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Comportamento
Cabala
para as massas
Como
a antiga tradição judaica
se
transformou em auto-ajuda

Marcelo
Marthe
No
original hebraico do Antigo Testamento, a travessia do Mar Vermelho
pelos judeus que fugiam do Egito tem seu clímax em três
versículos, cada um deles com 72 letras. À luz da
cabala, uma vertente do judaísmo marcada pela interpretação
mística das Escrituras, permutações dessas
letras revelariam 72 nomes de Deus, que seriam chaves para a elevação
espiritual. Por séculos, lidar com o mistério desses
nomes foi uma tarefa religiosa acessível a poucos. O rabino
americano Yehuda Berg, no entanto, resolveu facilitar a vida daqueles
que estão sempre em busca de uma nova técnica para
cuidar da alma a grande tribo dos esotéricos. No livro
Os 72 Nomes de Deus, lançado nos Estados Unidos no
ano passado, ele ensina como usar aquelas palavras sagradas para
atingir objetivos como a cura de doenças, a melhoria do desempenho
sexual e o enriquecimento. "Para ter acesso às maravilhas
dessa tecnologia espiritual, basta seguir as instruções
à risca", disse ele a VEJA na semana passada. Berg é
diretor do Kabbalah Centre, em Los Angeles, uma instituição
fundada por seu pai em 1971 e que, nos últimos anos, se tornou
a maior responsável pela transposição da cabala
para o terreno da auto-ajuda. Entre os que freqüentam os encontros
do centro estão as cantoras Madonna e Britney Spears, o roqueiro
Mick Jagger e as atrizes Demi Moore e Susan Sarandon. Hoje, o centro
possui cinqüenta filiais espalhadas pelo mundo. Seus seguidores
já somariam 3 milhões de pessoas cerca de 10.000
das quais no Brasil, onde tem endereços em São Paulo
e no Rio de Janeiro.
Uma
das razões da popularidade do centro entre as celebridades
é que lá não se ouvem sermões contra
a vida glamourosa ou a ostentação materialista. Desde
que os adeptos vivam seus prazeres sem culpa e de forma que não
prejudique o próximo, tudo bem. Madonna é, de todos
eles, a garota-propaganda mais eficiente e também
uma entusiasta de todas as horas. Oito anos depois de se iniciar
na cabala, a cantora afirma ser outra mulher. "Ela é uma
aluna aplicada e amiga. Conversamos muito sobre a guerra no Iraque
e o problema da fome no mundo", diz Berg. De tão amiga, Madonna
não negou fogo quando solicitada a colaborar com os projetos
de expansão do centro: no ano passado, doou 6 milhões
de dólares para a aquisição de uma filial em
Londres, a três quadras de sua residência na capital
inglesa. Demi Moore já declarou que aprendeu a dar valor
à sua "dignidade enquanto ser humano" graças ao centro.
Marla Maples, ex-mulher do bilionário Donald Trump, conta
que se sentia "horrorosa por dentro" antes de descobrir a cabala.
Recentemente, a cantora Britney Spears juntou-se a essa turma
mas vem cabulando as aulas. "Ela chegou com muito entusiasmo, mas
não deu mais as caras depois que saiu em turnê", afirma
o rabino.
Os
estudos da cabala remontam à Idade Média. O pulo-do-gato
do Kabbalah Centre foi oferecer ensinamentos extraídos do
livro sagrado dos cabalistas, o Zohar, desvinculando-os das
demais práticas da religião judaica. Uma parte considerável
de seus freqüentadores não professa esse credo. O fundador
do centro foi um ex-corretor de seguros nova-iorquino, Feivel Gruberger.
Hoje septuagenário, ele confia o comando da rede cabalista
aos filhos Yehuda, de 32 anos, e Michael, de 31. O primogênito
é, inegavelmente, a celebridade do clã. Trata-se de
um homem eloqüente e grandalhão ele se dedica
a um hobby nada contemplativo, as aulas de jiu-jítsu com
um professor brasileiro, em Beverly Hills, onde vive. "Tento passar
a ele os ensinamentos da cabala, mas ele ainda não viu a
Luz", diz Berg.
A
sede do centro em Los Angeles costuma ser chamada por Berg de "zona
de guerra" o inimigo, no caso, é Satã, o grande
responsável pelo caos na vida das pessoas. Nos cursos e livros,
ensinam-se regras que parecem saídas de manuais de aprimoramento
pessoal, como aquela segundo a qual nada na vida é coincidência
é o próprio indivíduo quem semeia aquilo
que colherá. Os rabinos da instituição também
gostam de comparar os símbolos em hebraico que inspiram as
meditações a códigos de barra, como aqueles
que se encontram em embalagens e etiquetas de produtos. "Eles são
ininteligíveis aos olhos humanos. Mas a alma, assim como
uma máquina de supermercado, é capaz de escanear suas
emanações divinas", diz o rabino Shmuel Lemle, da
filial carioca do Kabbalah Centre.
Muitos
judeus torcem o nariz ao que consideram um barateamento de sua fé
promovido pelo centro algo que já foi apelidado de
"McMisticismo". Os Berg vêm se revelando hábeis para
explorar o comércio de produtos relacionados à cabala,
de velas afrodisíacas a uma água mineral abençoada
que ajudaria a curar doenças. O produto mais popular é
uma pulseira vermelha cuja finalidade seria afastar o olho gordo.
A atriz Winona Ryder outra cabalista de mão-cheia
foi flagrada usando uma dessas pulseirinhas em seu julgamento
por cometer furto numa loja de departamentos. Os Berg já
foram acusados de destruir casamentos de seguidores. Outros denunciaram
o apetite insaciável do clã por doações
polpudas. Depois de se separarem, tanto Mick Jagger quando sua ex
Jerry Hall procuraram o auxílio dos rabinos. Jerry, no entanto,
acabou se desligando do centro, por achar que estavam pedindo dinheiro
demais a ela.
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