Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Petróleo
O petróleo embaça o cenário

Apesar da alta mundial, a Petrobras
não aumenta a gasolina no Brasil, mas
isso gera ainda mais incerteza


Marcelo Carneiro

 
Fotomontagem/Alexandre Battibugli
Petróleo em disparada: no Brasil, postos à espera da Petrobras

Os analistas econômicos costumam dizer que um cenário de crise começa a desenhar-se quando ocorre uma conjunção de eventos desfavoráveis. Na semana passada, foi esse o motivo de alarme em todo o mundo. Depois de atingir o preço mais alto desde a Guerra do Golfo, o petróleo cedeu, mas resiste no elevado patamar de 40 dólares o barril, o que, junto com a expectativa de alta dos juros nos Estados Unidos e de desaquecimento da economia na China, forma uma combinação desconfortável. Como conseqüência, as bolsas desabaram mundo afora. No Brasil, a turbulência externa foi o motivo alegado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central para manter a taxa de juros em 16%. A decisão, muito questionada, contribuiu para a escalada do risco Brasil e do dólar, que atingiu sua mais alta cotação desde abril do ano passado – mas demonstra uma preocupação com o quadro externo que está longe de ser injustificada. No entanto, um setor estratégico mantém-se impávido diante da nuvem de incerteza que se aproxima. Apesar de a alta internacional do petróleo já chegar a 25% desde o início do ano, a Petrobras não reajustou os preços da gasolina e do diesel. Está na contramão da maioria dos países. Na Alemanha, por exemplo, o preço já subiu 20% desde fevereiro (veja quadro).

A posição da empresa levanta uma suspeita óbvia. Apesar de ser uma empresa aberta, com ações em bolsa, a estatal estaria esperando uma ordem do Palácio do Planalto para efetivar o reajuste. Em tese, esse tipo de interferência não existe desde janeiro de 2002, quando o governo abriu mão de regular os preços nesse setor. Aparentemente, não é o que vem ocorrendo, numa prática que, justiça seja feita, não é prerrogativa do governo. Situações dessa natureza foram corriqueiras durante os cinqüenta anos em que o governo teve mão forte sobre os preços dos derivados de petróleo. Pelo seu tamanho, qualquer espirro da Petrobras nessa área pode, de fato, transformar-se em uma gripe para a economia brasileira. Uma elevação do preço do combustível tem impacto imediato sobre todos os preços. É compreensível que o governo esteja atento à política de preços do setor. Mas essa deve ser uma preocupação da equipe econômica, não da Petrobras.

Nos últimos dois anos, a empresa recebeu 400.000 novos acionistas, boa parte formada por trabalhadores que usaram seu FGTS. A companhia tem ações na Bolsa de Nova York e conseguiu baixar seus custos de financiamento no exterior graças à profissionalização e ao esforço de transparência em sua gestão. Qualquer mudança nesse panorama seria um retrocesso. "A Petrobras tem compromisso com seus acionistas, que não querem ver a empresa perdendo dinheiro", diz o consultor David Zylbersztajn, ex-presidente da Agência Nacional de Petróleo. Na terça-feira, quando foi lançado o plano estratégico da empresa, os executivos da Petrobras apressaram-se em dizer que a demora em reajustar seus preços não significava que caberia ao Palácio do Planalto essa decisão. Então, qual a razão para a espera? "É preciso ter certeza de qual é a verdadeira tendência antes de repassar o custo ao consumidor", disse a VEJA, na noite de quinta-feira, o presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, que estava em Nova York para apresentar a investidores estrangeiros o novo plano da companhia.

É verdade que, em momentos de turbulência, o barril de petróleo oscila ao sabor da especulação. Em fevereiro do ano passado, às vésperas da guerra no Iraque, a cotação já havia batido perto de 40 dólares. Dois meses depois, recuou para 23 dólares. Mas o fato é que, nas duas últimas semanas, ficou claro que essa alta já determinou um novo patamar de preço. O recrudescimento do conflito no Oriente Médio, dono da maior parte das reservas petrolíferas no planeta, e o aumento do consumo nos Estados Unidos reforçaram essa tendência. Para complicar ainda mais a situação, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) disse que pouco pode fazer para conter a escalada dos preços do produto. Portanto, a cada dia que a Petrobras adia a decisão de aumentar seus preços a companhia perde alguns milhões de dólares e contribui para amplificar internamente a turbulência internacional.

Isso é, aliás, tudo de que o país não precisa. Apesar dos sinais inequívocos dados pelo presidente Lula, integrantes do governo e da base aliada têm se notabilizado por ações desastradas e impulsos contraditórios que jogam por terra o esforço, até pouco tempo atrás bem-sucedido, de convencer o mercado de que os fundamentos da economia brasileira vão bem – e de que há respeito pela lógica econômica. No início do ano, quando os investidores internacionais viviam uma espécie de lua-de-mel com o governo do PT, o Copom interrompeu a trajetória de queda dos juros argumentando risco de escalada inflacionária. Depois vieram o escândalo Waldomiro Diniz, as divergências públicas em torno do salário mínimo, a incrível derrota do governo na MP dos bingos, a crise envolvendo a reportagem do correspondente do New York Times sobre os hábitos do presidente. Um conjunto feito sob medida para deixar o mercado inquieto e atiçar a especulação. Na semana passada, em vez de enviar um estímulo tranqüilizador, o Copom fez o contrário. Ao manter os juros em 16%, informou que considera a crise externa grave e, pior que isso, que o Brasil continua vulnerável.

 

 

 
 
 
 
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