Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Venezuela
"O Estado sou eu"

Chávez agora quer cassar a cidadania
de jornalistas que criticam seu governo



AP
Chávez: campanha para intimidar a oposição e impedir o plebiscito para encurtar seu mandato

Irritado com críticas a sua atuação, o presidente pretende expulsar o jornalista do país. Não, não se está falando de Luiz Inácio Lula da Silva e de sua frustrada tentativa de cassar o visto do correspondente estrangeiro que escreveu sobre seus, como diz o Palácio do Planalto, "hábitos sociais". O presidente em questão é o venezuelano Hugo Chávez. De modo bem diferente de seu colega brasileiro, ele não quer punir um repórter estrangeiro incômodo e, sim, cassar a nacionalidade de jornalistas venezuelanos que lhe fazem oposição. O pedido de retirada da cidadania já foi aprovado pela Assembléia Nacional, onde o truculento presidente tem folgada maioria, e encaminhado à Justiça. Como nasceram no exterior e se naturalizaram venezuelanos, os dois jornalistas ameaçados podem ser expulsos do país. O plano original de Chávez era incluir no pacote dois venezuelanos natos – o popular comentarista político Napoleón Bravo e o empresário Gustavo Cisneros, dono da rede de TV Venevision, a maior da Venezuela –, mas ele acabou dissuadido diante da dificuldade de retirar a cidadania de pessoas nascidas no país.

AP
Em campanha: todo o poder a Chávez


O motivo alegado pelo governo é "traição à pátria" – assim, como se o governante e a pátria fossem uma mesma entidade. A acusação, escreveu um jornal venezuelano, só faria sentido se Hugo Chávez fosse o rei francês Luís XIV, aquele que dizia "o Estado sou eu". O presidente parece empenhado em elevar a tensão política e intimidar a oposição. Nesta semana, os venezuelanos deverão confirmar suas assinaturas no abaixo-assinado que pede a convocação de um plebiscito para encurtar o mandato do presidente. Se a oposição obtiver o mínimo de 2,4 milhões de assinaturas, o plebiscito será em agosto. Há um mês, Chávez conseguiu aprovar uma lei na Assembléia Nacional que aumenta o número de juízes da Suprema Corte de Justiça. Com a possibilidade de nomear novos juízes, ele praticamente assegurou as vitórias do governo em decisões judiciais de última instância.

Um confuso episódio envolvendo um grupo de 100 colombianos detidos numa propriedade rural na periferia de Caracas, no início do mês, também serviu de pretexto para Chávez fustigar a oposição. O governo venezuelano alega que os detidos eram mercenários contratados por oposicionistas para derrubar o governo. Não foram encontradas armas com o grupo e o próprio governo admitiu que muitos dos supostos mercenários eram agricultores recrutados na fronteira com a promessa de emprego. O episódio ainda está sob investigação, mas Chávez rapidamente denunciou uma "conspiração internacional" envolvendo os governos da Colômbia e dos Estados Unidos. Logo em seguida, a polícia venezuelana invadiu residências de vários oposicionistas em busca de provas, incluindo a do ex-presidente Carlos Andrés Perez. Na semana passada, insistindo na tese conspiratória, o presidente venezuelano empenhou-se na criação de milícias populares para defender seu governo. Trata-se da mesma iniciativa adotada por Fidel Castro nos primeiros anos da Revolução Cubana. Chávez parece ter buscado inspiração em quem tem experiência para se eternizar no poder.

 
 
 
 
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