suspeita óbvia.
Apesar de ser uma empresa aberta, com ações em bolsa,
a estatal estaria esperando uma ordem do Palácio do Planalto
para efetivar o reajuste. Em tese, esse tipo de interferência
não existe desde janeiro de 2002, quando o governo abriu
mão de regular os preços nesse setor. Aparentemente,
não é o que vem ocorrendo, numa prática que,
justiça seja feita, não é prerrogativa do governo.
Situações dessa natureza foram corriqueiras durante
os cinqüenta anos em que o governo teve mão forte sobre
os preços dos derivados de petróleo. Pelo seu tamanho,
qualquer espirro da Petrobras nessa área pode, de fato, transformar-se
em uma gripe para a economia brasileira. Uma elevação
do preço do combustível tem impacto imediato sobre
todos os preços. É compreensível que o governo
esteja atento à política de preços do setor.
Mas essa deve ser uma preocupação da equipe econômica,
não da Petrobras.
Nos
últimos dois anos, a empresa recebeu 400.000 novos acionistas,
boa parte formada por trabalhadores que usaram seu FGTS. A companhia
tem ações na Bolsa de Nova York e conseguiu baixar
seus custos de financiamento no exterior graças à
profissionalização e ao esforço de transparência
em sua gestão. Qualquer mudança nesse panorama seria
um retrocesso. "A Petrobras tem compromisso com seus acionistas,
que não querem ver a empresa perdendo dinheiro", diz o consultor
David Zylbersztajn, ex-presidente da Agência Nacional de Petróleo.
Na terça-feira, quando foi lançado o plano estratégico
da empresa, os executivos da Petrobras apressaram-se em dizer que
a demora em reajustar seus preços não significava
que caberia ao Palácio do Planalto essa decisão. Então,
qual a razão para a espera? "É preciso ter certeza
de qual é a verdadeira tendência antes de repassar
o custo ao consumidor", disse a VEJA, na noite de quinta-feira,
o presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, que estava
em Nova York para apresentar a investidores estrangeiros o novo
plano da companhia.
É
verdade que, em momentos de turbulência, o barril de petróleo
oscila ao sabor da especulação. Em fevereiro do ano
passado, às vésperas da guerra no Iraque, a cotação
já havia batido perto de 40 dólares. Dois meses depois,
recuou para 23 dólares. Mas o fato é que, nas duas
últimas semanas, ficou claro que essa alta já determinou
um novo patamar de preço. O recrudescimento do conflito no
Oriente Médio, dono da maior parte das reservas petrolíferas
no planeta, e o aumento do consumo nos Estados Unidos reforçaram
essa tendência. Para complicar ainda mais a situação,
a Organização dos Países Exportadores de Petróleo
(Opep) disse que pouco pode fazer para conter a escalada dos preços
do produto. Portanto, a cada dia que a Petrobras adia a decisão
de aumentar seus preços a companhia perde alguns milhões
de dólares e contribui para amplificar internamente a turbulência
internacional.
Isso
é, aliás, tudo de que o país não precisa.
Apesar dos sinais inequívocos dados pelo presidente Lula,
integrantes do governo e da base aliada têm se notabilizado
por ações desastradas e impulsos contraditórios
que jogam por terra o esforço, até pouco tempo atrás
bem-sucedido, de convencer o mercado de que os fundamentos da economia
brasileira vão bem e de que há respeito pela
lógica econômica. No início do ano, quando os
investidores internacionais viviam uma espécie de lua-de-mel
com o governo do PT, o Copom interrompeu a trajetória de
queda dos juros argumentando risco de escalada inflacionária.
Depois vieram o escândalo Waldomiro Diniz, as divergências
públicas em torno do salário mínimo, a incrível
derrota do governo na MP dos bingos, a crise envolvendo a reportagem
do correspondente do New York Times sobre os hábitos
do presidente. Um conjunto feito sob medida para deixar o mercado
inquieto e atiçar a especulação. Na semana
passada, em vez de enviar um estímulo tranqüilizador,
o Copom fez o contrário. Ao manter os juros em 16%, informou
que considera a crise externa grave e, pior que isso, que o Brasil
continua vulnerável.
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