Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Iraque
Descida ao inferno

Ocaso de Chalabi, aposta de Bush
para o lugar de Saddam, atesta o
fiasco americano no Iraque


José Eduardo Barella


AP
Fotos de vítimas de míssil americano que atingiu festa de casamento no Iraque: uma guerra de imagens

A invasão do Iraque é uma descida ao inferno em muitos sentidos. A soldadesca americana desembarcou no país acreditando ser o mocinho da história. Esperava ser recebida como libertadora por um povo agradecido. A realidade é diferente. A Casa Branca parece não ter levado em conta as tensões sociais, étnicas e religiosas que esperavam suas tropas no Iraque. Em lugar do estabelecimento automático de um regime democrático que serviria de modelo para o Oriente Médio, há caos, resistência armada e soldados que se comportam de forma torpe. O conflito no Iraque é uma guerra de imagens, mais do que de armas. As fotos dos abusos na prisão de Abu Ghraib são um choque para a opinião pública americana e também para a árabe. A imagem dos americanos ficou ainda mais prejudicada na semana passada, depois que um helicóptero militar disparou um míssil contra uma festa de casamento num vilarejo remoto, perto da fronteira com a Síria. Morreram 45 pessoas, muitas delas mulheres e crianças. Como é comum no mundo árabe, os convidados festejavam com disparos para o ar. Os militares, que desconhecem os costumes locais, acharam que estavam sendo atacados.


AFP
Foto de Chalabi danificada na invasão de sua casa


A descida ao inferno de Ahmed Chalabi, o milionário iraquiano que já foi a alternativa preferida do Pentágono para assumir o poder no Iraque, seguiu a trajetória percorrida pela intervenção americana no Iraque. Tanto um quanto outro geraram expectativas exageradas, com resultados desastrosos. Antes da invasão, Chalabi iludiu a Casa Branca com relatórios equivocados ou falsos de desertores sobre as armas de destruição em massa de Saddam. E garantiu que não haveria resistência por parte da população iraquiana à ocupação militar. Ele estava de olho, obviamente, nas vantagens que obteria com a derrubada do ditador. Mesmo assim, ao planejar a queda de Saddam, o Pentágono preferiu dar crédito às informações do exilado em vez de seguir os relatórios menos otimistas dos serviços de informação.

Nos últimos quatro meses, ele passou de salvador da pátria a bode expiatório dos erros estratégicos americanos no Iraque. Na quarta-feira passada, soldados americanos e policiais iraquianos invadiram sua casa, reviraram gavetas, destruíram móveis e prenderam quinze colaboradores do milionário sob a acusação de envolvimento com fraude e seqüestro. Como o Pentágono pode dar tal crédito a um mentiroso? De 1998 para cá, o governo americano passou 40 milhões de dólares ao Congresso Nacional Iraquiano, a organização de Chalabi. Apesar de suas mentiras terem sido desmascaradas, ele só caiu em desgraça depois de começar a criticar publicamente a Casa Branca. Para piorar, ele foi procurar o apoio dos aiatolás do Irã, os piores inimigos dos Estados Unidos na região.

 
 
 
 
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