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Justiça
A
donzela e a morte
Ministra
chilena, vítima da ditadura,
é vizinha do militar que a torturou

Diogo Schelp
Reuters
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| A
ministra da Defesa, Michelle Bachelet: reconciliação sem revanche
contra militares |
De todos os prédios residenciais de Santiago, capital do
Chile, Michelle Bachelet comprou um apartamento, sem saber, justamente
no imóvel em que seu antigo torturador mora. O vizinho Marcelo
Morén Brito é um ex-coronel da polícia secreta
que, em 1975, espancou Michelle e sua mãe no campo de concentração
de Villa Grimaldi, onde elas estiveram presas durante os anos de
chumbo chilenos. Quase trinta anos depois, torturador e torturada
ficaram de novo frente a frente no elevador do prédio. A
situação, no entanto, se inverteu. Michelle Bachelet,
de 51 anos, é ministra da Defesa e a primeira colocada nas
pesquisas para as eleições presidenciais do ano que
vem. Brito está sendo processado pelos crimes que cometeu
durante a ditadura. Quando ela entra no elevador, ele sai. Esse
reencontro dramático é tremendamente parecido com
o enredo de A Morte e a Donzela, peça teatral do escritor
chileno Ariel Dorfman que foi adaptada para o cinema por Roman Polanski.
Na ficção, uma mulher seqüestra o sujeito que
a torturou durante a ditadura e ameaça matá-lo se
não confessar seus crimes. A protagonista fica obcecada com
a idéia de que a punição de seu algoz pode
ter o poder de aliviar o trauma que ela sofreu com a tortura. É
o dilema da sociedade chilena em geral a ditadura do general
Augusto Pinochet deixou 3 000 mortos e desaparecidos e de
Michelle Bachelet em particular.
Paris Filmes
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| Sigourney
Weaver e Ben Kingsley no filme A Morte e a Donzela, de
1994: tensão entre torturada e torturador |
Desde
o primeiro reencontro até hoje, já faz quatro anos
que Michelle vive no mesmo edifício de seu algoz. Chegou
a pensar em se vingar. Mas concluiu que isso não mudaria
o passado. Como ministra da Defesa, ela adotou a mesma postura.
Os altos comandantes das Forças Armadas, com quem tem de
lidar diariamente, a adoram por isso. Michelle tinha tudo para nutrir
ódio aos militares. Seu pai, Alberto Bachelet, foi um general
da Força Aérea que ocupou um cargo de destaque no
governo do presidente Salvador Allende, deposto por um golpe em
11 de setembro de 1973. Alberto foi preso e morreu sob tortura,
em 1974. Poucos meses depois, Michelle, então com 23 anos,
e sua mãe também foram presas. Em seguida, foram para
o exílio.
Com
o fim da ditadura, em 1990, Michelle Bachelet, que é pediatra,
começou a fazer cursos sobre defesa nacional em academias
militares no Chile e nos Estados Unidos. "A maioria das pessoas
com o meu passado sente uma rejeição profunda por
qualquer coisa que tenha a ver com militarismo, mas eu sentia que
estava recuperando uma parte do meu ser", costuma dizer Michelle.
Em 2000, ela foi nomeada ministra da Saúde do governo socialista
de Ricardo Lagos e, em 2002, assumiu a pasta da Defesa. A cúpula
militar chilena gosta de Michelle porque a considera a pessoa ideal
para promover uma reconciliação entre repressores
e perseguidos do passado. "Ela tem uma posição benevolente
que contrasta com a punição sistemática defendida
pelas organizações de torturados e desaparecidos",
disse a VEJA o cientista político Oscar Godoy, professor
da Universidade Católica do Chile. Michelle tem o desafio
de diminuir o papel dos militares na política do país.
Sua estratégia é democratizar as Forças Armadas
aos poucos e sem revanchismos. Com isso, além dos militares,
conquistou a maioria da população: ela tem 54% das
intenções de voto para as eleições presidenciais
de 2005.
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