Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Justiça
A donzela e a morte

Ministra chilena, vítima da ditadura,
é vizinha do militar que a torturou


Diogo Schelp

Reuters
A ministra da Defesa, Michelle Bachelet: reconciliação sem revanche contra militares


De todos os prédios residenciais de Santiago, capital do Chile, Michelle Bachelet comprou um apartamento, sem saber, justamente no imóvel em que seu antigo torturador mora. O vizinho Marcelo Morén Brito é um ex-coronel da polícia secreta que, em 1975, espancou Michelle e sua mãe no campo de concentração de Villa Grimaldi, onde elas estiveram presas durante os anos de chumbo chilenos. Quase trinta anos depois, torturador e torturada ficaram de novo frente a frente no elevador do prédio. A situação, no entanto, se inverteu. Michelle Bachelet, de 51 anos, é ministra da Defesa e a primeira colocada nas pesquisas para as eleições presidenciais do ano que vem. Brito está sendo processado pelos crimes que cometeu durante a ditadura. Quando ela entra no elevador, ele sai. Esse reencontro dramático é tremendamente parecido com o enredo de A Morte e a Donzela, peça teatral do escritor chileno Ariel Dorfman que foi adaptada para o cinema por Roman Polanski. Na ficção, uma mulher seqüestra o sujeito que a torturou durante a ditadura e ameaça matá-lo se não confessar seus crimes. A protagonista fica obcecada com a idéia de que a punição de seu algoz pode ter o poder de aliviar o trauma que ela sofreu com a tortura. É o dilema da sociedade chilena em geral – a ditadura do general Augusto Pinochet deixou 3 000 mortos e desaparecidos – e de Michelle Bachelet em particular.


Paris Filmes
Sigourney Weaver e Ben Kingsley no filme A Morte e a Donzela, de 1994: tensão entre torturada e torturador

Desde o primeiro reencontro até hoje, já faz quatro anos que Michelle vive no mesmo edifício de seu algoz. Chegou a pensar em se vingar. Mas concluiu que isso não mudaria o passado. Como ministra da Defesa, ela adotou a mesma postura. Os altos comandantes das Forças Armadas, com quem tem de lidar diariamente, a adoram por isso. Michelle tinha tudo para nutrir ódio aos militares. Seu pai, Alberto Bachelet, foi um general da Força Aérea que ocupou um cargo de destaque no governo do presidente Salvador Allende, deposto por um golpe em 11 de setembro de 1973. Alberto foi preso e morreu sob tortura, em 1974. Poucos meses depois, Michelle, então com 23 anos, e sua mãe também foram presas. Em seguida, foram para o exílio.

Com o fim da ditadura, em 1990, Michelle Bachelet, que é pediatra, começou a fazer cursos sobre defesa nacional em academias militares no Chile e nos Estados Unidos. "A maioria das pessoas com o meu passado sente uma rejeição profunda por qualquer coisa que tenha a ver com militarismo, mas eu sentia que estava recuperando uma parte do meu ser", costuma dizer Michelle. Em 2000, ela foi nomeada ministra da Saúde do governo socialista de Ricardo Lagos e, em 2002, assumiu a pasta da Defesa. A cúpula militar chilena gosta de Michelle porque a considera a pessoa ideal para promover uma reconciliação entre repressores e perseguidos do passado. "Ela tem uma posição benevolente que contrasta com a punição sistemática defendida pelas organizações de torturados e desaparecidos", disse a VEJA o cientista político Oscar Godoy, professor da Universidade Católica do Chile. Michelle tem o desafio de diminuir o papel dos militares na política do país. Sua estratégia é democratizar as Forças Armadas aos poucos e sem revanchismos. Com isso, além dos militares, conquistou a maioria da população: ela tem 54% das intenções de voto para as eleições presidenciais de 2005.

 
 
 
 
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