Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Comportamento
Cabala para as massas

Como a antiga tradição judaica
se transformou em auto-ajuda


Marcelo Marthe

No original hebraico do Antigo Testamento, a travessia do Mar Vermelho pelos judeus que fugiam do Egito tem seu clímax em três versículos, cada um deles com 72 letras. À luz da cabala, uma vertente do judaísmo marcada pela interpretação mística das Escrituras, permutações dessas letras revelariam 72 nomes de Deus, que seriam chaves para a elevação espiritual. Por séculos, lidar com o mistério desses nomes foi uma tarefa religiosa acessível a poucos. O rabino americano Yehuda Berg, no entanto, resolveu facilitar a vida daqueles que estão sempre em busca de uma nova técnica para cuidar da alma – a grande tribo dos esotéricos. No livro Os 72 Nomes de Deus, lançado nos Estados Unidos no ano passado, ele ensina como usar aquelas palavras sagradas para atingir objetivos como a cura de doenças, a melhoria do desempenho sexual e o enriquecimento. "Para ter acesso às maravilhas dessa tecnologia espiritual, basta seguir as instruções à risca", disse ele a VEJA na semana passada. Berg é diretor do Kabbalah Centre, em Los Angeles, uma instituição fundada por seu pai em 1971 e que, nos últimos anos, se tornou a maior responsável pela transposição da cabala para o terreno da auto-ajuda. Entre os que freqüentam os encontros do centro estão as cantoras Madonna e Britney Spears, o roqueiro Mick Jagger e as atrizes Demi Moore e Susan Sarandon. Hoje, o centro possui cinqüenta filiais espalhadas pelo mundo. Seus seguidores já somariam 3 milhões de pessoas – cerca de 10.000 das quais no Brasil, onde tem endereços em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Uma das razões da popularidade do centro entre as celebridades é que lá não se ouvem sermões contra a vida glamourosa ou a ostentação materialista. Desde que os adeptos vivam seus prazeres sem culpa e de forma que não prejudique o próximo, tudo bem. Madonna é, de todos eles, a garota-propaganda mais eficiente – e também uma entusiasta de todas as horas. Oito anos depois de se iniciar na cabala, a cantora afirma ser outra mulher. "Ela é uma aluna aplicada e amiga. Conversamos muito sobre a guerra no Iraque e o problema da fome no mundo", diz Berg. De tão amiga, Madonna não negou fogo quando solicitada a colaborar com os projetos de expansão do centro: no ano passado, doou 6 milhões de dólares para a aquisição de uma filial em Londres, a três quadras de sua residência na capital inglesa. Demi Moore já declarou que aprendeu a dar valor à sua "dignidade enquanto ser humano" graças ao centro. Marla Maples, ex-mulher do bilionário Donald Trump, conta que se sentia "horrorosa por dentro" antes de descobrir a cabala. Recentemente, a cantora Britney Spears juntou-se a essa turma – mas vem cabulando as aulas. "Ela chegou com muito entusiasmo, mas não deu mais as caras depois que saiu em turnê", afirma o rabino.

Os estudos da cabala remontam à Idade Média. O pulo-do-gato do Kabbalah Centre foi oferecer ensinamentos extraídos do livro sagrado dos cabalistas, o Zohar, desvinculando-os das demais práticas da religião judaica. Uma parte considerável de seus freqüentadores não professa esse credo. O fundador do centro foi um ex-corretor de seguros nova-iorquino, Feivel Gruberger. Hoje septuagenário, ele confia o comando da rede cabalista aos filhos Yehuda, de 32 anos, e Michael, de 31. O primogênito é, inegavelmente, a celebridade do clã. Trata-se de um homem eloqüente e grandalhão – ele se dedica a um hobby nada contemplativo, as aulas de jiu-jítsu com um professor brasileiro, em Beverly Hills, onde vive. "Tento passar a ele os ensinamentos da cabala, mas ele ainda não viu a Luz", diz Berg.

A sede do centro em Los Angeles costuma ser chamada por Berg de "zona de guerra" – o inimigo, no caso, é Satã, o grande responsável pelo caos na vida das pessoas. Nos cursos e livros, ensinam-se regras que parecem saídas de manuais de aprimoramento pessoal, como aquela segundo a qual nada na vida é coincidência – é o próprio indivíduo quem semeia aquilo que colherá. Os rabinos da instituição também gostam de comparar os símbolos em hebraico que inspiram as meditações a códigos de barra, como aqueles que se encontram em embalagens e etiquetas de produtos. "Eles são ininteligíveis aos olhos humanos. Mas a alma, assim como uma máquina de supermercado, é capaz de escanear suas emanações divinas", diz o rabino Shmuel Lemle, da filial carioca do Kabbalah Centre.

Muitos judeus torcem o nariz ao que consideram um barateamento de sua fé promovido pelo centro – algo que já foi apelidado de "McMisticismo". Os Berg vêm se revelando hábeis para explorar o comércio de produtos relacionados à cabala, de velas afrodisíacas a uma água mineral abençoada que ajudaria a curar doenças. O produto mais popular é uma pulseira vermelha cuja finalidade seria afastar o olho gordo. A atriz Winona Ryder – outra cabalista de mão-cheia – foi flagrada usando uma dessas pulseirinhas em seu julgamento por cometer furto numa loja de departamentos. Os Berg já foram acusados de destruir casamentos de seguidores. Outros denunciaram o apetite insaciável do clã por doações polpudas. Depois de se separarem, tanto Mick Jagger quando sua ex Jerry Hall procuraram o auxílio dos rabinos. Jerry, no entanto, acabou se desligando do centro, por achar que estavam pedindo dinheiro demais a ela.

 

 
 
 
 
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