Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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No bicentenário do Père Lachaise,
a administração do cemitério pede um
presente: livrar-se do roqueiro Morrison


Flavia Varella, de Paris


AP
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O cemitério parisiense de Père Lachaise comemora 200 anos neste mês como a sétima atração turística mais freqüentada da cidade mais visitada do mundo. Vários monumentos, lápides e esculturas foram restaurados para a ocasião, que também mereceu uma grande exposição. Aproveitando as comemorações da efeméride – contidas, como convém, mas concorridas –, a administração vem intensificando as queixas contra aquele que é, ao mesmo tempo, seu mais visitado condômino e sua maior dor de cabeça: o roqueiro americano Jim Morrison, líder da banda The Doors, morto em Paris em 1971. "O maior presente que o cemitério poderia receber neste bicentenário seria a saída de Jim Morrison. Se alguém o quisesse, eu o despacharia imediatamente, e com grande alívio", desabafou a VEJA o historiador Christian Charlet, responsável pelo cemitério.

Para o indignado Charlet, "o fenômeno Jim Morrison é um fenômeno de delinqüência". Seus admiradores, diz, usam os arredores do túmulo para se embriagar e se drogar, jogam restos de cigarros lícitos e ilícitos na sepultura, quebram e picham a própria e as vizinhas. Familiares dos ocupantes de tumbas próximas fizeram um abaixo-assinado exigindo a expulsão do roqueiro, e Charlet levou a reivindicação várias vezes à polícia francesa e à embaixada americana. "A família o renega e os Estados Unidos não querem saber dele", resume. O vandalismo diminuiu depois que o túmulo passou a ser vigiado dia e noite, "a um custo enorme", visto que o cemitério não conta com um grande número de funcionários. Dos cerca de 100 empregados do Père Lachaise, trinta fazem a segurança das 69.000 sepulturas. Os demais são coveiros e jardineiros, estes ocupados principalmente em recolher as folhas mortas que caem de suas 4.000 árvores e 2.000 arbustos.

Criado cinco anos após a Revolução Francesa, o Père Lachaise tornou-se o primeiro cemitério laico e a primeira área verde de Paris aberta ao público (todos os parques e jardins eram particulares). Como local de passeio, foi um sucesso, mas os nobres continuaram a ser enterrados nas igrejas e o povo, nas fossas comuns. Para incentivar o uso do novo espaço, o governo transferiu para lá os restos de Molière e La Fontaine, mas o Père Lachaise só vingou mesmo depois que Balzac situou nele uma cena do romance O Pai Goriot. Em 200 anos, o cemitério recebeu cerca de 1 milhão de mortos, muitos deles célebres. Estão lá, entre outros, a atriz Sarah Berhardt, os pintores Delacroix e Modigliani, o compositor Frederic Chopin, as cantoras Edith Piaf e Maria Callas, o fundador do espiritismo Alain Kardec (que tem o túmulo mais florido, graças principalmente às visitas de brasileiros) e os escritores Marcel Proust e Oscar Wilde, cuja tumba é repleta de marcas de beijos com batom. Além, claro, do indesejado Morrison.

 
 
 
 
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