Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Oriente Médio
Sem rumo em Gaza

Israel ataca e mata dezenas de
palestinos no território. Mas não
deveria estar se retirando de lá?

 
AP
Polícia retira colonos judeus à força de assentamento irregular na Cisjordânia e crianças feridas na ofensiva em Gaza: caos em toda parte

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Em Profundidade: A Questão Palestina

Nem os israelenses entendem o que acontece em Israel. O primeiro-ministro Ariel Sharon anunciou a intenção de retirar os colonos e as tropas israelenses da Faixa de Gaza, plano que tem o apoio do presidente americano George W. Bush, da União Européia, da Rússia, das Nações Unidas e, implicitamente, do líder palestino Iasser Arafat. Apesar de estar teoricamente de saída, na semana passada seu Exército se embrenhou em uma operação devastadora em campos de refugiados na fronteira de Gaza com o Egito. O resultado foram milhares de desabrigados e dezenas de mortos, na maioria civis. Dias antes, Israel tinha perdido treze soldados em veículos destruídos por explosivos instalados por palestinos. Se a ocupação da Faixa de Gaza, território que Israel tomou na guerra de 1967, está com os dias contados, em nome de que está morrendo tanta gente?

Uma explicação é que, com dificuldade para vender seu plano de retirada de Gaza aos membros de seu próprio partido, o Likud, Sharon quisesse fazer uma exibição de força, como quem diz: "Nós vamos sair, mas não pensem que isso significa que fomos derrotados". A regra do olho por olho, dente por dente, que vigora no conflito entre árabes e judeus, dá mostras de ter chegado a um nível insuportável. Há duas semanas, 150.000 israelenses foram às ruas em Tel-Aviv para apoiar a retirada de Gaza, onde moram 7.000 colonos judeus e 1,3 milhão de palestinos. O número de colonos é pequeno demais para justificar o custo financeiro e político da ocupação militar na região.

As principais lideranças internacionais concordam que a solução do conflito está na criação de um Estado palestino independente nos territórios ocupados. O mais difícil é convencer Israel a sair da Cisjordânia, onde vivem 230.000 colonos. Na semana passada, a tentativa de soldados israelenses de destruir um assentamento ilegal na região acabou em quebra-pau. O plano de Sharon prevê a manutenção das principais colônias judaicas da área, para desgosto dos palestinos. A retirada de Gaza também sofre entraves. O primeiro-ministro teme que, assim que completar a retirada de Gaza, a região se torne uma base para que militantes árabes lancem ofensivas contra Israel. Por isso, a estratégia de Sharon é manter uma estreita faixa de segurança na fronteira entre o Egito e o território palestino. Isso inclui desalojar as pessoas que moram perto da fronteira e cortar o contrabando de armas por túneis subterrâneos.

Israel tem o direito de se defender dos propósitos bélicos dos extremistas árabes, que adorariam riscar o Estado judeu do mapa do Oriente Médio. O difícil é entender o que isso tem a ver com as atrocidades cometidas em Gaza na semana passada. A destruição das moradias próximas à fronteira é um pesadelo que se repete para famílias que perderam suas casas no que hoje é o território israelense, com a criação do Estado de Israel, há 56 anos, e foram obrigadas a se refugiar na Faixa de Gaza. Na semana passada, 2 000 dos 140 000 habitantes de Rafah estavam desabrigados. Revoltadas, 3 000 pessoas iniciaram uma manifestação que foi dispersada pelos israelenses com tiros de canhão, um míssil disparado por um helicóptero e rajadas de metralhadora. Morreram dez pessoas, incluindo crianças. Os porta-vozes do Exército de Israel disseram que os disparos não foram direcionados contra a multidão. Pouco importa. O fato é que, quando se faz uma operação militar em meio a uma área residencial densamente povoada, como é Rafah, o resultado só pode ser desastroso.

As duas expressões mais usadas pelos comandantes israelenses para explicar a intervenção em Rafah eram "homens armados" e "túneis de contrabando". Os homens armados eram militantes árabes que se misturavam aos manifestantes pacíficos carregando fuzis. As armas chegaram ali pelos túneis que atravessam, por baixo da terra, a fronteira do Egito com Gaza. Esses túneis não são utilizados apenas para traficar armas. Eles têm uma função econômica importante para os moradores de Gaza. Ali se contrabandeiam remédios, comida, cigarros e material de higiene, produtos que, se fossem comprados em Gaza, seriam muito mais caros. É uma espécie de Ponte da Amizade do Oriente Médio.

 
 
 
 
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