Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Imprensa
Viagra do jornalismo

Seymour Hersh não dá trégua ao governo
Bush com suas reportagens investigativas

 
Fotos AP
Soldado americano ameaça prisioneiro iraquiano (à esq., no alto), e civis mortos no massacre de My Lai (à esq.): crimes militares denunciados pelo jornalista Hersh (à dir.)

Antes que um presidente americano pense em começar uma guerra, deveria lembrar que existe Seymour Hersh. Há mais de três décadas o jornalista de 67 anos incomoda os poderosos de Washington com reportagens sobre desatinos que eles prefeririam manter em sigilo. Nas últimas três semanas, na revista New Yorker, na qual escreve desde 1992, Hersh tem disparado matérias que enfurecem o Pentágono, inflamam o Congresso e tiram o sossego da opinião pública. A primeira revelou o relatório secreto das Forças Armadas sobre os maus-tratos a que eram submetidos os prisioneiros iraquianos em Bagdá. A segunda mostrou que esse tipo de abuso era mais disseminado do que o Pentágono admitia. Por fim, na semana passada, afirmou que o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, tinha aprovado técnicas pesadas de interrogatório, o que abriu caminho para os abusos cometidos na prisão em Bagdá. A última acusação – ruidosamente negada pela cúpula militar – ameaça transformar-se numa enorme crise política para o governo Bush.

Nestes tempos de informação instantânea transmitida pela TV e pelos jornais on-line, é surpreendente que seja esse jornalista veterano – que prefere anotar números de telefone no verso de cartões amarelos a usar agenda eletrônica – quem anda fazendo diferença. A rede de televisão CBS, que primeiro conseguiu as fotos de torturas no Iraque, segurou a divulgação por duas semanas a pedido do Pentágono. Só as colocou no ar porque soube que Hersh tinha a informação e não havia força no mundo capaz de demovê-lo de expor publicamente o que o Exército americano estava fazendo de errado no Oriente Médio. Hersh disse a VEJA, na semana passada, que os assessores do Pentágono nem sequer tentaram convencê-lo a não divulgar a história. "Estou há muito tempo nessa estrada, eles sabem que não iam conseguir nada comigo", explicou.

Seymour Hersh – ou Sy, como é conhecido por amigos e inimigos – é o repórter investigativo americano mais importante de sua geração (e das seguintes também). Foi ele quem denunciou o maior escândalo da história militar dos Estados Unidos, o massacre de 500 civis vietnamitas na aldeia de My Lai por um pelotão americano em 1968. A selvageria do episódio – os soldados americanos estupraram as mulheres antes de matá-las e executaram até bebês – chocou o mundo e contribuiu para precipitar o fim da Guerra do Vietnã. Diferentemente de outros expoentes do jornalismo americano, como Bob Woodward, cujas reportagens sobre o escândalo Watergate contribuíram para a renúncia do presidente Richard Nixon nos anos 70, Hersh nunca se tornou palatável aos poderosos. Ele ainda encarna com afinco o papel de cão de guarda do interesse público, sem desgrudar o olho de abusos militares, escândalos de espionagem, ações diplomáticas secretas e negócios escusos feitos por empresas e políticos. Entre outras revelações, ele esmiuçou o papel da CIA no golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende, denunciou o bombardeamento do Camboja por ordem do então secretário de Estado Henry Kissinger e expôs o apoio implícito da Casa Branca ao programa de armas nucleares de Israel.

Para descobrir histórias como essas, Hersh recorre a suas fontes do Pentágono, da CIA e do governo. São elas que lhe passam documentos e informações exclusivos sob a garantia de que não serão identificadas nas reportagens. Às vezes ele erra. Em 1996, tentou vender à TV um documentário sobre um suposto caso amoroso entre Kennedy e Marilyn Monroe. Baseava-se num bilhete da atriz, que se descobriu ser falso. Hersh teve de excluir a história do livro que escreveu sobre Kennedy, pouco antes da publicação. Ele voltou a sua melhor forma depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, quando começou a investigar a política de defesa comandada por Donald Rumsfeld. Foi como se ele tivesse tomado um viagra do bom jornalismo, comparou a revista americana Newsweek.

 

ENTREVISTA
Não é um Vietnã

O jornalista Seymour Hersh, da New Yorker, falou com VEJA, de seu escritório em Washington, sobre a repercussão de suas matérias sobre a tortura de presos iraquianos.  

Veja – O senhor é criticado por usar muitas fontes anônimas em suas reportagens.
Hersh – Quando falo com alguém sobre assuntos secretos, como posso revelar quem me deu o relatório? É o caso da pessoa que me falou sobre a operação de tortura que denunciei nesta semana. É contra a lei fazer o que ela fez, divulgar segredos do governo.

Veja – Qual será a conseqüência dessas denúncias de tortura?
Hersh – Compare o caso atual com a reportagem que fiz sobre o massacre de My Lai, na Guerra do Vietnã. O que nossos soldados fizeram recentemente contra os prisioneiros iraquianos não foi como em My Lai. Eles não os executaram. Mas é uma enorme derrota estratégica. A maior parte dos iraquianos sunitas gostava de nossa gente, de nossa música, de nossas roupas, da vida que nós, americanos, levamos. Tudo isso mudou, porque o que nossos soldados fizeram é perversidade para com os sunitas. Com isso, perdemos amigos potenciais e essa é uma perda estratégica. É muito mais sério do que as pessoas imaginam.

Veja – O governo americano o critica por revelar segredos de Estado, argumentando que isso vai contra a segurança nacional. O que o senhor acha disso?
Hersh – Eu me preocuparia se não estivesse revelando esses segredos. Muitos dos militares que são minhas fontes não concordam com minha posição política. Eu os respeito. Eles vêm falar comigo porque estão muito descontentes com o que está acontecendo. Um general importante veio me dizer dois dias atrás que não suportaria ver os soldados dele capturados, despidos e humilhados com um saco enfiado na cabeça. Esse assunto não tem nada a ver com segurança nacional, tem a ver com senso comum.

 
 
 
 
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