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Cidades
Quem
vai querer?
No
bicentenário do Père Lachaise,
a administração do cemitério pede um
presente: livrar-se do roqueiro Morrison

Flavia Varella, de Paris
AP
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O cemitério parisiense de Père Lachaise comemora 200
anos neste mês como a sétima atração
turística mais freqüentada da cidade mais visitada do
mundo. Vários monumentos, lápides e esculturas foram
restaurados para a ocasião, que também mereceu uma
grande exposição. Aproveitando as comemorações
da efeméride contidas, como convém, mas concorridas
, a administração vem intensificando as queixas
contra aquele que é, ao mesmo tempo, seu mais visitado condômino
e sua maior dor de cabeça: o roqueiro americano Jim Morrison,
líder da banda The Doors, morto em Paris em 1971. "O maior
presente que o cemitério poderia receber neste bicentenário
seria a saída de Jim Morrison. Se alguém o quisesse,
eu o despacharia imediatamente, e com grande alívio", desabafou
a VEJA o historiador Christian Charlet, responsável pelo
cemitério.
Para
o indignado Charlet, "o fenômeno Jim Morrison é um
fenômeno de delinqüência". Seus admiradores, diz,
usam os arredores do túmulo para se embriagar e se drogar,
jogam restos de cigarros lícitos e ilícitos na sepultura,
quebram e picham a própria e as vizinhas. Familiares dos
ocupantes de tumbas próximas fizeram um abaixo-assinado exigindo
a expulsão do roqueiro, e Charlet levou a reivindicação
várias vezes à polícia francesa e à
embaixada americana. "A família o renega e os Estados Unidos
não querem saber dele", resume. O vandalismo diminuiu depois
que o túmulo passou a ser vigiado dia e noite, "a um custo
enorme", visto que o cemitério não conta com um grande
número de funcionários. Dos cerca de 100 empregados
do Père Lachaise, trinta fazem a segurança das 69.000
sepulturas. Os demais são coveiros e jardineiros, estes ocupados
principalmente em recolher as folhas mortas que caem de suas 4.000
árvores e 2.000 arbustos.
Criado
cinco anos após a Revolução Francesa, o Père
Lachaise tornou-se o primeiro cemitério laico e a primeira
área verde de Paris aberta ao público (todos os parques
e jardins eram particulares). Como local de passeio, foi um sucesso,
mas os nobres continuaram a ser enterrados nas igrejas e o povo,
nas fossas comuns. Para incentivar o uso do novo espaço,
o governo transferiu para lá os restos de Molière
e La Fontaine, mas o Père Lachaise só vingou mesmo
depois que Balzac situou nele uma cena do romance O Pai Goriot.
Em 200 anos, o cemitério recebeu cerca de 1 milhão
de mortos, muitos deles célebres. Estão lá,
entre outros, a atriz Sarah Berhardt, os pintores Delacroix e Modigliani,
o compositor Frederic Chopin, as cantoras Edith Piaf e Maria Callas,
o fundador do espiritismo Alain Kardec (que tem o túmulo
mais florido, graças principalmente às visitas de
brasileiros) e os escritores Marcel Proust e Oscar Wilde, cuja tumba
é repleta de marcas de beijos com batom. Além, claro,
do indesejado Morrison.
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