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Especial
Design,
o poder do belo
A
beleza e o estilo ganham o centro das
atenções no mundo de hoje e influenciam
a economia, o comportamento e a cultura

Gabriela
Carelli
Divulgação
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O
NOVO QUE VIROU CLÁSSICO
Aspirador de pó Dual Cyclone, de 1996,
exposto no Museu de Design de Londres: entre as peças
mais eficientes e ousadas do século |
Só
as pessoas fúteis não fazem julgamentos baseados na
aparência. O verdadeiro mistério do mundo são
as coisas visíveis, não as invisíveis." A frase
acima, escrita pelo autor irlandês Oscar Wilde (1854-1900),
atravessou um século sendo repetida apenas como uma provocação
e soando para muitos quase como um insulto. Pois bem, neste começo
de século e milênio ela define uma atitude que tem
enorme peso nas relações pessoais e que é fundamental
na definição de sucesso ou fracasso de carreiras,
empresas e produtos. A arte de fazer coisas belas, o design, tornou-se
um componente vital da economia moderna. O termo design, da língua
inglesa, está dicionarizado em português e definido
pelo Dicionário Aurélio como "concepção
de um projeto ou modelo". No mercado de trabalho em empresas de
ponta e altamente competitivas, os designers são hoje mais
bem pagos e admirados do que os engenheiros e administradores. Um
dos primeiros estudiosos a detectar e explicitar essa tendência
foi o guru econômico americano Tom Peters. Diz ele: "Posso
escrever sem esforço uma centena de situações
em que o design é decisivo no mundo. Ele varia da aparência
física de um quarto ao artista que faz a maquiagem de um
apresentador de televisão. As pausas e os improvisos brilhantes
nos discursos de Winston Churchill e os computadores da Apple são
materializações de excelência no design. O design
é tudo aquilo que torna uma coisa cotidiana mais usável
ou desejável. Eu diria que viveremos daqui para a frente
em um mundo em que a forma das coisas adquirirá mais e mais
poder".
Ao
americano Steve Jobs, o chefão da empresa de computadores
Apple, citada por Tom Peters, atribui-se o feito de ter salvado
sua companhia da falência simplesmente desenhando produtos
irresistíveis. O mais recentes deles, o iPod, um pequeno
tocador de músicas em MP3, tornou-se uma mania mundial e
a grande fonte de receita da empresa de Jobs, superando os computadores
Mac em unidades vendidas. Jobs tem uma definição de
design que resume como poucos sua importância no mundo atual:
"O design é a alma das criações humanas". Pode
ser um sacrilégio, mas, se não é a alma, o
desenho de um produto tornou-se nos dias de hoje o principal componente
de sua trajetória no mercado. A elevação de
uma peça qualquer à condição de ícone
e sonho de consumo ou seu esquecimento nas prateleiras das lojas
depende muito mais da forma que de outras características.
Diz Peters: "O design já foi apenas um departamento das indústrias
onde se dava o acabamento aos produtos. Hoje ele é, ou pelo
menos deveria ser, o centro das atenções de todos.
O desenho da gravata do executivo principal, a forma da linha de
montagem, a capacidade de comunicação da logomarca
da companhia ou a sinalização das portas de emergência
fazem parte da mesma mensagem que a empresa emite para o público
externo. É por esses sinais aparentes que ela será
julgada".
fsen
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Fotos divulgação Bang Olufsen
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A
FORMA E A FUNÇÃO
Versão reformulada do infusor de chá Bauhaus,
de 1924, lançada pela italiana Alessi, e o novo tocador
de CD e DVD da dinamarquesa Bang & Olufsen: o impacto das
formas |
Até
pouco tempo atrás, a palavra design evocava produtos de aparência
extravagante e, sobretudo, caros. O conceito está hoje totalmente
mudado. Pela primeira vez na história, o cuidado estético
com objetos, aparelhos, prédios e ambientes não está
restrito a uma elite social econômica ou artística,
limitado a alguns segmentos da indústria, nem está
sendo feito, usado ou adquirido para passar a idéia apenas
de refinamento. O apelo estético está em todos os
lugares, em todas as coisas e, felizmente, se tornou acessível
a quase todos. A origem dessa popularização repousa,
em boa parte, numa mudança de percepção por
parte da indústria e do comércio. Tradicionalmente,
a forma de um produto era mero complemento de sua funcionalidade.
No desenvolvimento de um objeto utilitário ou um aparelho,
apostavam-se todas as fichas em sua qualidade, eficiência
e durabilidade a aparência era um detalhe adicionado
no fim do processo. Criar produtos nos quais a probabilidade de
surgir defeitos era próxima de zero foi o mantra entoado
pelas corporações. O resultado é que, em inúmeros
segmentos, os produtos concorrentes ficaram muito semelhantes. Como
se diferenciar e chamar a atenção do consumidor para
determinada marca? Resposta: fazendo com que o produto, além
de cumprir bem sua função específica, atraia
pela beleza, ou pelo estilo inusitado, ou por uma aparência
identificada com o próprio jeito de ser e de pensar de seu
usuário. Em suma, pelo design.
Fotos Nicola Zocchi
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occhi
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ESTÉTICA
NA COZINHA
Espremedor de frutas (à esq.) e escorredor
de macarrão, ambos do francês Philippe Starck:
o glamour no dia-a-dia doméstico |
Essa
nova configuração é a economia do design. Apesar
do nome, não se trata de um mero fenômeno industrial
e comercial, e sim de uma inédita confluência de tecnologia
e cultura. A própria expressão design superou a definição
original, ligada a peças únicas de decoração,
e abrange agora um espaço amplo. Serve para tornar os ambientes
de trabalho mais prazerosos, melhorando a produtividade das empresas.
Também está presente no hermético desenho dos
circuitos eletrônicos no chip de memória dos computadores.
"Foi o design que conseguiu comprimir dentro de uma ambulância
e, mais tarde, de um helicóptero os aparelhos imprescindíveis
para emergências médicas", diz Flávio Murachovsky,
vice-presidente de tecnologia do Hospital Israelita Albert Einstein,
em São Paulo. Os objetos de design passaram a ser consumidos
em larga escala, tornando o cotidiano das pessoas mais agradável.
"Depois de passar um século focados em outros objetivos,
como resolver problemas de fabricação e baixar custos,
estamos cada vez mais engajados em tornar nosso mundo especial,
e o design é fundamental para isso", pondera a filósofa
americana Ellen Dissanayake, da Universidade de Maryland.
Divulgação
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CANIVETE
CIBERNÉTICO
Mesmo o tradicional canivete suíço foi
reinventado: vem com cartão de memória com capacidade
de até 128 MB |
Se
antes o design era uma criação de ateliês, hoje
ele representa o bom gosto em escala industrial. No novo xadrez
da economia do design, os jogadores são as grandes corporações,
como a Philips e a Sony. Mesmo os grandes designers que antes desenhavam
para poucos clientes endinheirados, como o francês Philippe
Starck e o americano Michael Graves, hoje trabalham para empresas
que fabricam suas criações em grande escala e as distribuem
para lojas de departamentos e supermercados e, graças
à escala, com preços em conta. Com sua popularização,
o design tornou-se um combustível de peso das economias.
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A
VOLTA DE UM ÍCONE
A garrafa da Coca-Cola, lançada em 1915 e de
novo no mercado: inspiração nas formas femininas
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Os
designers são a parte mais visível de uma nova e cada
vez mais influente categoria de profissionais, a daqueles que usam
a criatividade como fator-chave nos negócios, na educação,
na medicina, no direito ou em qualquer outra profissão. Autor
de The Rise of the Creative Class (A Ascensão da Classe
Criativa), o americano Richard Florida, professor de economia na
Universidade Carnegie Mellon, diz que são eles que estão
dando forma ao modo como trabalhamos, aos nossos valores e desejos
ou seja, tornaram-se a grande "filosofia visual" do nosso
cotidiano. "Como essa criatividade é o motor do crescimento
econômico, em termos de influência a classe criativa
está se tornando a classe dominante em nossa sociedade",
escreveu Florida.
Nos
anos 20, a presidência das grandes corporações
era em geral ocupada por um engenheiro. Nos anos 50, o posto muito
provavelmente caía no colo de um dos administradores mais
brilhantes da empresa. Os advogados reinaram nas décadas
de 60 e 70. Nos anos 80, foi a vez dos homens de marketing. Hoje,
o líder empresarial precisa ter sólido vínculo
com o design e o processo criativo de outra forma, sua empresa
arrisca-se a perder a sintonia fina com o mercado.
Warnaco Inc.
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Divulgação Healtech
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PARA
O FUTURO
Protótipo de carrinho de supermercado com divisórias
e balanço para as crianças (à esq.).
À direita, instrumento para cirurgia de sinusite cujo
design minimiza os traumas operatórios |
O aumento
na oferta de produtos com desenho inovador acabou por criar uma
via de mão dupla: o consumidor também passou a exigir
objetos mais bonitos e com os quais se identifique. "Vivemos uma
época única, em que a estética se tornou prioridade
porque ficou mais fácil enfeitar nosso dia-a-dia, nossa vida,
e desejamos fazê-lo", disse a VEJA a jornalista americana
Virginia Postrel, autora do recém-lançado livro The
Substance of Style How the Rise of Aesthetic Value
Is Remaking Commerce, Culture & Consciousness (A Essência
do Estilo Como a Valorização da Estética
Está Mudando o Comércio, a Cultura e a Consciência).
Virginia chama atenção para o fato de que a revolução
do design se deu não apenas nos produtos industriais, mas
também nos ambientes que freqüentamos e nos quais vivemos.
Foi justamente ao compreender o papel vital do ambiente na experiência
do consumidor que a IDEO, baseada na Califórnia, se tornou
a mais inovadora e requisitada empresa de seu ramo nos Estados Unidos.
Além de criar produtos e embalagens, ela se especializou
em organizar espaços físicos.
Uma
de suas experiências mais interessantes ocorreu com a maior
rede de hospitais americanos, a Kaiser Permanente. Para resolver
uma série de queixas e problemas ligados ao atendimento,
os executivos da Kaiser viam a necessidade de construir novos e
caríssimos edifícios. Para ajudá-los a projetar
as novas instalações, contrataram a IDEO e logo tiveram
uma surpresa. A firma redesenhou os espaços, criando salas
de espera mais confortáveis e consultórios menos gélidos.
O problema da Kaiser foi resolvido sem a construção
de um único prédio novo. "A IDEO nos mostrou que precisamos
construir experiências humanas e não edifícios",
disse Adam Nemer, da Kaiser, à revista Business Week,
que estampou a IDEO na capa de uma de suas últimas edições.
Fotos divulgação
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lgação
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NA
SALA E NA COPA
Cadeira Corallo, dos irmãos Campana (à
esq.), e cortador de pães da padaria francesa Poilâne:
o visual inusitado se espalha pela casa |
Na
arquitetura, os novos cartões-postais que surgem nas grandes
metrópoles mundiais mostram que hoje a forma é tão
ou mais importante que a função. E que
a combinação de ambas é imprescindível
para o sucesso. Milhares de pessoas vão semanalmente visitar
o museu Guggenheim, inaugurado em 1997 em Bilbao, e todos o conhecem
por fotografias, mas... alguém é capaz de citar uma
única obra que ele abriga? Sabe-se que o Louvre, em Paris,
guarda a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, assim como o Museu
do Prado, em Madri, hospeda a melhor produção pictórica
de Francisco Goya. Quanto ao Guggenheim de Bilbao, sua fama reside
na construção, e não em seu acervo. Foram as
silhuetas acintosamente assimétricas criadas pelo arquiteto
canadense Frank Gehry que transformaram a maior cidade do País
Basco num pólo turístico internacional.
Monumentos
como esses inevitavelmente convidam à reflexão de
que, na era do design, os arquitetos conquistam mais reconhecimento
e são mais famosos do que os pintores ou escultores. "O grande
desafio do arquiteto contemporâneo é construir obras
capazes de atrair cada vez mais pessoas", afirma Ruy Ohtake, que
vem ajudando a transformar a paisagem de São Paulo com seus
projetos ousados. Entre os prédios erguidos por Ohtake está
um hotel em forma de meia-lua (ou meia melancia, dependendo do observador)
que causa espanto e faz com que os pedestres (e motoristas) se detenham
para apreciá-lo. "Hoje há uma procura cada vez maior
pela beleza, as pessoas querem lugares bonitos para morar ou visitar",
ele completa. Como se pode deduzir, boa parte das transformações
no mundo do design se beneficiou de recentes e significativos avanços
na tecnologia. As obras de Frank Gehry só estão de
pé graças à utilização do Catia,
um software destinado à construção de aeronaves
militares que o arquiteto adaptou para criar suas curvas e ondulações.
De outra forma, os calculistas levariam anos para projetar cada
um de seus prédios.
O
mesmo se dá com muito mais força no mundo dos automóveis.
"Sem a evolução da computação gráfica,
a partir dos anos 90, não seria possível construir
os elegantes faróis atuais sem perda de intensidade na transmissão
da luz", informa Wagner Dias, responsável pelo setor de design
da General Motors do Brasil. A tecnologia avançou também
na quantidade e na qualidade de materiais disponíveis. "Há
hoje milhares de tipos de plástico, o que permite utilizações
desse material nunca antes imaginadas", disse a VEJA Bill Moggridge,
um dos fundadores da IDEO.
O
design industrial surgiu junto com a Revolução Industrial.
Os primeiros designers, a maioria artistas, tinham a tarefa de transformar
produtos recém-lançados em artefatos agradáveis
ao olhar. Afinal, os ornamentos sempre foram um alimento para o
espírito humano. Eles não criavam novas formas, apenas
repetiam as já conhecidas inspirados principalmente em linhas
neoclássicas e gregas. A primeira grande evolução
no design ocorreu na Alemanha dos anos 20, com o surgimento da chamada
escola Bauhaus. Fiéis ao espírito modernista da época,
seus ideólogos, como Walter Gropius, defendiam produtos despidos
de qualquer enfeite: o importante era que a forma servisse à
função. "Ornamento é crime", decretou certa
vez Peter Behrens, um dos designers responsáveis pelas formas
que vários utensílios de cozinha até hoje possuem.
A segunda fase marcante do design ocorreu nos anos 50. Os avanços
tecnológicos da II Guerra permitiram que se criassem produtos
mais eficientes com custos mais baixos. Foi a época de popularização
dos eletrodomésticos, que ganharam uma aparência mais
"moderna", compatível com o notável crescimento econômico
dos Estados Unidos. Entre as décadas de 60 e 90, o design
acompanhou as mudanças de comportamento na sociedade e beneficiou-se
das novas tecnologias, principalmente nos materiais mas continuou
atrelado à funcionalidade. "Sempre defendi que um produto
tinha de ser sobretudo funcional, mas hoje admito que a beleza passou
a ser uma prioridade do consumidor", disse a VEJA Donald Norman,
professor de psicologia da Universidade Northwestern, fundador da
firma de consultoria Nielsen Norman e autor do livro Emotional
Design Why We Love (or Hate) Everyday Things (Design
Emocional Por que Adoramos [ou Odiamos] os Objetos do Dia-a-Dia).
A liberdade hoje desfrutada pelos designers, arquitetos e estilistas
representa não apenas uma tendência, mas uma grande
virada ideológica. Através da história, os
profissionais dessas áreas acreditavam que um único
padrão estético era o correto o estilo em voga
traduzia a verdade e a virtude, e quem dele duvidasse poderia ser
tachado de louco. "Os detratores do meu projeto devem ser neuróticos",
desabafou certa vez Walter Gropius, diante das críticas a
um dormitório que idealizara para a Universidade Harvard.
Hoje a liberdade de criação é total. Mas a
capacidade de rejeição do público também
não conhece limites. Da tensão entre essas duas forças
é que surgem aquelas poucas formas que vão marcar
seu lugar na história.
Com reportagem de
Gustavo Poloni e Rosana Zakabi
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